domingo, 30 de novembro de 2014

Svetlana – Marília Garcia

na véspera de sua partida para 
ny, emmanuel hocquard datilografa
um poema de george oppen
em sua máquina de escrever
underwood n. 3. é como svetlana querendo voltar
para barcelona aqui não fico
mais nem um dia dizia no café
com nome grego que
lhe fazia falta ver as coisas
invisíveis daquela cidade e seu marido
na contramão carregando
no braço o menino sem língua,
tentando alcançar o que
aparecia do outro lado do mar
se alguém ainda viria
para ajudá-los
                         nesta época
do ano a tormenta não costuma
demorar (o poema era em inglês)
e tinham medo de se perder, 
ela dizia, por isso a distância,
ritmo de degrau seguindo
cortado, por isso
                           o modo de andar e
o ziguezague do avião sempre que saíam juntos. 
tinham medo e todos os dias fazia
algo para evitar. depois queria 
encontrá-lo na rua,
perdido, como um acidente:
cruza uma esquina e vê. desligou
a chamada na hora
precisa, a voz cortada outra
vez antes de seguir
pelas ramblas.

[poema do livro 20 poemas para o seu walkman. são paulo: cosac naify, 2007.]

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