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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Minha vida com o doutor Lacan – Jacques Roubaud



"Um livro é a autobiografia de seu título
e, como tal, é a narrativa de uma singularidade", fim de citação.


1.
Aos 20 anos, percebi que uma amiga minha de infância era linda.
Eu estava amando. Ela se chamava Sylvia.


2.
Era filha de Paul Bénichou. A mãe era Gina, nome de solteira Labin.


3.
Um dia, fomos juntos ver um filme de Jean Renoir, O crime do Sr. Lange. Descobri que a atriz principal tinha sido amiga íntima de Gina Labin-Bénichou. O nome dela era Sylvia Bataille.


4.
Lembro que naquela época Paul Bénichou, sempre de uma elegância irrepreensível, gostava de falar dos jalecos coloridos que seu amigo Lacan usava durante a juventude. Acho que havia uma ponta de ironia no que ele dizia.


5.
Nós tivemos uma filha, Laurence: Laure é um nome provençal e também o nome da prima do meu pai, que vivia em Saint-Jean du Var; um nome de poema. Além disso, a filha de Sylvia Bataille se chamava Laurence Bataille.


6.
Em 1961, depois do suicídio do meu irmão, me levaram, como militar repatriado por motivos médicos do Saara , para o pavilhão isolado do hospital de Val-de-Grâce. O doutor Lacan se responsabilizou pela minha alta do hospital e pela minha volta para casa. Ele me recebeu em seu consultório. Eu só me lembro do silêncio.


7.
Provavelmente em 1965, com um amigo da época, o matemático Philippe Courrège, eu li e tentei entender o "Seminário da carta roubada".


8.
Um dia, acho que no final de 1968, recebi um telefonema. Atendi e ouvi uma voz: "Sou eu". De novo, o silêncio. "Lacan" (não tenho certeza dessa última palavra, mas das primeiras, sim.), "Temos que nos ver."


9.
Marcamos, então, um encontro; eu fui até a casa dele, na rue de Lille; saímos para caminhar; mas ele não me disse o motivo do encontro.


10.
Assim, nós nos vimos 2 vezes.


11.
Eu nunca mais o revi.


**


texto publicado pela primeira vez em 1989 na 1/1 paris-londres éditions
e depois nessa linda edição (cuja capinha abre este post)
da éditions de l'attente http://www.editionsdelattente.com

sexta-feira, 22 de maio de 2015

[Perdido. Há uma piscina...] – Pierre Alferi






Perdido. Há uma piscina em algum canto
e num outro um boliche enterrado.
Labirinto é um lugar do qual conhecemos os ângulos,
como se os tivéssemos traçado em outro momento, mas
não identificamos exatamente o ponto em que estamos.
Atrás do Panthéon para o leste, chegando dessa vez
nas ruas Monsieur-le-Prince e Soufflot: é ali,
Q-17 no Indispensável. A máxima mais alegre
seria "você não vai embora até ver tudo".
Acho que sei o nome de cada ruela entre
a rua Mouffetard e a rua Geoffroy-Saint-Hilaire
 grande coisa! Subimos e descemos o tempo todo,
dizemos: pronto, era aqui então. Para penetrar num labirinto,
em sua ideia, é preciso além de tudo excluir a eventual possibilidade
de andar em círculos. Assim, o vendedor de madeira e carvão,
a rua do Puits-de-l'Ermite e, consequentemente, a própria rua
sempre me pareceram ou muito altas ou muito baixas.
Li um artigo sobre as abelhas e os robôs descentrados,
a viagem tranquila de um indivíduo, de uma informação
através de uma colmeia, um cérebro, um país que não tem
mapa. Gosto acima de tudo dos rituais, da miopia,
do que vem por eliminação ou no passo a passo,
o olhar no nível do chão. A rua Mouffetard é uma régua graduada
para toda a região, mas uma regra cujos valores
 uma livraria, o Roi Café, o mercado se invertem logo que eu viro as costas.
O destino, para uma caminhada metódica,
é menos um ponto, aquele digamos onde acaba a rua de la Clef,
do que o preenchimento de casas vazias. Pode-se assim considerar
cada segmento como um parêntese. Ao modo dos turistas
que fazem Creta, eu faço esse lugar. Para completar minha desorientação,

não vi ninguém que tenha me visto, caçador nem explorador.
Na rue Épée-de-Bois, um caminhão transporta as cartas.





















poema originalmente publicado no livro Chemin familiar du poisson combatif (1992)
mas lido nessa antologia para flâneurs
com poemas que falam sobre andar (e se perder) pelas ruas de Paris

o pierre alferi é um poeta e artista francês
o pierre alferi é professor na école de beaux arts
ele escreveu vários livros fez alguns cine-poemas e tem esse blog com seu trabalho
aqui um dos cine-poemas

tive uma dúvida ao traduzir esse poema: o que é Q-17 no Indispensável?
Q-17 pode ser um certificado anti-incêndio
Q-17 pode ser um sistema de câmeras
Q-17 pode ser muitas outras coisas
ainda não consegui decifrar
o que é
nem o Indispensável
que ele fique sendo aqui mais uma medida para me deixar perdida no mapa
por fim poderia ser um ponto no jogo de batalha naval...

ah
e a imagem do henri cartier-bresson
de 1954
é na rue mouffetard
e se chama
en fait
rue mouffetard
embora o menino não tenha a menor pinta de perdido...

quarta-feira, 20 de maio de 2015

[excerto de Ellis Island] – Georges Perec


[Ellis Island, segundo a wikipedia, em 1905]


cinco milhões de emigrantes vindos da Itália

cinco milhões de emigrantes vindos da Irlanda

um milhão de emigrantes vindos da Suécia

seis milhões de emigrantes vindos da Alemanha

três milhões de emigrantes vindos da Áustria e da Hungria

três milhões e quinhentos mil emigrantes vindos da Rússia e da Ucrânia

cinco milhões de emigrantes vindos da Grã-Bretanha

oitocentos mil emigrantes vindos da Noruega

seiscentos mil emigrantes vindos da Grécia

quatrocentos mil emigrantes vindos da Turquia

quatrocentos mil emigrantes vindos dos Países Baixos

seiscentos mil emigrantes vindos da França

trezentos mil emigrantes vindos da Dinamarca



          durante todos esses anos, os navios a
vapor da Cunard Line, da Red Star Line, da
Anchor Line, da Italian Line, da Hamburg-
Amerika Line, da Holland-America Line,
atravessaram o Atlântico norte

        eles partiam de Rotterdam, de Brême, de
Göteborg, de Palerme, de Istambul, de Napoles, de Anvers,
de Liverpool, de Lübeck, de Salonique, de Bristol, de
Riga, de Cork, de Dunkerque, de Stettin,
de Hambourg, de Marselha, de Gênes, de Danzig, de
Cherbourg, de Pirée, de Trieste, de Londres, de Fiume,
de Havre, de Odessa, de Tallin, de Southampton

     eles se chamavam Darmstadt, Furst
Bismark, Staatendam, Kaiser Wilhelm,
Königin Luise, Westerland, Pennland,
Bohemia, Polynesia, Prinzess Irene, Princeton
Umbria, Lusitania, Adriatic,
Cornia, Mauretania, San Giovanni,
Giuseppe Verdi, Patricia, Duca degli Abruzzi,
New Amsterdam, Martha Washington,
Turingia, Titanic,
Lidia, Susquehanna, Albert-Balin
Hansington, Columbus, Reliance, Blücher




       mas a maior parte daqueles que, no fim
da exaustiva viagem, descobriam Manhattan
emergindo da bruma, sabiam que sua prova
não tinha terminado

eles ainda precisavam passar por Ellis Island
ilha que
em todas as línguas da Europa
tinha sido apelidada de A ilha das lágrimas

tränen Insel

wispa lez

island of tears

isola delle lagrime

oстров слез


         é uma pequena ilhota de quatorze hectares,
a algumas centenas de metros da ponta de
Manhattan.
os índios a chamavam de Ilha das Gaivotas
e os holandeses de Ilha das Ostras

[...]




nessa época
quase dezesseis milhões
de homens, de mulheres e de crianças
passaram por Ellis Island
dos quais mais de três quartos
entre 1892 e 1914

nesses anos
chegavam
quase dez mil pessoas por dia

___________________________



trechinho tirado desse livro aí em cima
Ellis Island, de Georges Perec (edição linda da POL)
que conta um pouco sobre a ilha-órgão
que abrigava o controle de imigração nos Estados Unidos até 1914

sábado, 4 de outubro de 2014

Epopeia, uma aventura de Batman -- Christophe Fiat


À noite,
em Gothan City,
tudo é imenso
tudo acontece
no infinito
das aventuras
do Batman.
Vemos apenas
as chamas
e as imagens
se sobrepõe
como as tantas
manchetes
que anunciam
as mudanças
feitas
na cena do crime.
Numa das manchetes
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ
Então Batman faz sua ronda
como um animal
no grande cenário
natural
de Gotham City,
Batman fala pouco.
Sua voz responde.
Ela é rápida
atonal
plana
horizontal
neutra.
Batman tem
a loucura comum
aos aventureiros
que tratam
a noite
como um inferno.
Batman diz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Se Batman fala pouco,
ele bate muito
Muitas vezes ele mata [...]

Quando Batman
diz sim!
E faz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Batman passa à ação
Então a noite
de Gothan City
se ilumina por um instante
com as chamas da ação
de Batman
Então ele está
no auge
da sua vida mítica-real
que avalia
todas as transformações
ocorridas
como as transformações
de um homem
em morcego.
O problema
de Batman
é que nunca sabemos
se estamos
em um filme de criminosos
ou num filme policial
porque
quando Batman bate
ele passa sem distinção
da situação ao duelo
(filme de criminosos)
e do duelo à situação
(filme policial).
Para Batman
todas as ações
são cegas
e todas as situações
são obscuras
e a noite
de Gotham City
é o teatro de operações
de uma catástrofe
que chega
como uma canção
e que atravessa os lugares
e as pessoas.
Batman
tem o senso prático
desenvolvido
É preciso lidar
com o tempo
É preciso entrar
na engrenagem
da noite
É preciso
abolir o tempo
É preciso
manter
a velocidade
de propagação
de uma imagem falsificada
por quanto tempo for possível,
sideral
e siderado e siderante
que se reparte diretamente
no rumor
das chamas
e das brigas de rua.

Na manchete
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ
Então sabemos
que se refere ao Batman.
Mesmo que seja
só uma frase
"EU VOU MATAR VOCÊ ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ"
circulando pela
noite de Gothan City
e que se propaga
numa frequência
situada entre 20 kHz
e 120 kHz
mostrando
as aventuras
entre os personagens
independentes
(Batman
e os super-herois
e os policiais
e os bandidos)
e os lugares separados
(todas as ruas
e todos as praças
e todos os prédios
de Gothan City).




este é um excerto do livro
Épopée, une aventure de Batman, publicado pela al dante, niok, em 2004,
e que eu li na antologia Sac à dos, une anthologie de poésie contemporaine pour lecteurs en herbe, organizada por Jean-Michel Espitallier

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O terremoto enquanto ela dormia – Mary Jo Bang



Ela dormia durante um terremoto na Espanha.
No dia seguinte, tudo ficou cheio de coisas mortas. 
                                                                        [Bom, não cheio, mas com algumas coisas.
Diante da porta da frente, sentiu um estalo de carrapato

debaixo do pé. No banheiro, uma barata enorme deitada
com as patas pra cima na beira do mármore; a antena
morta anunciando o futuro, virada na direção do olho prateado

que depois iria tragar a água com a qual ela lavou o rosto.
Quem não gostaria de voltar rápido
para o sono da noite anterior? Sabia que tinha que seguir acordada

e enquanto caminhava pela névoa cinzenta do dia, enganava o vaporoso
encenando algo concreto: a fumaça do cigarro,
por exemplo, poderia se transformar em um edifício de Lego de 2 cm

visto da janela de um ônibus que bloqueava uma rua.
Às vezes, as pessoas pensam em si mesmas como uma foto que coincide
com um desejo inventado: uma floresta de brinquedo, um grilo mutilado, o mais

ou menos precioso lótus. Na noite antes do terremoto, tomou um trem
para ver uma ópera cômica com um enredo inverossímil. Reparou num homem
com casaco curtido e gravata que lembrava muito o Kafka.

No dia seguinte, ligou para um amigo para reclamar dos insetos.
De uma cidade distante – a voz baixa e em tom de lamento –, ele disse,
Você não está bem? Quer que eu faça alguma coisa?





mary jo bang nasceu em 1946, nos estados unidos.
este poema de mary jo bang será publicado no livro the last two seconds
ainda no prelo em inglês
mas já saiu (e foi onde eu li o poema e também onde li a mary jo pela primeira vez)
na linda antologia, essa aí da foto em cima, El clarooscuro del pinguino, traduzida para o espanhol por aníbal cristobo e patricio grinberg e publicada pelo aníbal cristobo na kriller71 edicciones.
minha tradução foi feita, ao mesmo tempo, do inglês que vem no rodapé dos poemas e da versão em espanhol. por ser o espanhol mais próximo do português e por eu ter lido essa versão antes do original, será que posso dizer que fiz uma espécie de cotradução? de todo modo, usei soluções da versão espanhola, então aqui está o crédito e agradecimento aos tradutores amigos. e aproveito o post para dar parabéns aos 2 anos da kriller71 ediciones e agradecer por essas maravilhas que ela vem fazendo...


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Bolsistas da Fulbright -- Ted Hughes





Onde teria sido, na Strand? Notícias
Em exposição, fotografias.
Não sei por quê, me chamou a atenção.
Uma foto da mais recente leva
De bolsistas da Fulbright. Prestes a vir --
Ou recém-chegados. Ao menos alguns.
Você era um deles? Examinei a foto,
Não muito a fundo, me perguntando quais
Eu talvez viesse a conhecer.
Lembro de ter pensado nisso. Não lembro
Seu rosto. É claro que olhei mais
Para as moças. Reparei talvez em você.
Quem sabe a avaliei, e achei pouco provável.
Vi seus cabelos longos, ondas soltas --
A franja à Veronica Lake. Não o que ela escondia.
Loura, eu teria pensado. E o seu sorriso.
Seu sorriso americano exagerado
Para as câmeras, os juízes, os estranhos, os atemorizadores.
Depois esqueci. Mas me lembro
Da foto: os bolsistas da Fulbright.
Com bagagem e tudo? Pouco provável.
Teriam vindo todos juntos? Eu estava caminhando,
Pés cansados, sol forte, calçadas quentes.
Foi então que comprei um pêssego? É o que lembro.
Num quiosque junto à estação de Charing Cross.
O primeiro pêssego fresco que jamais comi.
Tão gostoso que mal acreditei.
Aos vinte e cinco anos, mais uma vez surpreendi-me
De ver que ignorava as coisas mais simples.



Tradução de Paulo Henriques Britto

neste livrinho da Record
Cartas de aniversário


terça-feira, 27 de maio de 2014

Eine nationale poesie? – Jacques Roubaud


Osnabrück, 27 de novembro de 1993.

@1

@1.1 Na minha família, o telefone não penetrou antes de 1945. Eu tinha doze anos. Era um aparelho grande e assustador, uma espécie de divindade, sem dúvida hostil. Meu pai não queria responder ao seu chamado, muito menos servir-se dele. A minha mãe cabia a tarefa de exorcizá-lo. Mas ela mesma não deve ter conseguido dominá-lo realmente. Com efeito, tendo-se passado vários anos, tínhamos deixado Carcassone, onde vivêramos durante toda a guerra (lembro-vos que houve uma guerra entre 1939 e 1945), e tínhamos vindo viver em Paris e um dia minha mãe recebeu um telefonema de uma velha amiga de lá, de antes. Elas falaram por um momento, deram notícias das famílias, das crianças, e, no momento de se deixarem, minha mãe disse: "Não vamos mais ficar tanto tempo sem nos falar. Toma o meu número de telefone." "É, você tem razão, me dá o número", começou a dizer a amiga. Neste momento, as duas começaram a rir.

@1.2 Quanto a mim, não avancei muito no domínio deste instrumento. Quando recebi uma chamada de Hamburgo me perguntando o título de minha intervenção de hoje, tive um momento de pânico. Pensando na inacreditável distância percorrida pela voz que chegava dessa maneira inverossímil à minha orelha, respondi bruscamente, com uma hesitação interrogativa na voz e na orelha: "uma poesia nacional?". E foi assim que me veio esse título e numa espécie de alemão que creio totalmente adequado e que adoto, consequentemente, pronunciando-o à minha maneira de quase analfabeto em assuntos germânicos: "Eine nationale Poesie?"

@1.3 Procederei da seguinte maneira. Num primeiro momento questionarei a ideia de nação. Num segundo momento me perguntarei o que a poesia pode ter a ver com a nação. Permanecerei mais ou menos no modo interrogativo, não tendo muitas respostas a oferecer, o que não me impedirá de expressar-me de maneira peremptória, como todo mundo.

@ 2
@2.1 Já faz alguns anos, a França, querendo mostrar que não guardava rancor da Alemanha por certos mal entendidos ocorridos em sua recente história comum, resolveu tomar-lhe emprestado a concepção de um movimento político de tendências fascistas, cujo nome é Frente Nacional e cujo chefe (era preciso ter um chefe) se chama Le Pen.

@2.2 Uma das ideias da Frente Nacional é: "A França aos franceses!", ou ainda "Fiquemos entre nós e as vacas estarão bem guardadas." Há estrangeiros demais na França, dizem, eles nos invadem, como outrora o fizeram os árabes vencidos por Charles Martel (um membro de honra da Frente Nacional) em Poitiers, em 732. Eles comem nosso pão, arruinam nossa segurança e nossa seguridade social. Em suma, "Eles vêm em nossos braços / estrangular nossos filhos e nossos companheiros". Bem, pelo menos simbolicamente.

@2.3 Então é preciso se livrar dos estrangeiros.

@2.4 Mas aí encontramos um problema. Se enviamos os estrangeiros de volta a seus lares, isso significa que, de modo claro e indiscutível, sabemos distingui-los dos franceses, que devem ficar em seu país. O que é um francês?

@2.5 Debruçando-se sobre a questão, a Frente Nacional, pela voz de seu chefe (é preciso um chefe que fale em nome de todos) propôs uma definição do francês.

@2.6 Definição de Le Pen: É francês aquele ou aquela cujo pai e cuja mãe são franceses.

@2.7 Entusiasmado por esta definição, compus o seguinte poema, já traduzido para várias línguas, digo com orgulho (isso não ocorre com tanta frequência), incluindo o alemão.

@2.8 Atenção: o poema deve ser dito bem rápido!

@ 2.9 Poema:

Le Pen é francês?

Se Le Pen fosse francês, segundo a definição de Le Pen, isso quereria dizer que, segundo a definição de Le Pen, a mãe de Le Pen e o pai de Le Pen teriam sido eles mesmos franceses segundo a definição de Le Pen, o que significaria que, segundo a definição de Le Pen, a mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai de Le Pen, sem esquecer o pai do pai de Le Pen teriam sido, segundo a definição de Le Pen, franceses, e consequentemente a mãe da mãe da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe da mãe do pai de Le Pen, e a mãe do pai do pai de Le Pen teriam sido francesas segundo a definição de Le Pen, e da mesma maneira e pela mesma razão o pai da mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai do pai da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe do pai de Le Pen, e o pai  do pai do pai de Le Pen teriam sido franceses sempre segundo a mesma definição, a de Le Pen
donde se concluirá sem problema e sem a ajuda de Le Pen ao se seguir o raciocínio
ou que existe uma infinidade de franceses que nasceram franceses segundo a definição de Le Pen, viveram e morreram franceses segundo a definição de Le Pen depois da aurora do começo dos tempos ou
que Le Pen não é francês segundo a definição de Le Pen.

Jacques Roubaud, provençal

@2.10 Tive que assinar provençal, não sendo eu francês, mas mais ou menos provençal, em todo caso o sou se remontar algumas gerações. (eu incluiria de bom grado o troubadour Rubaut entre os meus ancestrais, mas não consegui ainda determinar todos os elos perdidos de minha genealogia).

@2.11 A segunda alternativa, qual seja, que Le Pen não é francês segundo a sua própria definição, recebeu recentemente uma confirmação brilhante. Quando estive em Nova York para uma leitura no Poetry Project de St. Mark's Place e li meu poema, alguém no final me trouxe uma caneta de marca Le Pen. Ao examiná-la vi que ela era "made in Japan". Quod erat demonstrandum.


Tradução de Monique Balbuena
publicado na revista Inimigo rumor 7

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Poema – Simon Armitage



O Frank O’Hara estava aberto em cima da mesa
mas fui direto para a agenda telefônica.
Nick tinha saído, Joey tinha um compromisso, Jim 
já estava mesmo preparando um café, por que eu não

dava um pulo lá? A Astrud Gilberto
cantava “Bim Bom” no meu walkman da Sony
e o sol começava a secar a ardósia úmida nos
telhados. Entrei sem tocar a campainha

e ele ainda não tinha se trocado nem se barbeado quando
completamos a xícara de café com o Scotch do seu velho
(eram só dez e meia da manhã mas e daí?)
e saímos para a varanda com o jornal.

Os Talking Heads tocavam no rádio. Eu
ia começar a falar de futebol quando ele 
disse: “Olha, será que você me ajuda a esvaziar 
o armário dela?” Eu disse: “Claro, Jim, estou do seu lado.”

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Retrato molhado – Jaroslav Seifert



Aqueles dias lindos
em que a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, garotas, belíssimas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.

Os domingos lindos
em que a cidade parece um jogo de futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.

Aquelas noites lindas
em que a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com garotas magrelas,
olhando para os seus joelhos

que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda da cinta-liga
no reino desesperado do amor.

















Jaroslav Seifert nasceu em Praga, em 1901. 
Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. 
Leia o poema "Um guarda-chuva de Piccadily" aqui.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que faz um poema ser um poema? – Charles Bernstein


[Minha leitura se chama 
O que faz um poema ser um poema? 
e vou ligar o cronômetro]

Não é a rima das palavras no fim da linha
Não é a forma
Não é a estrutura
Não é a solidão
Não é o espaço
Não é o céu
Não é o amor
Não é a luminosidade
Não é o sentimento
Não é a metrificação
Não é a época
Não é a intencionalidade
Não é o desejo
Não é a temperatura
Não é a esperança
Não é o assunto escolhido
Não é a morte
Não é o nascimento
Não é a paisagem
Não é a relação de palavras
Não é o que há entre as palavras
Não é o cronômetro
Não é o... 
É o tempo




Charles Bernstein nasceu em Nova Iorque, em 1950. Charles Bernstein participou da L=A=N=G=U=A=G=E, publicada entre 1978 e 1981 (e que pode ser lida aqui
No Brasil saiu o livro Histórias da guerra, pela Martins Fontes, com textos e poemas seus, e o poema Um teste de poesia teve uma tradução de Haroldo de Campos. 

A leitura-poema acima caminha e se encaminha para a palavra timing, que bem podia ser traduzida por... timing...? Opção que seria "traduzir" e "não-traduzir" ao mesmo tempo, ou que poderia se constituir como uma possível resposta à pergunta feita por ele, o que faz um poema  ser um poema?... Pensando na tradução como um processo em aberto, deixei por enquanto o tempo ali, palavra que abarca muitas outras possibilidades e campos semânticos e que não corresponde ao timing, nem ao timing bersnsteiniano, mas pode gerar outras perguntas, pode gerar outros diálogos, pode gerar outros tempos... Agradeço ao comentário da Bia (Beatriz Bastos), que pensando na leitura que faz o Bernstein ali sugere outras possíveis traduções, como por exemplo repetição, ótima solução, sobretudo pela estrutura parafrásica do poema.   

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Te oferecerei um abismo... – Roberto Bolaño


Te oferecerei um abismo, disse ela
mas de forma tão sutil que você só perceberá
quando já tiver passado muito tempo
e você estiver longe do México e de mim.
Quando mais precisar você vai descobrir,
e esse não será o final feliz,
mas só um instante de vazio e felicidade
E talvez então você se lembre de mim,
ainda que não muito.


*

[a tradução deste foi feita

a 4 mãos, 1 suco de uva roxa
e 1 café capital num caderninho 
desenhado. foi feita sem abimos]

domingo, 19 de agosto de 2012

Um guarda-chuva de Piccadily – Jaroslav Seifert


Se você não sabe o que fazer em relação ao amor
tente se apaixonar outra vez –
por exemplo, pela Rainha da Inglaterra.
Por que não!?
O rosto dela aparece em todos os selos postais
daquele antigo reino.
Mas se você a convidasse
para um encontro no Hyde Park
com certeza
esperaria em vão.

Se tivesse um mínimo de senso
diria a si mesmo sabiamente:
Por quê?, é claro, entendi:
está chovendo no Hyde Park hoje.

Quando esteve na Inglaterra
meu filho me trouxe de Piccadilly em Londres
um elegante guarda-chuva.
Sempre que preciso
tenho agora sobre a minha cabeça
meu próprio céu em miniatura
que pode até ser preto
mas em seus raios de arame tensionados
a misericórdia de Deus escorre como
uma corrente elétrica.

Abro meu guarda-chuva mesmo quando não chove
como um dossel 
sobre o volume dos sonetos de Shakespeare
que levo no bolso.

Mas em alguns momentos até 
o cintilante buquê do universo me assusta.
Ultrapassando a beleza
ele nos ameaça com tamanha infinitude
que parece mais
o sono da morte.
Ele também nos ameaça com o vazio e quando congela
suas milhares de estrelas
que à noite nos iludem
com seu brilho.

Aquela a que chamamos Vênus
é a mais aterrorizante.
Ela possui pedras que ainda estão fervendo
e como gigantescas ondas
as montanhas vão surgindo
e queimando as cascatas de súlfur.

Sempre perguntamos onde será que fica o inferno.
Ele está ali!

Mas para que serve um frágil guarda-chuva
diante do universo?
Além do quê, eu nem mesmo o levo comigo.
Tenho bastante trabalho
para ficar
me arrastando pelo chão
como uma mariposa noturna durante o dia
em uma áspera casca de árvore.

Toda minha vida procurei o paraíso
que outrora existiu aqui,
cujos rastros eu havia encontrado
somente nos lábios das mulheres
e nas curvas produzidas pela sua pele 
com o calor do amor.

Toda minha vida desejei
a liberdade.
Enfim, descobri o caminho
que até ela conduz.
É a morte.

Agora que estou velho
verei o rosto de alguma charmosa mulher
uma vez ou outra flutuando entre meus cílios
e seu sorriso transformará meu sangue.

Timidamente me viro 
e lembro da Rainha da Inglaterra,
cujo rosto está em todos os selos postais
daquele antigo reino.
God save the Queen!

Sim, eu sei muito bem:
está chovendo no Hyde Park hoje.




Jaroslav Seifert nasceu em Praga, em 1901. Depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo, em 1984, Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. Nesse poema, Jaroslav não está no Hyde Park, mas se ele me convidasse para um encontro ali, não me esperaria em vão (even raining). Nesse poema, está chovendo no Hyde Park, e eu estou do outro lado do hemisfério sentada sob o sol, lendo o lindo volume que reúne sua poesia em inglês, The poetry of Jaroslav Seifert, de onde traduzi "Um guarda-chuva de Piccadily". (há também 2 poemas de Jaroslav em português aqui na Modo de usar & co.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

No filme... – Roberto Bolaño


No filme na TV o gângster toma um avião
que se levanta lentamente contra um entardecer em preto e branco.
Sentado na poltrona você movimenta a cabeça: na janela
vê o mesmo entardecer, as mesmas nuvens em preto
e branco. Você levanta e cola a mão no cristal:
o reator do gângster abre caminho entre as nuvens,
nuvens incrivelmente lindas, cachos da cabeleira
do seu primeiro amor, lábios ideais que formulam
uma promessa, mas que você não entende.
A imagem que se desloca pelo céu, a imagem
do televisor são idênticas, o mesmo anseio, o mesmo
olhar. E no entanto, você treme e não entende.




Roberto Bolaño nasceu em 1953, no Chile. Roberto Bolaño partiu em 2003, de Barcelona. Roberto Bolaño dispensa apresentações, depois dos livros que deixou, sobretudo seus romances 2666 e Los detectives salvages. Roberto Bolaño publicou em vida um livro de poemas, Três, com três poemas longos, e deixou organizado para publicação A universidade desconhecida, de onde traduzi este poema, com textos escritos entre 1977 e 1993, espécie de "universidade móvel", como ele chamou o livro, testemunho dos anos de formação literária. O vídeo reproduzido nesse post foi feito às margens do rio Sena em um entardecer preto e branco de um julho já meio distante. Na ocasião senti essa tremura diante das nuvens e suas formas mutantes: tudo está ali mas você não entende.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tia Elizabeth – Pierre Alferi


Tante elizabeth, (pierre alferi)

Tia Élizabeth

Atrás da casa da nossa Tia Elizabeth há o mais lindo pomar dos pomares
e no pomar a mais linda cerejeira das cerejeiras
e na cerejeira os mais lindos galhos dos galhos
e sobre os galhos as mais lindas folhas das folhas
e sobre as folhas o mais lindo ninho dos ninhos
e no ninho os mais lindos ovos dos ovos
e sobre os ovos o mais lindo pássaro dos pássaros
e sobre o pássaro as mais lindas penas das penas
e sobre as penas as mais lindas cores das cores
Sobre as cores há o mais lindo céu dos céus
e no céu a mais linda nuvem das nuvens
e na nuvem a mais linda chuva das chuvas
e sobre a chuva o mais lindo sol dos sóis
e ali como não há mais nada meia-volta volver


Esse vídeo, esse poema, esse cinema, esse cine-poema de Pierre Alferi. 
O áudio é tirado, segundo ele, de uma canção folclórica francesa. O texto que aparece ali não bate com o áudio. O texto que traduzo aqui é o que aparece como legenda no vídeo, porém na tradução ele acabou se constituindo com um desenho de poema, uma mancha de poema, enquanto que no vídeo, ele está emaranhado com o vocovisual in motion (portanto, a tradução deve funcionar entre chaves... outra opção de tradução seria preparar um outro vídeo, jogando com os mesmos elementos e meios do seu trabalho).
Pierre Alferi nasceu em Paris, em 1963, e é autor de romances, livros de poemas e de poética, como é o caso do seu lindo Chercher une phrase. Também tradutor, Alferi desenvolve um interessante trabalho com vídeos, buscando essa compaginação de texto e imagem, como aparece nesse "Tante Elizabeth".

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"o pesadelo começa..." – Roberto Bolaño



O pesadelo começa ali, nesse ponto.
Mais além, em cima e embaixo, tudo é parte do
pesadelo. Não meta sua mão nesse vaso. Não
meta sua mão nessa floreira do inferno. Ali
começa o pesadelo e tudo quanto dali
faça crescerá sobre suas costas como uma corcunda.
Não se aproxime, não ronde esse ponto equívoco.
Embora veja florescer os lábios de seu verdadeiro
amor, embora veja florescer umas pálpebras que
quisera esquecer ou recobrar. Não se aproxime.
Não dê voltas em torno deste equívoco. Não
mova os dedos. Acredite em mim. Ali só cresce
o pesadelo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Passando o tempo em Skansen – Kenneth Koch


Um dia fui dançar em Estocolmo em um lugar aberto ao público
Ao ar livre. Era um agradável fim de tarde de verão,
Verão desses que só na Suécia de mil novecentos e cinquenta. 
Para estar ali era preciso ser jovem.
Ou talvez velho. Mas na ocasião não cheguei a ver nenhum velho por lá.
A humanidade se dividia entre homens e mulheres, americanos e outros, estudantes e não-estudantes, etcetera.
A única coisa que eu sabia dizer em sueco
Era “Yog talar endast svenska”
Que queria dizer Eu só sei falar sueco, mas eu achava que queria dizer
Eu não sei falar sueco.
Então, as garotas, encantadas, falavam comigo muito rápido
Ao que eu sorria sem entender coisa alguma,
Embora às vezes eu repetisse
Yog talar endast svenska.
O entardecer tinha chegado ao fim, a minha parte nele ao menos, quando eles começaram com as danças folclóricas.
Eu não fazia ideia de como encará-los, embora tenha tentado por um tempo.
Ainda estava claro lá fora embora já passasse das onze.
Eu me meti em uma espécie de bonde que por fim me deixou perto do hotel.



domingo, 6 de novembro de 2011

Uma conversa com Patrícia – Kenneth Koch



Patrícia não quer
Falar de amor ela
Diz que só
Quer fazer amor
Mas ela fica falando
De amor quase sem parar.

É horrível é
A pior coisa do mundo
Diz Patrícia
Nada
Nem a morte nem a loucura
são tão ruins quanto o amor

Eu estou sempre
Apaixonada estou sempre
Sofrendo de amor
Diz Patrícia. Agora me
Acostumei mas
Continuo sofrendo do mesmo jeito

Você sabe o que eu fiz com ela
Uma vez? – falando de sua
Namorada – Eu chutei ela
Literalmente chutei ela estava sentada no chão e eu
Dei uns colpi di piedi assim uns
pontapés. Ela escorregou no chão.

Sabe o que ela fez
Comigo? Prometeu que íamos viajar
Eu estava pronta esperando
Com malas e bilhetes
E ela chegou e disse que uma amiga dela achou que ela
não deveria ir, e pronto. Eu chutei ela

Sabe às vezes a gente ainda fica
Junto. Mas o amor é horrível. Eu achei
Que você seria a pessoa
Certa para ter esta conversa Patrícia já que
Você ama as mulheres e ao mesmo tempo
É uma mulher. Você deve ter razão Patrícia

Disse. Mas eu acho que 

para essa mulher que te abandona você deveria
Sumir do mapa. Embora talvez com ela
não adiante nada
Não, sumir do mapa não adianta.
É difícil dizer eu não conheço ela

Se eu a conhecesse se eu pudesse vê-la
Por apenas dez minutos – Eu tenho medo
se você a vir você pode
Levá-la de mim. Patrícia
Ri. Não, não aconteceu comigo ainda
Graças a deus de gostar de mulheres jovens assim.

Por quê? Quando você tiver a minha
Idade – ainda jovem – ela terá
Trinta... e nove? Você convive bastante
Com pessoas bem jovens para
Saber como elas são horríveis
E você não gosta delas

Você não quer ter nada
A ver com elas! Hum
Hum, eu disse apoiando
As mãos sobre a mesa e depois tirando
Olhe para você desculpe mas eu tenho que rir
De você sentado neste horrível

Restaurante já de
Madrugada em uma
Cidade em que você não quer estar
E por quê? Por esta mulher
É horrível eu sei mas também
É engraçado

Eu sei eu disse. Ouça tenho
Uma idéia. Você tem o endereço dela? Você sabe onde
Ela mora? Você deveria ir até lá
E se esconder
Do lado de fora da casa dela
Atrás das árvores

Então quando ela sair
Você a afronta
Você a enfrenta. Você verá
nos olhos dela
Se existe amor ou não. É algo que não se
Pode esconder. Não tem erro, você vai saber.

Funciona. Comigo sempre
Funcionou. Não vai funcionar comigo. Não posso
Ir e me esconder lá. É verdade
Disse Patrícia quando há amor tudo
Funciona quando não há, nada funciona. O amor
É um deus Eu não acredito em nada dessas coisas freudianas

Esse deus para quem você tem que fazer
O que ele quer que você faça você
Está com raiva mas tudo o que você realmente quer
É tê-la de volta. Então – vingança! Se
Essa mulher tivesse feito algo assim comigo
Eu simplesmente não iria mais gostar dela na verdade

Eu iria odiá-la Você deve levar em conta
Disse Patrícia que essa mulher pode estar
fazendo isso para testar você. Não,
eu disse. Eu sei que não é isso. Eu sei de algo. Eu me sinto
Cem anos mais velho. Você não
parece tão mal assim, Patrícia disse.

Procure outra mulher. Não posso. Eu
Sei Patrícia disse. Mas sempre achamos que
esse é um bom conselho. Mas se
Você não pode não pode. Eu
Não consigo nem comer
Isso aqui Patrícia eu disse.

Desculpe Patrícia eu disse por te
Chatear não consigo parar de falar Me
Perdoa. Você não está me chateando
Patrícia diz Este é meu assunto preferido
E não é todo dia que a gente vê alguém nesse estado
e que a gente pode ajudar alguém dizendo apenas para ficar vivo.

Você sabe, disse Patrícia, se ela
Faz essas coisas com você agora
Ela fará de novo
E de novo então é melhor estar pronto
Talvez você possa se adiantar
E dizer que ela tem razão e que você

Não a ama mais Tchau Que você vai embora
Mas se você a quer mesmo
Você deveria ir para trás das árvores
E surpreendê-la quando eles o virem
Isso sempre faz diferença
Não posso ir me esconder lá Patrícia

É loucura. Eu fui mas sem
Me esconder e sem afrontá-la.
Patrícia: O que ela disse? Eu disse:
As mesmas coisas. Patrícia disse
Você viu amor nos olhos dela? Eu disse
Não, não vi. Eu vi

Alguma outra coisa. Em Florença está um dia nublado
O cabelo dela (relativamente) curto e
Os olhos à beira do Rio Arno
Foi a última vez em que a veria outra vez
Como esta que estou vendo outra vez
Quando ver outra vez ainda faz algum sentido

Acabou Patrícia dizia
Por enquanto mas não se preocupe
Eu acho que você vai tê-la de volta
Mas aí já será tarde demais. Ai Patrícia deixei
Minhas costas e cabeça despencarem na
Cadeira Tarde não quer dizer nada!