segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Mambeado – Onda vaga
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Felicidade – Ledusha
nada como namorar
um poeta marginal
incendiado
nada
como um mingau de maizena
empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossanova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.
"felicidade" é do livro risco no disco, da ledusha,
publicado pela primeira vez em 1981 (capinha que abre o post)
e reeditado agora pela luna parque (capinha de baixo).
sábado, 20 de agosto de 2016
Cândida – Chacal
acabou de sair
tudo (e mais um pouco)
reunião da obra do chacal pela incrível editora 34!
e revendo e relendo o chacal
acabei encontrando esses dias essa gravação de "cândida"
numa versão que saiu encartada na revista bric-a-brac, de brasília,
num disquinho preto molenga (segundo o chacal nos anos 80).
a base do poema é uma composição
de carlos henrique resende - o nanico.
esse foi o primeiro poema do chacal que conheci
conheci o chacal pela escuta
conheci o chacal pela voz
conheci o chacal ouvindo um poema
deixo aqui minha alegria pela chegada do tudo
com essa gravação linda de 'dama daminha'...
com essa gravação linda de 'dama daminha'...
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Três homens – Bernadette Mayer
descansando
Três homens descansam. Eles se mexem.
homens falando
uma garota olhando uma caixa
Tem três homens num barco. Eles trabalham.
um homem viajando
garotas esperando
Homens falando e cantando. Eles estão dormindo
um garoto de nove anos
três homens se mexendo
Uma garota olha uma caixa. Ela se debruça.
homens cantando
uma garota se debruçando
Ela está usando um casaco. Um homem viajando
ganha um prêmio.
um homem ganhando um prêmio
garotas piscando
Tem um homem na casa de luz. Tem outro comprando um relógio.
um garoto de azul
três homens num barco.
Garotas que estão esperando. Garotas que estão piscando.
homens dormindo
uma garota usando um casaco
Garotas em uniforme andando de skate
um homem na casa de luz
garotas andando de skate
Um garoto de nove, de azul, perto da montanha.
um garoto perto da montanha
três homens trabalhando
três homens descansam. Eles se mexem.
um homem comprando um relógio
Tem três homens num barco. Eles trabalham.
***
a bernadette mayer nasceu em 1945
a bernadette mayer nasceu no brooklin
a bernadette mayer fez parte da escola de nova iorque
e do movimento da l=a=n=g=u=a=g=e p=o=e=t=r=y
"três homens" está no livro poetry, de 1976
a imagem que abre o post é da niki de saint phale, artista francesa (1930-2002)
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Um compatriota punjabi no metrô de Barcelona – Amarjit Chandan
Quando você olhou
pensei aquele senhor está me olhando.
Você está sozinho?
Não veio mais ninguém?
Não posso trabalhar agora:
Não sou tão velho assim – pouco mais de vinte e cinco.
Estou aqui há seis anos.
A metade desse tempo passei em pé, preparando rotis no fogão dos restaurantes.
O dinheiro de Deus.
Muitos garotos enlouqueceram e se suicidaram.
Hipotecamos para o futuro o conforto de hoje.
Bahawalpur e Barcelona se distanciam cada vez mais.
A casa é uma ilha boiando no vasto oceano.
O sol dessa cidade acolhe todo mundo.
Deixe a neblina de Londres e venha morar aqui.
O metrô vai parar na próxima estação.
Descendo ele suspirou e disse:
Que época para suportar a dor.
E desapareceu abrindo caminho pela multidão.
**
amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
amarjit chandan imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (feita pelo próprio amarjit)
publicada na revista "modern poetry in translation" (mptmagazine.com)
– num número especial dedicado aos refugiados,
"the great flight, refugee focus",
cuja capinha está no post de ontem –,
presente lindo que ganhei
do rob packer (thanks, rob!)
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domingo, 31 de julho de 2016
Neste país – Amarjit Chandan
Neste país o estrangeiro começa a perder a memória no dia em que chega.
Ele fica mudo na sua língua.
O ar em volta traduz o silêncio dele para o inglês --
Está nevando.
As folhas secas estão caindo.
As ondas do mar baixam.
O rio diminui.
O chá está esfriando.
As fotografias vão desaparecendo.
Ele fica pensando -- não deveria estar neste país.
Ele continua sendo um estranho aqui e
Começa a acreditar nos outros estranhos.
Uma peça quebrou na engrenagem do tempo.
O vinil fica tocando com a agulha presa na mesma faixa.
Neste país o estrangeiro não sabe o que faz.
Fica sempre inconsciente perdido nos seus pensamentos.
Usa sapatos maojay de Punjabi com terno 3 peças.
Neste país o estrangeiro fica olhando para a foto do seu antigo passaporte
e se assusta ao ver a própria imagem.
Neste país o estrangeiro se surpreende de perceber que o caminho de volta para casa é bem longo
Quando está perdido na sua cidade natal, a lua lhe aponta qual caminho tomar
Ela o acompanha até que amanheça e ele bata à porta de sua própria casa.
**
amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (dele e de julia casterton)
publicada na revista "modern poetry in translation"
(número especial dedicado aos refugiados,
chamado "the great flight, refugee focus", colo a capinha aí embaixo),
presente lindo que ganhei
do rob packer (obrigada, rob!)
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sábado, 4 de junho de 2016
Filha – Otto
terça-feira, 31 de maio de 2016
Um presente para Graça – Bernadette Mayer
Eu vi uma linda chaleira E eu queria te dar essa camisa maravilhosa
100% algodão real e quadriculada de azul e preto,
Também tinha uma listrada de vermelho e preto
Depois vi umas botas num lugar chamado Chuckles
Elas chegavam até mais ou menos 5 cm acima do tornozelo
Todas de couro e em vermelho, preto ou roxo
Foi difícil não ter dinheiro hoje
Para não falar das flores e diversas lingeries
Todas em linho e seda com a renda ainda por perfumar
Com bastante brilho para qualquer Graça
E luxo, ornamentos, conforto e charme
Mas só posso presenteá-la com este poema –
que tem, como substância, o mesmo sentido do seu nome
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domingo, 20 de março de 2016
Wall drawing 118 – Sol Lewitt
https://www.youtube.com/watch?v=RDrHHsez3nU
quinta-feira, 17 de março de 2016
Para ver as meninas – Paulinho da viola
Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
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quarta-feira, 2 de março de 2016
Íntimo [fragmentos] -- Pierre Alferi
Cara Sedentária
poucos quilômetros nos separam
porém ouço suas últimas palavras
em uma língua estrangeira
veja quantos dias sem estarmos juntos
será que realmente estivemos daquela outra vez?
algum dia você se convencerá
da minha presença ao seu lado?
deslastrado de minha sombra
os óculos desembaçados
eu olho para o leste
**
Caro Relativo
aterrissagem diferida
nos colocaram no centro
bem no alto de um hotel
do antigo regime (vai
saber quantos casais de
apparatchiks-prostituídos refletiu
o armário com espelho)
retorno ao quarto várias vezes
para digerir a sensação
de cidade em obras
fluida e cheia de arestas
consertar à máquina
pintar sobre um calco
o que falta ao strip-tease
de um campo em ruínas
de cima do décimo-terceiro andar
as transformações são claras
o vidro, obstinadamente líquido
e o céu mudo, como uma cobra
meus compromissos são adiados
o próprio motivo da minha vinda
sai para um passeio
eu tento o que me tenta
com o risco de perder um tempo louco
buscando objetos úteis
dando-lhes uma função
durante um ou dois minutos
sem fazer nada em um banco
entregue ao caos
de figuras, cores
sons
***
Caro Antiquário
para fazer voltar o tempo
você seria um salmão
ou um relojoeiro?
sugiro em vez disso
tocar um disco ao contrário
sonhar em húngaro
os monumentos ficam
muito acima das nossas cabeças
quando os devoramos
se a distância percorrida
fosse contada em séculos
eu desceria na planície
colocaria um belo chapéu
e deixaria crescer o bigode
***
Cara Íntima
enfim, próximos
você receberá esta
breve mensagem a tempo?
eu custo a terminar a clepsidra
e apagar as lembranças
se você ingressasse no paraíso
ele se pareceria a quê?
você tem tanta certeza
de que nos reconheceremos?
eu adio o momento
assobiando night and day
será que não esperamos demais
nos encontrar no mesmo lugar
no mesmo instante?
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
[quando seu aparecido chegou] – Sofia Mariutti
quando seu aparecido chegou
eu não costumava levantar pra fazer café
fatiar pão passar manteiga
eu ficava na cama até o último minuto
e o último minuto quase sempre
já era tarde demais
quando seu aparecido chegou
pra trocar o carpete
do condomínio edifício luciana
apareceu também a primeira barata
dentro do apartamento quatro
do condomínio edifício luciana
pra trocar o carpete
do condomínio edifício luciana
apareceu também a primeira barata
dentro do apartamento quatro
do condomínio edifício luciana
eu liguei o aspirador de pó e nós duas
guerreamos por meia hora e eu venci
com covardia depois de estraçalhar
o corpúsculo dela com o cabo
de vassoura dei mais alguns golpes
pra garantir o extermínio
guerreamos por meia hora e eu venci
com covardia depois de estraçalhar
o corpúsculo dela com o cabo
de vassoura dei mais alguns golpes
pra garantir o extermínio
o talentoso ripley mata o amigo
no barco com o remo
nem tão talentoso
ripley mata o amigo
com mais golpes do que o necessário
pra matar um amigo quantos golpes
são necessários pra garantir o extermínio
de alguém que amamos muito?
quando ripley mata o amigo
há paixão no assassinato
será que há paixão
entre a barata e eu?
no barco com o remo
nem tão talentoso
ripley mata o amigo
com mais golpes do que o necessário
pra matar um amigo quantos golpes
são necessários pra garantir o extermínio
de alguém que amamos muito?
quando ripley mata o amigo
há paixão no assassinato
será que há paixão
entre a barata e eu?
clarice diz que para matar baratas
é preciso misturar farinha e açúcar
para esturricar o de-dentro delas
já sobre a morte do mineirinho clarice diz
“o décimo terceiro tiro me assassina”
com covardia
“o décimo terceiro tiro me assassina”
mais golpes do que o necessário
“o décimo terceiro tiro me assassina”
pra garantir o extermínio de um facínora
“o décimo terceiro tiro me assassina”
há paixão no assassinato
“o décimo terceiro tiro me assassina
porque eu sou o outro” eu
é um outro eu
quer ser um outro
mineirinho gregor samsa barata
seu aparecido
é preciso misturar farinha e açúcar
para esturricar o de-dentro delas
já sobre a morte do mineirinho clarice diz
“o décimo terceiro tiro me assassina”
com covardia
“o décimo terceiro tiro me assassina”
mais golpes do que o necessário
“o décimo terceiro tiro me assassina”
pra garantir o extermínio de um facínora
“o décimo terceiro tiro me assassina”
há paixão no assassinato
“o décimo terceiro tiro me assassina
porque eu sou o outro” eu
é um outro eu
quer ser um outro
mineirinho gregor samsa barata
seu aparecido
quando seu aparecido chegou
eu morava há três meses no edifício luciana
e sentia falta de alguém pra conversar pela manhã
o seu aparecido me fazia levantar mais cedo
fazer café fatiar o pão assado na véspera
passar manteiga essas coisas todas
que eu não fazia antes
mas eu só me atrasava mais
conversava com seu aparecido
depois escrevia sobre ele
eu morava há três meses no edifício luciana
e sentia falta de alguém pra conversar pela manhã
o seu aparecido me fazia levantar mais cedo
fazer café fatiar o pão assado na véspera
passar manteiga essas coisas todas
que eu não fazia antes
mas eu só me atrasava mais
conversava com seu aparecido
depois escrevia sobre ele
por que escrevo no passado
se estou no presente e o seu aparecido
está aqui ao lado?
hoje é o último dos três dias
da colocação do carpete e o presente não é memória:
o seu aparecido vai me deixar e nunca mais
vou vê-lo, franzino, com as mãos deformadas e feias
se estou no presente e o seu aparecido
está aqui ao lado?
hoje é o último dos três dias
da colocação do carpete e o presente não é memória:
o seu aparecido vai me deixar e nunca mais
vou vê-lo, franzino, com as mãos deformadas e feias
por que escrevo em versos
empilhados essa história?
talvez porque li os poemas narrativos
da marília garcia
e me deixei influenciar por ela
empilhados essa história?
talvez porque li os poemas narrativos
da marília garcia
e me deixei influenciar por ela
o seu aparecido tem setenta e cinco anos
quarenta de experiência com carpetes
o seu aparecido aceita café, aceita açúcar,
aceita pão, aceita manteiga,
pede pra eu deixar gorjeta, aceita um band-aid
que eu ofereço quando vejo a mão dele sangrar
o seu aparecido é do tipo que nunca diz não
não diz não
quarenta de experiência com carpetes
o seu aparecido aceita café, aceita açúcar,
aceita pão, aceita manteiga,
pede pra eu deixar gorjeta, aceita um band-aid
que eu ofereço quando vejo a mão dele sangrar
o seu aparecido é do tipo que nunca diz não
não diz não
o seu aparecido reclama dos novos trens
comandados pelas máquinas
assim vai acabar o emprego dos homens
ele sabe que o emprego dele não está ameaçado
não há máquina que faça o meu trabalho
é uma autoridade dos carpetes empoeirados
trabalha como autônomo para várias lojas da cidade
já na casa dele na freguesia do ó não tem carpete
ele nem gosta de carpete
não gosta mesmo
o seu aparecido
**
a sofia mariutti é paulistana e fez letras-alemão na usp.
a sofia mariutti escreve palíndromos e anagramas (alguns estão no seu blog http://miafurtasitio.tumblr.com/)
a sofia mariutti é editora da companhia das letras.
o ano estava terminando
e eu resolvi encerrar essa série de conversas com o teste de resistores
mas depois recebi o poema da sofia
e continuei pensando nas linhas que vão ligando os poemas
e fazendo a gente conversar e a seguir um ritmo
e então eu começo o ano retomando a série
com esse poema sobre o seu aparecido
(muito preciso
aliás
para essa semana de mudança
em que ando às voltas com carpetes
e sintecos e
baratas)
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um teste de resistores
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Papel de bala
esse aqui é para a crítica papel de bala
como bem diz o ditado
que vista a carapuça
e o recado está dado
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Um amigo do tio -- Roberta Iannamico
Um amigo do tio
grandalhão
deitado na areia
um cachorro o acorda
se jogando em cima dele
me interessa principalmente
a parte em que o cara faz carinho
no cachorro
sarnento
cobrindo a mão
com as mangas do pulôver.
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roberta iannamico,
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domingo, 4 de outubro de 2015
depois da marília – fabio saldanha
eu acho que a conexão da internet
quando falha
é um sinal claro
daqueles que a gente interpreta
como se dois mais dois pudesse
realmente dar peixe
eu acho que é nesse momento em que
a minha vontade de escrever
um poema narrativo
volta
na verdade a vontade
de escrever um poema narrativo
me persegue há muito tempo
– eu não sei se eu consigo escrever um poema
narrativo
e eu não sei se consigo porque
desde que eu fechei o teste
com aquele NÃO em letras maiúsculas
eu fico duvidando da minha capacidade
de acabar narrando alguma coisa
que pudesse ser material poético
e eu sempre vou esquecendo
que a ideia do processamento
a partir da narração
vem da vontade de não apagar
os brancos que ficam
entre a minha parte do silêncio e
a sua –
quando falha
é um sinal claro
daqueles que a gente interpreta
como se dois mais dois pudesse
realmente dar peixe
eu acho que é nesse momento em que
a minha vontade de escrever
um poema narrativo
volta
na verdade a vontade
de escrever um poema narrativo
me persegue há muito tempo
– eu não sei se eu consigo escrever um poema
narrativo
e eu não sei se consigo porque
desde que eu fechei o teste
com aquele NÃO em letras maiúsculas
eu fico duvidando da minha capacidade
de acabar narrando alguma coisa
que pudesse ser material poético
e eu sempre vou esquecendo
que a ideia do processamento
a partir da narração
vem da vontade de não apagar
os brancos que ficam
entre a minha parte do silêncio e
a sua –
(e na verdade eu cansei
de poemas que me dizem
só a respeito do que ficou
em um espaço
entre dois brancos
entre dois silêncios
entre o espaço da minha
boca na sua)
de poemas que me dizem
só a respeito do que ficou
em um espaço
entre dois brancos
entre dois silêncios
entre o espaço da minha
boca na sua)
eu não sabia o que
poderia acontecer
quando eu fosse tentar
escrever o meu poema narrativo
mas a internet falhou
então eu escolhi
escrever agora
a respeito
dessa narratividade
porque
apesar de ser um pouco apagado
para a crítica em português
a ideia do –idade
como em –ivity
de subjectivity
traz consigo
o fazer
o escrever
essa ideia de que existe
algo fabricado
dentro da
por exemplo
subjetividade
poderia acontecer
quando eu fosse tentar
escrever o meu poema narrativo
mas a internet falhou
então eu escolhi
escrever agora
a respeito
dessa narratividade
porque
apesar de ser um pouco apagado
para a crítica em português
a ideia do –idade
como em –ivity
de subjectivity
traz consigo
o fazer
o escrever
essa ideia de que existe
algo fabricado
dentro da
por exemplo
subjetividade
eu venho filmando
ideias na minha cabeça
e esse poema
acabou sendo muito diferente do que
eu imaginava
eu agora tenho um problema na garganta
eu agora quero chorar a minha
garganta para fora
eu agora não sei se fico
ou vou embora porque
a ideia de me manter preso
em um único ponto
que me presentifica
dói
ideias na minha cabeça
e esse poema
acabou sendo muito diferente do que
eu imaginava
eu agora tenho um problema na garganta
eu agora quero chorar a minha
garganta para fora
eu agora não sei se fico
ou vou embora porque
a ideia de me manter preso
em um único ponto
que me presentifica
dói
(e dói porque
a ideia do meu presente
ainda me liga diretamente
a todas as narrações que eu construo desde
o ano passado
– já faz um ano eu diria –
para ele se ele se importasse
se ele se importasse
talvez ele já soubesse
que eu lanço um livro cheio de poemas
para ele e ainda fico com essa coisa na garganta
porque aparentemente a ideia
dele não me sai da cabeça)
a ideia do meu presente
ainda me liga diretamente
a todas as narrações que eu construo desde
o ano passado
– já faz um ano eu diria –
para ele se ele se importasse
se ele se importasse
talvez ele já soubesse
que eu lanço um livro cheio de poemas
para ele e ainda fico com essa coisa na garganta
porque aparentemente a ideia
dele não me sai da cabeça)
durante muito tempo eu me importei
em tentar tirar dos poemas que escrevia
os famosos lugares comuns
– mas não aqueles que fossem de fato
tidos como lugares comuns
da poesia enquanto gênero no senso
comum e coisa e tal;
eu dizia dos meus poemas
daquilo que eu escrevi
e em cento e vinte páginas
enviei;
eu me preocupava em saber
se no fundo
eu conseguiria dizer
para o leitor
aquilo que eu acredito ser a minha noção
de poesia
de literatura –
pra mim
a literatura
te mantém dentro do texto
e depois te tirar de lá
aos socos e pontapés
como somente
no início do ano
o NÃO da marilia
foi capaz de fazer
e desde então
eu persigo essa ideia de narrativ
idade
tentando
de alguma maneira
narrar algo que nos atravesse
em tentar tirar dos poemas que escrevia
os famosos lugares comuns
– mas não aqueles que fossem de fato
tidos como lugares comuns
da poesia enquanto gênero no senso
comum e coisa e tal;
eu dizia dos meus poemas
daquilo que eu escrevi
e em cento e vinte páginas
enviei;
eu me preocupava em saber
se no fundo
eu conseguiria dizer
para o leitor
aquilo que eu acredito ser a minha noção
de poesia
de literatura –
pra mim
a literatura
te mantém dentro do texto
e depois te tirar de lá
aos socos e pontapés
como somente
no início do ano
o NÃO da marilia
foi capaz de fazer
e desde então
eu persigo essa ideia de narrativ
idade
tentando
de alguma maneira
narrar algo que nos atravesse
mas ele me dirige os nervos
como um ônibus
enfurecido
no meio da cidade universitária
como fazem os motoristas
da última semana
quando eu
consegui:
bater as canelas
segurar na mão de um moço
de quem não sei nem o nome
quase cair
deslizar para a ponta do banco até perceber que
a proteção que me separava do chão
estava levantada
quase cair de um banco
num ônibus em alta velocidade
me faz lembrar
daquilo lá de cima
da literatura
é a expulsão
é a expulsão ética
é a expulsão da geruza
como um ônibus
enfurecido
no meio da cidade universitária
como fazem os motoristas
da última semana
quando eu
consegui:
bater as canelas
segurar na mão de um moço
de quem não sei nem o nome
quase cair
deslizar para a ponta do banco até perceber que
a proteção que me separava do chão
estava levantada
quase cair de um banco
num ônibus em alta velocidade
me faz lembrar
daquilo lá de cima
da literatura
é a expulsão
é a expulsão ética
é a expulsão da geruza
eu continuo a pedir desculpas
enquanto percebo que não consigo
parar de performar autopsias
nas coisas que já sentia resolvidas
até que vi uma mensagem
(e mesmo que muitos
ainda considerem as redes
sociais como
um lugar
meio estranho)
estampada
n’um retweet que dizia
se agora me lembro
as pessoas que não saíram da sua
vida ainda tem alguma coisa
para te ensinar a respeito dela
– e eu acredito que nasça aí o problema
já que o que eu queria
era ser expulso da
vida que eu levo
e da narrativa
que eu venho construindo há um ano
talvez isso não valha a pena
e talvez o NÃO do teste ainda <não>
tenha sido de fato considerado por
mim um texto fundador
como uma raíz que faria de fato
algo mudar em mim
enquanto percebo que não consigo
parar de performar autopsias
nas coisas que já sentia resolvidas
até que vi uma mensagem
(e mesmo que muitos
ainda considerem as redes
sociais como
um lugar
meio estranho)
estampada
n’um retweet que dizia
se agora me lembro
as pessoas que não saíram da sua
vida ainda tem alguma coisa
para te ensinar a respeito dela
– e eu acredito que nasça aí o problema
já que o que eu queria
era ser expulso da
vida que eu levo
e da narrativa
que eu venho construindo há um ano
talvez isso não valha a pena
e talvez o NÃO do teste ainda <não>
tenha sido de fato considerado por
mim um texto fundador
como uma raíz que faria de fato
algo mudar em mim
– mas isso me faz lembrar
que mesmo a raíz plantada
após o teste
nunca garantiria um resultado
igual, idêntico
semelhante
ao NÃO da marília
ele poderia me garantir um talvez
ou mais algum tempo
chorando enquanto eu ouço
pela quarta vez
a matilde lendo
conversa de fim de tarde após três anos de
exílio
e dia dez
e eu mandei para ele
esses poemas
e ele agora
relembra e chora
como eu chorei
no minha pátria, minha língua
ao filmar
ela lendo pela primeira vez
(ninguém do meu lado
que estava comigo
conhecia a obra dela
somente trechos
somente traços
e isso foi suficiente
para que eu pedisse um abraço bem forte
ao sair daquele shopping
na faria lima
por não conseguir sequer saber
qual era o caminho de volta para
o metrô)
que mesmo a raíz plantada
após o teste
nunca garantiria um resultado
igual, idêntico
semelhante
ao NÃO da marília
ele poderia me garantir um talvez
ou mais algum tempo
chorando enquanto eu ouço
pela quarta vez
a matilde lendo
conversa de fim de tarde após três anos de
exílio
e dia dez
e eu mandei para ele
esses poemas
e ele agora
relembra e chora
como eu chorei
no minha pátria, minha língua
ao filmar
ela lendo pela primeira vez
(ninguém do meu lado
que estava comigo
conhecia a obra dela
somente trechos
somente traços
e isso foi suficiente
para que eu pedisse um abraço bem forte
ao sair daquele shopping
na faria lima
por não conseguir sequer saber
qual era o caminho de volta para
o metrô)
talvez essa narrativa
se baseie no único
fato de eu talvez não saber narrar
se baseie no único
fato de eu talvez não saber narrar
talvez o teste fosse mesmo
essa abertura que eu não esperava
e desde o início
eu disse
essa abertura que eu não esperava
e desde o início
eu disse
SIM
______________________
o fabio saldanha nasceu em 1993 em são carlos.
o fabio saldanha faz letras na usp e mora em são paulo.
o fabio publicou, ontem, seu primeiro livro, minha quarta xícara de café, pela editora pautá.
incluo esse poema na série de conversas com um teste de resistores que postei por aqui.
quando o fabio me mandou o poema, eu queria escrever um texto para encerrar a série falando sobre poemas que conversam e que vão se desdobrando paralelamente. espero escrever ainda. mas por enquanto, encerro a série por aqui com este generoso SIM.
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um teste de resistores
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Furograma para blind light – Gabriela Capper
a gabriela capper fez esse belo furograma para o meu poema "blind light"
re-ordenando e deslocando
os lugares pessoas perguntas escritores acidentes procedimentos
que aparecem no poema
o que fica é o furo? me perguntei ao ver a palavra furo piscando em várias dimensões
ela me contou também dos diagramas do ricardo basbaum
e fiquei com vontade de fazer um post sobre ele
incluo o "furograma..." na série de conversas com um teste de resistores
(que me alegra muito por estar crescendo!)
e queria dizer que fico feliz por essa conversa ter
ido para o vídeo para o furo para o diagrama
por ela ser uma conversa numa língua que eu nem imaginava que existia
numa linguagem que eu nem imaginava que eu pudesse compreender
obrigada, gabriela, pela conversa em furograma
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gabriela capper,
um teste de resistores,
vídeo
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
[Agora termina o domingo...] – Leda Cartum
Agora termina
o domingo:
é o primeiro domingo de agosto.
Hoje mais cedo fui à padaria
comprar velas e algo para comer
porque eu ia receber a Amanda
que chegaria dali a pouco;
tínhamos combinado de nos ver quando ela voltasse
de viagem. É que foi um encontro uma vez
no curso e depois no carro
que nos aproximou de uma forma firme e
forte. E ficamos de conversar mais
para trocar experiências mas
ontem cheguei em casa –
depois de também voltar de viagem –
e encontrei tudo escuro:
a Eletropaulo havia cortado a energia
por conta de uma conta de luz que não foi paga
três meses atrás.
A Amanda tinha me escrito
na sexta-feira
contando que tinha voltado
e sugerindo uma visita;
eu disse para ela: venha no domingo,
te recebo na minha casa.
Mas ontem cheguei
e a casa estava
sem luz.
Pensamos em marcar em outro lugar mas
por fim decidimos manter o encontro
com velas e sem luz.
Fui à padaria comprar velas
que eu não tinha em casa
e comprei também uma torta de palmito
e uma bandeja de doces árabes
para servir para a Amanda
que estava chegando.
Minha irmã subiu comigo até em casa:
veio pegar alguns quadros
que eu tirei da parede e ela quis levar
para pregar no quarto dela.
Na volta minha irmã cruzou com a Amanda:
elas se encontraram na porta do prédio;
uma saindo e a outra entrando
na minha casa sem luz.
A casa agora parece mais silenciosa,
alguma coisa muito antiga nessa falta de energia
com a qual recebi a Amanda;
com a qual nos sentamos para conversar;
que nos acompanhou durante a noite toda em que falamos
e falamos e falamos enquanto as velas queimavam
tanto que tivemos de acender outras –
outras que agora já estão quase no fim.
A Amanda acabou de sair:
ela estava com sono e
eu também um pouco cansada –
mas a conversa ia por tantos lados
tantos caminhos diferentes
que não sabíamos parar;
agora que ela foi embora
e a casa ficou vazia
e sem luz
eu não soube o que fazer no silêncio e
comecei a escrever.
Faz tempo que quero fazer um
poema assim:
contando.
Contando o que aconteceu.
Porque muitas das coisas que vêm –
que vêm no texto e fora do texto –
não são mais do que isso:
um relato do que foi o dia.
Como o que eu li uma vez num livro e
que me acompanhou até aqui
e depois, outra vez,
num blog;
escrever um relato –
um relato pensativo –
em versos:
de modo que o ocorrido adquire ritmo
próprio, como numa caminhada.
Faz tempo que quero contar dos
encontros que tenho tido
nesse ano longo e louco de
dois mil e quinze.
Parece que alguma coisa se abre
como uma clareira clara
no meio de uma floresta densa.
Cada encontro é uma descoberta
das coisas que eu nunca vi
perceber que as pessoas estão passando
por coisas como eu
e que passar pelas pessoas é também dar tamanho
às coisas por que passo;
perceber que as amizades são
a cada vez, a cada dia
uma coisa nova;
e que eu queria receber bem a Amanda na minha casa
porque estar sozinha me ensina a compreender
cada um dos encontro que tenho
como uma coisa muito preciosa.
Realmente trocamos muito:
falamos sem parar e cada ideia trazia
outra ideia
e outra
e outra.
Depois descobri que ela não está comendo
farinha branca
nem açúcar
por causa de um exercício em relação à gula:
nessa semana ela está tentando
se conter e perceber
o que é que realmente queremos
e o que achamos que queremos;
a gula – ela me disse –
é o medo de estar consigo mesmo.
(Acho que era assim
não tenho mais certeza
se eram essas as palavras que ela usou.)
Primeiro me senti mal por ter comprado,
justamente,
torta de palmito e doces árabes
para que comêssemos.
Depois entendemos juntas as escolhas
e rimos das escolhas
e continuamos a conversar
enquanto eu descascava a cera
da vela que já tinha grudado
no pires.
Muita coisa se cruza e fica
nesses diálogos noturnos
quando São Paulo é um mundo todo
cheio de outros mundos
que trazemos de volta das viagens
que fizemos e que nos trouxeram
de novo para cá.
Cada volta é tanta coisa –
mesmo a viagem tendo sido curta
(só três dias mas
a presença do mar parece que deixa uma camada a mais
salgada grudando na pele
que muda o jeito da gente ver as coisas) –
é tanto que fiquei mesmo impactada
quando entrei em casa de volta
e apertei o interruptor:
não funcionou;
a luz não acendeu;
e eu fui meio tropeçando até o quarto
e dormi num escuro mais escuro de sábado
para domingo;
pensando.
A Amanda me contou que lá na cachoeira enorme
onde ela estava
havia um coro que se sobrepunha à força
com que a água caía:
era um coro de vozes distantes
que eu quase ouvi quando ela contou –
umas vozes que não sei se vinham da cabeça dela
ou da cabeça de todo mundo
ou de cabeça nenhuma.
As vozes diziam:
obrigada
e repetiam
e depois diziam:
é de graça
e repetiam
e o tom subia
cada vez mais
e um refrão
foi se misturando
ao outro –
até que enfim
as vozes diziam:
obrigraça
e repetiam
e até apenas:
é de graça.
A Amanda cantou isso para mim quando
estávamos no meu quarto
com a vela parada sobre a cama
e os livros espalhados
que eu ia emprestar para ela.
Era um pouco como num filme
com aquela luz amarelada
e as sombras dançando;
era muita coisa boa
e difícil
e fácil
e grande –
tanto que eu quase consegui
ouvir o som da água
e o som do coro.
A gente pensou:
estar aqui nunca pode ser esquecer que
é possível estar em outro lugar;
e, ao mesmo tempo, também
estar aqui sempre tem que ser esquecer que
é possível estar em outro lugar.
(Não sei se pensamos isso aquela hora
ou se sou eu que estou pensando agora –
acho que não importa tanto.)
Ela partiu e levou
dois livros –
um deles é tão sagrado para mim que
eu nunca achei que iria emprestá-lo.
Mas ele foi e eu estou
contente.
contente.
_______________
a leda cartum é paulistana e mestranda em letras na usp.
a leda cartum publicou em 2012 o livro
as horas do dia - pequeno dicionário calendário (pela 7letras)
a leda me mandou esse lindo poema como uma espécie de conversa com o teste de resistores
e ela disse uma coisa bonita sobre a autonomia de algumas conversas poéticas
que vão se formando e sendo produzidas quase como numa caminhada
ou como esse relato em versos /que adquire ritmo
que vão se formando e sendo produzidas quase como numa caminhada
ou como esse relato em versos /que adquire ritmo
próprio/ e sai andando por aí.
"cada encontro é a descoberta das coisas que nunca vi."
estou tão feliz com essa antologia de conversas com o teste de resistores!
a poesia andando.
"cada encontro é a descoberta das coisas que nunca vi."
estou tão feliz com essa antologia de conversas com o teste de resistores!
a poesia andando.
Etiquetas:
leda cartum,
poesia brasileira,
um teste de resistores
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