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quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Um amigo do tio -- Roberta Iannamico
Um amigo do tio
grandalhão
deitado na areia
um cachorro o acorda
se jogando em cima dele
me interessa principalmente
a parte em que o cara faz carinho
no cachorro
sarnento
cobrindo a mão
com as mangas do pulôver.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
Aníbal Cristobo
O vídeo acima, com a linda leitura do Aníbal Cristobo, e o texto a seguir foram feitos em 2009 para o blog da modo de usar & co. Em maio de 2014, será publicado o livro novo do Aníbal, o Minha vida como bactéria, e ele virá ao Rio para o lançamento. Reproduzo o texto abaixo exatamente como saiu no blog da modo; gostaria apenas de acrescentar o link para a Kriller71 edicciones, editora criada pelo poeta em 2013 dedicada à edição de poesia e que já conta com um catálogo de traduções de pesos pesados: http://kriller71ediciones.com/inicio/
aqui a capinha do minha vida como bactéria (no prelo!)
Aníbal Cristobo nasceu em Buenos Aires, em 1971. Aníbal Cristobo viveu durante 5 anos no Rio de Janeiro, onde publicou seu primeiro livro, Teste da Iguana (1997), pela editora 7Letras, ao qual se seguiram jet-lag (2002), krill (2004) e Miniaturas Kinéticas (2005). Aníbal faz parte do conselho da revista Inimigo Rumor, verteu para o português diversos poetas hispano-americanos, como Antonio Cisneros e Gonzalo Rojas, edita a coleção argentina de poesia "bike-bike" e, em 2007, criou o site Escolhas afectivas, versão brasileira do modelo argentino Afinidades electivas, que reúne atualmente mais de uma centena de escritores. No blog kriller 71, podemos ler quase toda sua produção e também suas mais recentes traduções. Em 2002, Aníbal se instala em Barcelona, onde reside atualmente. Sua passagem pelo Brasil deixará muitas pegadas, marcas e rastros, e me lembro agora da iguana deixando seu passo na areia, figura que aparece em seu primeiro livro, mescla de velocidade e forma, mancha de luz:
Teste da Iguana
Animal: figura da velocidade
e da forma – mancha
de luz – que cruzou o caminho:
o passo da iguana e seu
selo na areia: repouso,
repetição do corpo
e o impregnado: a
pegada
como livro de paixões
e de assombro; e espelho: desdobrando
tua voz, igualando-a
com teu próprio desejo
como em algo
como num exercício metonímico:
“o passo da iguana
e seu sistema de indeterminação: forma
ou velocidade?”
Iguana:
teus olhos frios na pedra laranja,
rapidíssimos,
como final de toon.-
Este final inesperado de cartoon acompanhará muitos de seus poemas e é uma espécie de fuga da fixidez: é forma ou movimento? Este final de toon é um pouco também como sua partida do Brasil. O que era mesmo que ele dizia naquela tarde em que nos conhecemos? Já não lembrava bem, havia uma indeterminação na imagem, mas uma manhã ele escreveu para contar que sonhou que estava no Brasil e ficava angustiado porque tinha muitas coisas para fazer no que chamava agora de sua casa e não se lembrava de ter planejado uma viagem assim tão longa.Então me perguntava: “isso aqui é um sonho, verdade?”. Respondia que aquilo era um sonho sim, “mas que ele vinha sonhando com isso havia muito tempo já.” Tenta ligar o walkie-talkie ou algo com fio que possa fornecer as informações mais recentes no aberto de um deserto, na curva de um espaço: estabelecer de que lado está quem, o que é real e o que é sonho, quem ou o que estão dizendo esses, aqueles poemas. E quais formas eles devem ter: um disco na névoa, um puzzle de montanhas chinesas ou a capacidade de reter um pixel da imigrante húngara passeando por Nova Iorque, saída de um filme de Jim Jarmusch:
Eszter
Um pixel da tua pele –
Uma peça da rarefação, a coleção
do sonho, como um crawl
na neve
eras o pardal no poste,
sacudindo-se apenas
e em Manhattan, tomando
um chá: como aquela
garotinha de Hopper
também você um chapéu.
Mas você: uns óculos,
um impala ‘68,
uma música.-
A história do sonho contada naquele dia poderia ser um poema em que um assobio seca os pássaros no ar ou um poema sobre a personagem sentada na varanda escura olhando para as luzes da cidade depois de ter ido embora. Talvez seja um jogo de deslocar-se constantemente de formas o que fazem seus textos, de mudar de lugar para contar essas histórias de outra maneira, talvez este seu teste da iguana: figura de velocidade e forma, em perpétuo desmontar-se e que deveria, constantemente, estar fazendo alguma outra coisa.
Ao contar sobre a “infância do seu procedimento”, Aníbal diz que tenta sempre usar uma caneta ou algo que não faça muita pressão sobre o papel, para não deixar, como nos filmes policiais, a mensagem marcar a folha por debaixo e ser descoberta depois. No livro krill (2004), reconhecemos esse mundo em que se tenta não marcar muito o papel, um mundo sempre escapando mas que volta de uma outra maneira com a presença da série. E neste livro podemos pensar em série tanto no sentido de variações, como os belíssimos poemas da série “Filhas do capinzal”, se multiplicando e vestindo diferentes máscaras ao longo do livro: versão mangá, versão western ou versão galáctica, por exemplo, mas também podemos pensar em série de seriado, filme policial, em que sem perceber vamos colecionando as diversas pistas, como os exploradores espalhados pelo seu livro: às 3 a.m., a garota indiana em Denver, os 19 suspeitos ou esses cabelos que poderiam entregar a filha do capinzal:Filha do capinzal (uma canção)
A que arranhou o disco da névoa
enquanto todos dormiam em suas roupas
risíveis, era eu.
A que teve um sonho nas gengivas
até que as frutas apagaram suas lembranças
e gravaram seqüências, na
noite do paladar – era eu.
Que a lua não venha, agora
que peço. Que os macacos caminhem
de mãos dadas, em santidade.
Por seus relâmpagos os reconhecerás. Verás
o que o encantador não diz.
A que esculpiu seus heróis nas unhas, a que
curou as pedras, era eu.
E a que viu o koala, mantendo relações
com sua mulher, e o trevo de saturno, com suas
dez folhas bruxas, era eu.
Que a peste carregue este caderno.
Que os exploradores não encontrem meus cabelos.-
Reproduzo aqui outro poema da série "Filha do capinzal", agora a versão japonesa:
Filha do capinzal (mangá version)
Isto
parece o quarto da garota, com tantos cyber
posters, a limonada e
a mochila em cima de uma cama. Que
olhos são aqueles, estes, admirados
e abertos como uma cerejeira em flor?
Deitada aqui
escuto o ploc das botas
no convés, o som
das baleias azuis neste mar congelado.
Tudo tão quieto
como um teatro nô. E no
pesqueiro
lembro teus beijos japoneses, teu andar
iluminado por uma chuva fina, teu
dizer digital.-
Falando em variações, krill explora a ideia de série de maneiras diversas e apresenta também algumas “versões” para poemas de outros autores, como se fossem covers de músicas. Há, por exemplo, uma versão do poema “O urso”, de Ted Hughes, ou então de “Distancias incomensuráveis”, da Lu Menezes:
Distâncias incomensuráveis
Um espelho cai e bate
se quebra contra
estrelas se desfazem
na noite imaginária de um céu
do pensamento. Muito e pouco
distam
das estrelas e luas de strass
que sobre a mesa de um camelô
o sol faz brilhar: “a BBC
sonhava com tudo o que eu – mas eu
só comigo sonhava!”gritou
Souza, pela oniaudiente megafone instalado
em sua mente. Pela TV se vê
que para atrair os índios, um
espelho
foi deixado brilhando no matagal.
Mas quem afasta verdes feixes
de elétrons, e penetra
no vibrante espaço do capinzal
– distante e infinito –
sou eu. Eu:
trânsfugo índio que acha
a trânsfuga estrela no chão.-
Do livro krill, seguem mais dois belíssimos poemas, gravados no vídeo acima, “Céu do siamês” e “Ema”:
Céu do siamês
Oculto entre os cobertores, falo
com o siamês; “siamês, vamos para o Novo
México, quero ver a ruína
da ferrugem ao sol, e o
deserto de dias, um
cacto”. Cada um de nós
leva o roçar de suas pedras
na mão, compara
o método de seu rosto na ilha do medo. Eu
sou assim, e também
posso ser como você, fracassar
ao morder uma
pêra, ou um biscoitinho
qualquer. Siamês, me leva para longe, diz em
meu ouvido a tua posição
neste céu branco
do navio; e do falar, diz
cada repetição de
tuas palavras, aonde te
conduzem.-
Cielo del siamés Escondido en las mantas, hablo / con el siamés; “siamés, vamos a Nuevo / México, quiero ver cómo se arruina / el óxido en el sol, y el / desierto de días, un / cactus”. Cada uno de nosotros // lleva el rozar de sus piedras / en la mano, compara / el método de sus mejillas en la isla del miedo. Yo // soy así, y también / puedo ser como vos, fracasar / al morder una // pera, o cualquier / galletita. Siamés, llevame lejos, contame // en el oído cuál es tu posición / en este cielo blanco / del navío; y del hablar, decime / cada repetición de / tus palabras, adónde te / conducen.-
Ema
Chega a ema – cansada
de transmitir seu acorde – e sussurra
em teu ouvido:
– basta de peso físico, diz
– pastar, diz
Mas a ema é a bomba
de tempo! É o ladrão! Te descobre
sentado entre as rochas:
– vamos para o aberto, diz
– a curva do espaço, diz
Se há um diamante, é
o da persuasão e distração – como um
ilusionista: “o segredo é a viagem”; sonha
que te hipnotiza; mas também:
– “Eu não sou a ema! A ema
é invisível; e não é verdade
que olhe o céu, aguardando instruções.”-
Ñandú Llega el ñandú – cansado / de transmitir su acorde – y susurra / en tu oído: // – basta de peso físico, dice / – a pastar, dice // Pero el ñandú es la bomba / de tiempo! Es el ladrón! Te descubre / sentado entre las rocas: // – vamos hacia lo abierto, dice / – la curva del espacio, dice // Si hay un diamante, es / el de la persuasión y distracción – como un / ilusionista: “el secreto es el viaje”, sueña / que te hipnotiza; pero también: // –“Yo no soy el ñandú! El ñandú / es invisible, y no es cierto / que mire al cielo, esperando instrucciones”.-
E, por último, reproduzo o poema (ainda inédito em português) de seu projeto em andamento "Brazilian Grooves", composto de textos dedicados a amigos brasileiros:
Pane para um Monge Acrobata
à memória do Leo
Mas quem é que manda você sair sem lembrar
do chapéu, nem
da melodia que vinha assobiando, com os sapatos
cheios de sabão, pisando na
corda
bamba, com seu sorriso triste, logo
quando cortam a luz? Quem manda
embaixo desse céu inundado de peixes, com a tormenta
elétrica distorcendo as palavras, a
comunicação da torre
de controle, a batida do samba? Há um segundo
em que tudo pára, se interrompem
as notícias das Syferts do fundo do universo, a
mastigação das zebras da savana, a corrida
do jockey de camisa laranja; e ainda outro segundo
onde a movimentação é retomada
exatamente no sentido inverso: escutamos a voz da mulher
dizer
“…mmmaf… sssequências cervicais
do acrobata… mmmhuem… “
e
“…shhhhnnai? cervicais de um
ouriço , Om?”, enquanto os anéis de fumaça
do seu cigarro
voltam aos seus pulmões. Desta vez
o efeito vai nos jogar
longe daqui, Leo, na paisagem tropical
do rótulo
de uma garrafa de rum
bem na hora em que alguém
se serve de um copo, deixando os coqueiros
de cabeça para baixo; ou, com o macacão sujo por concertar a nave, no meio do estádio
de Wembley, verde fosforescente
na Playstation em que duas crianças
brincam de brigar pelo chute do Messi
na hora dos pênaltis: o que
vamos fazer ali no meio, Leo? A verdade é que assim
vou acabar
podendo ouvir cada vez menos músicas, ler
menos criticas, ter menos medo de escutar tua risada
quando eu falo bobagens. Aí seguimos, mais
ou menos os dois, aproximadamente
eu e você, o que quer que isso seja,
contra o fundo instável do poema.-
______________________________________________
Gravamos o vídeo que abre esta postagem em uma tarde de abril de 2009 em Barcelona, na Carrer de casp, depois de um almoço com a Mônica. Quando enviei o link do vídeo, Aníbal respondeu: “é estranho me ver sem você do outro lado da tela.”
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Bicicleta roubada sequestrada – Cecília Pavón
Talvez a revolução esteja em seus corpos e eu não a veja
Essa é a história de uma bicicleta roubada
Sei apenas que perto do canal está o dono
ou a dona
Perto do canal,
perto de um canal
Mas esqueci o nome das ruas
Uma madrugada saímos depois de beber em um bar revolucionário
e minha bicicleta estava presa acidentalmente a outra
uma corrente se enredava por entre os cabos do freio e
a mantinha
sujeita a um poste
Todos iam embora
em táxis
em ônibus
em carros que estavam cheios
e eu não podia pegar minha bicicleta
tive que deixá-la ali
Se alguém a encontrar ali
vai quebrar o cadeado
e levá-la embora
mas de qualquer jeito era roubada
comprada por um preço muito baixo
no mercado de pulgas
ou em um quintal de fundos suspeito
de uma mulher imigrante
não se entendia muito bem o que ela dizia
mas de todo modo dizia:
“esta ser bicicleta minha velha”
“esta não ser roubo”
São três horas da tarde de um dia de verão com vento
As árvores que até agora estavam secas
movem-se extremamente carregadas
de folhas transbordantes de vida
Em vez de neve, fibras de pólen alongadas que voam
como insetos
Alguém prendeu sua bicicleta acidentalmente à minha
não sei se é um acidente ou um roubo
não sei se é um roubo ou se é a verdadeira dona
que sei que existe porque um dia se aproximou de mim em um parque
Eu não sou a verdadeira dona, eu a comprei
por este preço tão baixo
neste quintal
nos fundos
ou mercado de pulgas
de uma mulher com sotaque de estrangeira
de cabelos compridos e jeans gastos
que dizia
“não perigo, esta ser bicicleta minha passado”
Depois de conhecer a felicidade da bicicleta
Estar sem ela é como viver sem asas
Passavam os dias e a bicicleta seguia ali na ponte
o dono não vinha desatá-la, era verão, voava o pólen
manchado de sol
eu pedia bebidas que me faziam mal
como expresso
café
preto
sem leite
olhava para a bicicleta do outro lado da ponte e chorava
A bicicleta rosada presa
através do cabo do freio
por engano
à bicicleta celeste, oxidada, de um desconhecido
O sequestro da bicicleta roubada acontece
durante a única semana de sol do ano
As coisas grandes
as coisas raras
acontecem em momentos de decisão ou de loucura
por exemplo:
deixar seu país,
cortar o cabo do freio
com um alicate para liberar a bicicleta,
desfrutar
gozar
com o crime
quebrar a roda da outra bicicleta ou
jogar ácido no banco
Algo assim.
A bicicleta era a minha única fonte de diversão
Agora que está chegando o verão
e são poucas as horas de verdadeira noite
a bicicleta era a minha melhor,
minha única amiga
Sei que parece besteira
é até tão simples
mas passeando de bicicleta pela cidade
me sentia livre
a cidade era como uma paisagem
que eu podia ver de graça
passando a toda velocidade
pela janela de uma trem inter-city
só que a janela não tinha caixilhos
era uma janela sem limite
e rosada
uma janela com forma de bicicleta rosada
roubada
comprada de uma garota
que dizia “não ser perigo, não roubado, minha antes bicicleta”
Eu sabia que era roubada
mesmo assim comprei
Um dia em um parque chegou para mim
a verdadeira dona
uma mulher de uns trinta anos
e disse que aquela era sua bicicleta
mas eu a defendi com unhas e dentes
inventei uma história estranhíssima
complicada
com muitas etapas
de como essa bicicleta tinha
vindo de Paris de barco
pelo correio, desmontada
em uma caixa de papelão
enviada como presente por um ex-amante
Se me tiram a bicicleta
o que mais me resta aqui?
Sim,
há os cafés revolucionários
onde se discute o futuro do mundo
Mas nada
nada
pode se comparar
a ela.

Cecilia Pavón nasceu em Mendoza, Argentina, em 1973. Publicou dentre outros, Pink Punk (2003) e este, ao lado, Caramelos de Anís (2004), onde podemos ler o poema "Bicicleta roubada sequestrada". Cecília Pavón participa do coletivo Belleza y Felicidad, que faz edições e exposições, e vive em Buenos Aires.
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Esse mesmo – Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para se armar de coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para se armar de coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para se armar de coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para se armar de coragem
contra o contra da sorte.
–
–
Bíblica
Como aquele que viu uma vez
o homem
que vende a Bíblia
e escutou sua palavra
em um café qualquer
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que apoiado em sua mesa
quando está
olhando para o vazio
é interrompido
pela palavra deste homem
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que escuta
aturdido
falar de revelação
entre o barulho das xícaras
cercado pela fumaça
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que em seguida
afasta
o rosto desse homem
e volta a olhar
fixamente o vazio
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que fica assim
depois
apoiado em sua mesa
enquanto sua cabeça mistura
a Palavra com o preço
e o Espírito com a encadernação
como esse
como esse
– Na verdade, na verdade lhes digo.
–
Falando sozinho
Como aquele que vai falando
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
–
Lendo o jornal
Como aquele que um dia
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Esse mesmo é uma seção do livro,
ou "poema en cuatro tiempos",
El solicitante descolocado,
publicado pela primeira vez em 1957.
A edição ao lado é de 2008,
da Paradiso Poesía.
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