quarta-feira, 21 de março de 2018

A luva do tempo de Edward Hopper -- Anne Carson



Certo sou apenas a sombra de um passageiro neste planeta
mas minha alma gosta de usar roupas formais
apesar das manchas.
Ela entra.
Ela tira a luva.
Será que ela se vira.
Será que ela cruza as pernas.
Isso é uma pergunta.
Quem está falando.
Também uma pergunta.
Tudo que posso dizer é que
Não vejo evidências de outra luva.
As palavras não são uma frase, não acredite nisto.
Acredite naquilo.
Não é um tempo vazio, é o momento
em que as cortinas sopram dentro da sala.
Quando a lâmpada está pronta
Quando a luz bate na parede.
E a luva?
Agora ela levanta -- a vida que ela poderia ter vivido (par les soirs bleus d'été).
Acontece que
a pintura é imóvel.
Mas se você colocar o ouvido na tela vai ouvir
o som de ótimos pneus em movimento
Em algum lugar alguém viaja em sua direção
Viaja dia e noite
Bétulas sem folhas passam
Estradas vermelhas se vão.
Agora, fique com o seguinte:
a evidência.
Acontece que
uma luva de boa qualidade
mede 22 centímetros da costura até a ponta do dedo.
Esta era uma luva "atirada ao fundo"
(como disse Godard de seu Rei Lear).
Enquanto ouvia às filhas Lear
desejava ver seus corpos
estirados ao lado de suas vozes
como crianças brancas.
Pois no que o tempo se difere da eternidade senão no fato de podermos medi-lo?

Sem comentários:

Publicar um comentário