quarta-feira, 2 de novembro de 2011

como quem escreve um livro... – Haroldo de Campos



como quem escreve um livro como quem faz uma viagem como quem
descer descer descer katábasis até tocar no fundo e depois subir
subir subir anábasis subir até aflorar à tona das coisas mas só as
pontas as cristas as arestas assomam topos alvos de icebergs agulhas
fagulhas por baixo é a massa cinza cetácea o grosso compacto de tudo
a moleira opaca turva onde o pé afunda malares mongóis a pele cor-de
majólica sob um gorro de peles vogais molhadas líquidas vogais eslavas
pipilando ptítsas outoniça beleza ainda segura de si nos cílios ruivo-
claros quase sem mover o rosto que o queria como um filho que ninguém
ninguém o conseguira deter do brasil para a alemanha e fôra para o
fronte russo porque quisera sombras na majólica sim porquequisera e a
carta lhe caíra nas mãos majólica na sombra porquequisera a carta
que ela escrevera informando os parentes russa branca num hospital de
campanha sim as duas pernas sombra e majólica serraram as duas pernas
dele gangrenadas assistira a tudo e a carta não sabe como ainda hoje
não sabia fôra parar nas mãos dele com um tiro na cabeça sombramajólica
por engano nas mãos dele talvez um parente talvez uma noiva alguém
talvezsim no brasil não tivera mais coragem para dójd idiot dójd
assim se diz está chovendo a neve plumiscava lá fora ciscava branco
e o diabo não é tão feio como o pintam leque de dentes amarelos
o chofer lituano fizera a guerra fugira depois e os alemães não
conhecem o frio o friofrio pravaler friomesmo não tem na terra deles
se você não fica dando tapas nas orelhas beliscões seguidos nas
orelhas elas apodrecem e caem a ponta do nariz também as pernas nos
joelhos precisa mover sempre o corpo comer coisas grossas
gordurosas chouriços de carne gorda senão o sono o sonobomsono
torporestupor de fomessonobom tudobom calmocálido tudoquente como
um ninho um nicho bom de braço roliço um ventre macio de sonobom
ohquessoônoboom nesse colo fofo e quando acorda se-é-que não tem mais
dedos não tem mais pernas não tem mais cara por isso tanta gente
sem orelha sem nariz lepra glácea de inverno e guerra é isso guerra
divide o amigo que comia em sua mesa desde criança o amigo contra
ele por isso fugira para ficar livre de duma vez mas não é tão feio
o diabo piscopiscando agora parentes escrevem filhos na escola pobres
pobres não há operários estudando em faculdade lituânia tem uma língua
difícil muitos falam alemão e russo ele já era brasileiro o cisco
da neve doía nos olhos a majólica fanava no halo de sombra fôra melhor
assim quemsabe aquele gorro de peles comprara em moskvá quase todo
ano fazia essa viagem o marido representante comercial die worte sind
wie die haut auf einem tiefen wasser palavras como pele sobre uma
água profunda ou o derma do dharma o chilrear de pássaros daquele
outono numa aquele outono de pássaros chilreando numa para baixo
para cima katábasis anábasis o ritmo das coisas do mundo numa cama



"como quem escreve um livro" é um dos fragmentos das Galáxias, de Haroldo de Campos, livro que levou vinte anos sendo escrito e foi publicado pela primeira vez em 1984. Uma das coisas mais lindas e incríveis que já li. 
A leitura feita por Haroldo de Campos aponta para o caráter de partitura do seu texto, todo escrito sem pontuação: a música é dictada pelo olhar, pela voz, pela escuta. A edição de 2004 de Galáxias traz um cd onde Haroldo lê 16 fragmentos do livro (foi dali que tirei o áudio acima). 
Gosto de lembrar também da epígrafe do livro (de mallarmé): la fiction affleurera et se dissipera, vite, d'après la mobilité de l'écrit. Leio as Galáxias seguindo o fio dessa ficção, que vai se movimentando e se desviando; vou sendo levada como neste sonobomsono ohquessoônoboom tudo calmo e cálido e cor de majólica, subindo até tocar no topo e descendo, descendo, assim se diz está chovendo.

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