domingo, 4 de outubro de 2015

depois da marília – fabio saldanha






eu acho que a conexão da internet
quando falha
é um sinal claro
daqueles que a gente interpreta
como se dois mais dois pudesse
realmente dar peixe
eu acho que é nesse momento em que
a minha vontade de escrever
um poema narrativo
volta
na verdade a vontade
de escrever um poema narrativo
me persegue há muito tempo
 eu não sei se eu consigo escrever um poema
narrativo
e eu não sei se consigo porque
desde que eu fechei  o teste
com aquele NÃO em letras maiúsculas
eu fico duvidando da minha capacidade
de acabar narrando alguma coisa
que pudesse ser material poético
e eu sempre vou esquecendo
que a ideia do processamento
a partir da narração
vem da vontade de não apagar
os brancos que ficam
entre a minha parte do silêncio e
a sua –
(e na verdade eu cansei
de poemas que me dizem
só a respeito do que ficou
em um espaço
entre dois brancos
entre dois silêncios
entre o espaço da minha
boca na sua)
eu não sabia o que
poderia acontecer
quando eu fosse tentar
escrever o meu poema narrativo
mas a internet falhou
então eu escolhi
escrever agora
a respeito
dessa narratividade
porque
apesar de ser um pouco apagado
para a crítica em português
a ideia do –idade
como em –ivity
de subjectivity
traz consigo
o fazer
o escrever
essa ideia de que existe
algo fabricado
dentro da
por exemplo
subjetividade
eu venho filmando
ideias na minha cabeça
e esse poema
acabou sendo muito diferente do que
eu imaginava
eu agora tenho um problema na garganta
eu agora quero chorar a minha
garganta para fora
eu agora não sei se fico
ou vou embora porque
a ideia de me manter preso
em um único ponto
que me presentifica
dói
(e dói porque
a ideia do meu presente
ainda me liga diretamente
a todas as narrações que eu construo desde
o ano passado
 já faz um ano eu diria 
para ele se ele se importasse
se ele se importasse
talvez ele já soubesse
que eu lanço um livro cheio de poemas
para ele e ainda fico com essa coisa na garganta
porque aparentemente a ideia
dele não me sai da cabeça)
durante muito tempo eu me importei
em tentar tirar dos poemas que escrevia
os famosos lugares comuns
 mas não aqueles que fossem de fato
tidos como lugares comuns
da poesia enquanto gênero no senso
comum e coisa e tal;
eu dizia dos meus poemas
daquilo que eu escrevi
e em cento e vinte páginas
enviei;
eu me preocupava em saber
se no fundo
eu conseguiria dizer
para o leitor
aquilo que eu acredito ser a minha noção
de poesia
de literatura 
pra mim
a literatura
te mantém dentro do texto
e depois te tirar de lá
aos socos e pontapés
como somente
no início do ano
o NÃO da marilia
foi capaz de fazer
e desde então
eu persigo essa ideia de narrativ
idade
tentando
de alguma maneira
narrar algo que nos atravesse
mas ele me dirige os nervos
como um ônibus
enfurecido
no meio da cidade universitária
como fazem os motoristas
da última semana
quando eu
consegui:
bater as canelas
segurar na mão de um moço
                                    de quem não sei nem o nome
quase cair
deslizar para a ponta do banco até perceber que
a proteção que me separava do chão
estava levantada
                                    quase cair de um banco
num ônibus em alta velocidade
me faz lembrar
daquilo lá de cima
da literatura
                                    é a expulsão
é a expulsão ética
é a expulsão da geruza
eu continuo a pedir desculpas
enquanto percebo que não consigo
parar de performar autopsias
nas coisas que já sentia resolvidas
até que vi uma mensagem
(e mesmo que muitos
ainda considerem as redes
sociais como
um lugar
meio estranho)
estampada
n’um retweet que dizia
se agora me lembro
as pessoas que não saíram da sua
vida ainda tem alguma coisa
para te ensinar a respeito dela
 e eu acredito que nasça aí o problema
já que o que eu queria
era ser expulso da
vida que eu levo
e da narrativa
que eu venho construindo há um ano
talvez isso não valha a pena
e talvez o NÃO do teste ainda <não>
tenha sido de fato considerado por
mim um texto fundador
como uma raíz que faria de fato
algo mudar em mim
 mas isso me faz lembrar
que mesmo a raíz plantada
após o teste
nunca garantiria um resultado
igual, idêntico
semelhante
ao NÃO da marília
ele poderia me garantir um talvez
ou mais algum tempo
chorando enquanto eu ouço
pela quarta vez
a matilde lendo
conversa de fim de tarde após três anos de
                                                                             exílio
e dia dez
                                                             e eu mandei para ele
esses poemas
e ele agora
relembra e chora
como eu chorei
no minha pátria, minha língua
ao filmar
ela lendo pela primeira vez
(ninguém do meu lado
que estava comigo
conhecia a obra dela
somente trechos
somente traços
e isso foi suficiente
para que eu pedisse um abraço bem forte
ao sair daquele shopping
na faria lima
por não conseguir sequer saber
qual era o caminho de volta para
o metrô)
talvez essa narrativa
se baseie no único
fato de eu talvez não saber narrar
talvez o teste fosse mesmo
essa abertura que eu não esperava
e desde o início
eu disse

SIM





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o fabio saldanha nasceu em 1993 em são carlos.
o fabio saldanha faz letras na usp e mora em são paulo.
o fabio publicou, ontem, seu primeiro livro, minha quarta xícara de café, pela editora pautá.
incluo esse poema na série de conversas com um teste de resistores  que postei por aqui.
quando o fabio me mandou o poema, eu queria escrever um texto para encerrar a série falando sobre poemas que conversam e que vão se desdobrando paralelamente. espero escrever ainda. mas por enquanto, encerro a série por aqui com este generoso SIM.


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