sábado, 18 de julho de 2015

Os espiões trácios dormiam perto dos barcos – Emmanuel Hocquard



Ao pé das Grutas de Hércules, no litoral atlântico, o arqueólogo Montalban trazia à luz os vestígios de um balcão romano, estabelecimento comercial do século I, que os vândalos em sua época haviam saqueado: as pinturas murais haviam sido completamente arrancadas e seus restos abandonados no chão e, pouco a pouco, recobertos pela areia. Quanto às paredes do local, elas tinham abastecido a demanda de pedra de gerações de autóctones: recentemente, o senhor Doolittle tinha encontrado material para usar na muralha ao redor da cidade.

Ao longo de semanas, todos os dias ele trazia seu lote de fragmentos coloridos de antigos afrescos que, uma vez lavados e dispostos sobre grandes mesas, se revelavam inaptos às mais pacientes tentativas de reconstituição, mesmo que parciais, do mais mínimo pedaço do mural.

Por outro lado, esta irredutibilidade do fragmento a reintegrar o conjunto original dava início, pelo viés das lacunas, ao desaparecimento do suporte e à perda definitiva do modelo, e consequentemente à hipótese de uma nova redistribuição do mundo, nascida do acaso a partir desses cacos cujas cores conservavam uma frescura impressionante graças aos quinze séculos de areia, no pressentimento de um tremor rítmico no qual o entre começaria a tragar, para dentro da cidade morta, sua parte viva, indo até o mar mais próximo, a estação já bem avançada com os riscos das grandes marés por causa do equinócio...

Liberados da origem e deixados à sua própria evidência, era preciso enviar esses fragmentos de volta à areia, pois toda mudança que faz sair um corpo dos limites de sua natureza / conduz instantaneamente à morte daquele que existia antes (Lucrecio).


Foi no verão de cinquenta e três.

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publicado em 1975 como plaquete pela orange export ltd.
"os espiões trácios..." reaparece nesse livro aí em cima chamado 
álbum de imagens da villa harris (pol, 1978)
e depois é recopiado no posfácio de teoria das mesas (pol, 1996)
a figura de moltalban está em vários momentos da obra de hocquard
e ele usa a anedota como dispositivo de trabalho, de escrita, de tradução:
como esses cacos que montalban não consegue remontar à origem,
a escrita deve ser nova distribuição do mundo, de acordo com a pista de um dado momento.
mais traduções de emmanuel hocquard aqui.

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