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sábado, 15 de outubro de 2011

A definição do segundo é mais longa do que o segundo – Nathalie Quintane






1. Muito branco iluminado em uma superfície plana pode ofuscar.

2. A matéria do quadrado é igual à matéria sobre a qual ele está desenhado.

3. Um quadrado sólido em rotação produz um deslocamento de ar.

4. Um quadrado sólido em translação se moverá mais se a superfície sobre a qual ele desliza estiver oleosa.

5. Apenas de modo ilusório pode-se entrar em um quadrado.

6. Um quadrado com cinco ângulos é uma visão do espírito.

7. O olho não se desloca harmoniosamente ao longo das linhas mas por solavancos seguindo sua órbita.

8. Não existe quadrado original.

9. O tempo que se leva para reconhecer um quadrado varia segundo cada pessoa mas raramente excede o segundo.

10. A definição do segundo (o segundo é a duração de 99.263.177 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133) é mais longa do que o segundo.


ao traduzir esse poema 
da nathalie quintane
que li no site 
lembrei que traduzir 
é um modo de ler um texto 
com uma lupa
e lembrei que a interferência de gralhas e typos 
num texto 
pode mesmo mudar o mundo criado por aquele texto
lembrei disso hoje
mas afinal como fazer ao traduzir
será que é preciso consertar aquilo que se supõe gralha
ou será que é preciso incorporar o novo mundo que a gralha criou

a definição de segundo 
[que dura mais do que o segundo] 
é
segundo várias fontes na internet
[nem sempre confiáveis]
9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre dois níveis hiperfinos 
do estado fundamental do átomo de césio 133

no poema da quintane
o número desses períodos aparece reduzido a 99milhões
será mesmo um typo 
ou o poema vive em um outro tipo de tempo? 
por via das dúvidas
mantive o número do original
mas deixo aqui essa observação-de-lupa

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Novas explicações: um problema da poesia – Nathalie Quintane










Nathalie Quintane nasceu em Paris, em 1964. Nathalie Quintane é uma poeta francesa. Nathalie Quintane participa de leituras e perfomances e publica também romances. Este Novas explicações, originalmente publicado na revista Action Poétique, saiu na Modo de usar & co. 2. Para ler mais textos da Nathalie Quintane em português, visite o blog da Modo de usar & co. ou o lindo livro Começo, publicado na ás de colete (cosac, 7letras).

terça-feira, 11 de outubro de 2011

blá-blá-blá – Olivier Cadiot


Os passageiros embarcaram/ o navio embarcou os passageiros
O céu escureceu/ as nuvens escureceram o céu

(1) A doente está perdida
(2) A bolsa foi perdida pela minha filha
(3) O mar está agitado

Pierre, encontrando
                                  ou Encontrando o que buscava, Pierre está feliz

Os olhos1 estavam voltados para ele, os olhos2 estavam voltados para ele... os olhosn estavam voltados para ele  Os olhos estavam voltados para ele


Eu faria qualquer coisa para qualquer um

                       O papel é amarelo

                                   Mas a sequência
                                                                O sol faz o papel amarelo
                                               torna-se:
                                                                O sol amarela o papel

Que Pierre esteja doente, eis o que causa um adiamento de meus projetos  Pierre doente, eis o que causa um adiamento de meus projetos

(Aquele que causa aflição em alguém, aquele que aflige)





A criança1 está doente, a criança2 está doente, ... a criançan está doente


                                                                                     O papel amarelou
                                                               resulta de:
                                                                                     O sol amarelou o papel

                                                                                             (eu quero) silêncio → silêncio!

É preciso viver aqui!

                                                                                            A mata não pode flutuar
                                                                                            Esse projeto não pode viver
                                                                                            Esses insetos podem machucar
                                                                                            Essa ideia não pode ser compatível 
                                                                                            com a minha

Eu quero que isso seja silêncio

                                                            [krwa]
                                                            [krwa]

Quando ele chegar, vou lhe dizer

Esconda-se atrás dessa rocha → Está vendo essa rocha, esconda-se atrás dela

Pierre, encontrando o que ele buscava, está feliz
Pierre, a encontrar o que ele buscava, está feliz

                                                                  Uma doença é curável
                                                                  Um doente é incurável

[...]




Olivier Cadiot nasceu em Paris, em 1956. Nos anos 90, coeditou, com Pierre Alféri, a Révue de Littérature Générale (cuja capinha abre esse post). Este blá-blá-blá é um excerto de L’Art poétic, seu primeiro livro de poemas, publicado em 1988, texto que encena uma espécie de tratado poético todo construído a partir de usos, frases e tics da língua francesa. Ao colar e listar enunciados comuns em um único texto, sua arte poétic vai produzindo um estranhamento na leitura e dando a ver, de forma muito bem humorada, as possibilidades e funcionamentos da língua. 

Na tradução, algumas nuances da língua de partida desaparecem, como o uso dos tempos compostos no francês (fazendo com que o EST, por exemplo, esteja presente em muitas frases, em tempos verbais diferentes, repetindo-se sem parar). No site da P.O.L. Éditeur podemos ler as primeiras páginas do L’Art poétic

Cadiot publicou também vários romances, como Futur, ancien, fugitif, com heróis diferentes em cada um deles, mas sempre chamados de Robinson, por poderem encarnar, com esse nome, um arquipersonagem, isso é, um personagem que constrói novas relações e novas histórias a partir dos escombros do seu mundo naufragado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O que dizia o poema – Jacques Roubaud




O que dizia o poema, esqueci
Soube dizer o que dizia o poema, mas esqueci
O poema dizia isso, mas isso que dizia o poema, esqueci
Que o poema dissesse isso, era isso que dizia o poema? Se é isso que dizia o poema, esqueci
Talvez, sem saber o que dizia o poema, enquanto eu dizia o poema, (no tempo em que eu dizia o poema), eu já tivesse esquecido
mas se é isso que dizia o poma, esqueci
Agora, quando digo esse poma, não sei se digo esse poema, já que o que dizia o poema, esqueci
É por isso que o que dizia esse poema não é mais verdadeiramente o que dizia o poema
E que esqueci


Tradução de Marcelo Jacques de Moraes





Jacques Roubaud nasceu em Rhône, em 1932. Jacques Roubaud é poeta e matemático e participa do OULIPO desde a sua criação, em 1960. Publicou diversos livros, dentre os quais:  Quelque chose noir, Poésie, La forme d'une ville change plus vite, hélàs, que le coeur des mortels. Desde cedo, Jacques Roubaud foi tomado pela síndrome de "ice cube", segundo nos conta Inês Oseki-Deprê no posfácio à tradução que fez do Algo : preto: síndrome que consiste em não falar de si nem de seus sentimentos. Na foto ao lado, o poeta estava em uma soirée oulipienne, num dos muitos encontros feitos quando da celebração de 50 anos do grupo. Aliás, vê-se na foto um demi-Jacques-Roubaud, ao lado de seus companheiros oulipianos: pedaço de Roubaud por detrás de um terno preto, por detrás de uma estante de livros, por detrás das falas oulipianas, no momento em que alguém sussurrava seu nome e a linguagem se concretizava no espaço, em uma tarde de domingo na livraria Comptoir des mots.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O morto – Charles Pennequin




quanto tempo vou ficar me fazendo de morto no jardim 
quanto tempo vou ficar me fazendo de morto no sótão ou então isso é o quarto
eu já não sei bem se é o sótão ou se é o quarto
vejo daqui o respiradouro ou será a janela 
eu já não sei se vejo bem pode ser que esteja vendo bem até demais
se continuar assim verei ainda melhor 
e então poderei dizer se vou continuar me fazendo de morto
será que devo continuar por muito tempo me fazendo de morto 
pelo menos até que eles cheguem
e se continuo como morto assim será que eles virão aqui me ver 
virão ver se estou morto de verdade
talvez eles venham aqui me ver e me desejar feliz aniversário
hoje é seu aniversário você tem dez anos 
daqui a pouco vai fazer quinze anos que você tem 10 anos
agora você tem que parar de se fazer de morto você vai sair do quarto
e vai passear e vai brincar e vai para perto do canal
e vai cair no canal e vai brincar com um amigo 
o amigo vai achar que você foi embora e esqueceu a bicicleta e ele vai trazer a bicicleta de volta e você estará no canal 
você estará mergulhado ali dentro querendo pegar os peixes e você não vai sair de lá
você queria pegar os peixes e acabou caindo no canal e seu amiguinho voltou 
ele disse que não te encontrou 
e eles disseram que você ainda estava se fazendo de morto em algum lugar





Charles Pennequin nasceu em Cambrai, norte da França, em 1965. Charles Pennequin é um poeta francês. Charles Pennequin participa de muitas leituras e faz performances lendo seus poemas. Charles Pennequin publica seus textos desde 1995, em formatos diversos por editoras diferentes (P.O.L., al dante, Niok etc.), dentre os quais estão livros como La ville est un trou, 1jour, Bibine e Loupé, publicado este ano. Charles Pennequin escreve no blog http://charles_pennequin.20six.fr/ onde mostra textos inéditos e várias performances e leituras. Selecionei algumas capas de seus livros para produzir uma dimensão-visual da sua obra em papel: 


 




Charles Pennequin escreveu um poema chamado "o morto". Traduzi este poema diretamente do áudio (pois não localizei o texto escrito) e isso reforçou a relação com o caráter sonoro da poesia de Pennequin. Sua leitura (já postada no blog da modo de usaré bem característica: Pennequin costuma falar seus textos nesse ritmo: literalmente à bout de souffle