quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

[quando seu aparecido chegou] – Sofia Mariutti




quando seu aparecido chegou
eu não costumava levantar pra fazer café
fatiar pão passar manteiga
eu ficava na cama até o último minuto
e o último minuto quase sempre
já era tarde demais
quando seu aparecido chegou
pra trocar o carpete
do condomínio edifício luciana
apareceu também a primeira barata
dentro do apartamento quatro
do condomínio edifício luciana
eu liguei o aspirador de pó e nós duas
guerreamos por meia hora e eu venci
com covardia depois de estraçalhar
o corpúsculo dela com o cabo
de vassoura dei mais alguns golpes
pra garantir o extermínio
o talentoso ripley mata o amigo
no barco com o remo
nem tão talentoso
ripley mata o amigo
com mais golpes do que o necessário
pra matar um amigo quantos golpes
são necessários pra garantir o extermínio
de alguém que amamos muito?
quando ripley mata o amigo
há paixão no assassinato
será que há paixão
entre a barata e eu?
clarice diz que para matar baratas
é preciso misturar farinha e açúcar
para esturricar o de-dentro delas
já sobre a morte do mineirinho clarice diz
“o décimo terceiro tiro me assassina”
com covardia
“o décimo terceiro tiro me assassina”
mais golpes do que o necessário
“o décimo terceiro tiro me assassina”
pra garantir o extermínio de um facínora
“o décimo terceiro tiro me assassina”
há paixão no assassinato
“o décimo terceiro tiro me assassina
porque eu sou o outro” eu
é um outro eu
quer ser um outro
mineirinho gregor samsa barata
seu aparecido 
quando seu aparecido chegou
eu morava há três meses no edifício luciana
e sentia falta de alguém pra conversar pela manhã
o seu aparecido me fazia levantar mais cedo
fazer café fatiar o pão assado na véspera
passar manteiga essas coisas todas
que eu não fazia antes
mas eu só me atrasava mais
conversava com seu aparecido
depois escrevia sobre ele
por que escrevo no passado
se estou no presente e o seu aparecido
está aqui ao lado?
hoje é o último dos três dias
da colocação do carpete e o presente não é memória:
o seu aparecido vai me deixar e nunca mais
vou vê-lo, franzino, com as mãos deformadas e feias
por que escrevo em versos
empilhados essa história?
talvez porque li os poemas narrativos
da marília garcia
e me deixei influenciar por ela
o seu aparecido tem setenta e cinco anos
quarenta de experiência com carpetes
o seu aparecido aceita café, aceita açúcar,
aceita pão, aceita manteiga,
pede pra eu deixar gorjeta, aceita um band-aid
que eu ofereço quando vejo a mão dele sangrar
o seu aparecido é do tipo que nunca diz não
não diz não
o seu aparecido reclama dos novos trens
comandados pelas máquinas
assim vai acabar o emprego dos homens
ele sabe que o emprego dele não está ameaçado
não há máquina que faça o meu trabalho
é uma autoridade dos carpetes empoeirados
trabalha como autônomo para várias lojas da cidade
já na casa dele na freguesia do ó não tem carpete
ele nem gosta de carpete
não gosta mesmo
o seu aparecido


**

a sofia mariutti é paulistana e fez letras-alemão na usp.
a sofia mariutti escreve palíndromos e anagramas 
(alguns estão no seu blog http://miafurtasitio.tumblr.com/)
a sofia mariutti é editora da companhia das letras.

o ano estava terminando

e eu resolvi encerrar essa série de conversas com o teste de resistores
mas depois recebi o poema da sofia
e continuei pensando nas linhas que vão ligando os poemas 
e fazendo a gente conversar e a seguir um ritmo 
e então eu começo o ano retomando a série 
com esse poema sobre o seu aparecido
(muito preciso
aliás
para essa semana de mudança 
em que ando às voltas com carpetes 
e sintecos e 
baratas)

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