sábado, 20 de agosto de 2016

Cândida – Chacal





acabou de sair
tudo (e mais um pouco)
reunião da obra do chacal pela incrível editora 34!
e revendo e relendo o chacal
acabei encontrando esses dias essa gravação de "cândida"
numa versão que saiu encartada na revista bric-a-brac, de brasília, 
num disquinho preto molenga (segundo o chacal nos anos 80).
a base do poema é uma composição 
de carlos henrique resende - o nanico.
esse foi o primeiro poema do chacal que conheci
conheci o chacal pela escuta
conheci o chacal pela voz
conheci o chacal ouvindo um poema
deixo aqui minha alegria pela chegada do tudo
com essa gravação linda de 'dama daminha'...








terça-feira, 2 de agosto de 2016

Três homens – Bernadette Mayer





descansando
Três homens descansam. Eles se mexem.
homens falando
uma garota olhando uma caixa
Tem três homens num barco. Eles trabalham.
um homem viajando
garotas esperando
Homens falando e cantando. Eles estão dormindo
um garoto de nove anos
três homens se mexendo
Uma garota olha uma caixa. Ela se debruça.
homens cantando
uma garota se debruçando
Ela está usando um casaco. Um homem viajando
ganha um prêmio.
um homem ganhando um prêmio
garotas piscando
Tem um homem na casa de luz. Tem outro comprando um relógio.
um garoto de azul
três homens num barco.
Garotas que estão esperando. Garotas  que estão piscando.
homens dormindo
uma garota usando um casaco
Garotas em uniforme andando de skate
um homem na casa de luz
garotas andando de skate
Um garoto de nove, de azul, perto da montanha.
um garoto perto da montanha
três homens trabalhando
três homens descansam. Eles se mexem.
um homem comprando um relógio
Tem três homens num barco. Eles trabalham.


***

a bernadette mayer nasceu em 1945
a bernadette mayer nasceu no brooklin
a bernadette mayer fez parte da escola de nova iorque 
            e do movimento da l=a=n=g=u=a=g=e p=o=e=t=r=y
"três homens" está no livro poetry, de 1976
a imagem que abre o post é da niki de saint phale, artista francesa (1930-2002)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um compatriota punjabi no metrô de Barcelona – Amarjit Chandan





Quando você olhou
pensei aquele senhor está me olhando.

Você está sozinho?
Não veio mais ninguém?

Não posso trabalhar agora:
Não sou tão velho assim – pouco mais de vinte e cinco.

Estou aqui há seis anos.
A metade desse tempo passei em pé, preparando rotis no fogão dos restaurantes.
O dinheiro de Deus.
Muitos garotos enlouqueceram e se suicidaram.
Hipotecamos para o futuro o conforto de hoje.

Bahawalpur e Barcelona se distanciam cada vez mais.
A casa é uma ilha boiando no vasto oceano.

O sol dessa cidade acolhe todo mundo.
Deixe a neblina de Londres e venha morar aqui.

O metrô vai parar na próxima estação.

Descendo ele suspirou e disse:
Que época para suportar a dor.

E desapareceu abrindo caminho pela multidão.


**

amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
amarjit chandan imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (feita pelo próprio amarjit)
publicada na revista "modern poetry in translation" (mptmagazine.com)
– num número especial dedicado aos refugiados, 
"the great flight, refugee focus", 
cuja capinha está no post de ontem –, 
presente lindo que ganhei 
do rob packer (thanks, rob!)

domingo, 31 de julho de 2016

Neste país – Amarjit Chandan



Neste país o estrangeiro começa a perder a memória no dia em que chega.

Ele fica mudo na sua língua.

O ar em volta traduz o silêncio dele para o inglês -- 
Está nevando.
As folhas secas estão caindo.
As ondas do mar baixam.
O rio diminui.
O chá está esfriando.
As fotografias vão desaparecendo.

Ele fica pensando -- não deveria estar neste país.
Ele continua sendo um estranho aqui e
Começa a acreditar nos outros estranhos.

Uma peça quebrou na engrenagem do tempo.
O vinil fica tocando com a agulha presa na mesma faixa.

Neste país o estrangeiro não sabe o que faz.
Fica sempre inconsciente             perdido nos seus pensamentos.
Usa sapatos maojay de Punjabi com terno 3 peças.

Neste país o estrangeiro fica olhando para a foto do seu antigo passaporte
e se assusta ao ver a própria imagem.

Neste país o estrangeiro se surpreende de perceber que o caminho de volta para casa é bem longo
Quando está perdido na sua cidade natal, a lua lhe aponta qual caminho tomar
Ela o acompanha até que amanheça e ele bata à porta de sua própria casa.



**

amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (dele e de julia casterton) 
publicada na revista "modern poetry in translation" 
(número especial dedicado aos refugiados, 
chamado "the great flight, refugee focus", colo a capinha aí embaixo), 
presente lindo que ganhei 
do rob packer (obrigada, rob!)



terça-feira, 31 de maio de 2016

Um presente para Graça – Bernadette Mayer



Eu vi uma linda chaleira E eu queria te dar essa camisa maravilhosa
100% algodão real e quadriculada de azul e preto,
Também tinha uma listrada de vermelho e preto
Depois vi umas botas num lugar chamado Chuckles
Elas chegavam até mais ou menos 5 cm acima do tornozelo
Todas de couro e em vermelho, preto ou roxo
Foi difícil não ter dinheiro hoje
Para não falar das flores e diversas lingeries
Todas em linho e seda com a renda ainda por perfumar
Com bastante brilho para qualquer Graça
E luxo, ornamentos, conforto e charme
Mas só posso presenteá-la com este poema –
que tem, como substância, o mesmo sentido do seu nome

domingo, 20 de março de 2016

Wall drawing 118 – Sol Lewitt



Numa parede, qualquer pedaço contínuo de parede, usando um lápis duro, faça cinquenta pontos ao acaso. Os pontos devem ser distribuídos com equilíbrio pela superfície da parede. Todos os pontos devem ser conectados com linhas retas. 


https://www.youtube.com/watch?v=RDrHHsez3nU