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terça-feira, 8 de abril de 2014

Picabia falsificado – Roberto Bolaño



O certo é que um dia tudo acabou e eu fiquei só com meu Picabia falsificado como único mapa, como único apoio legítimo.


in: Os detetives selvagens.

sábado, 9 de março de 2013

Molly – Roberto Bolaño


Uma garota com libras irlandesas
e uma mochila verde.
143 pesetas por uma libra irlandesa,
bastante coisa né?
Nada mal.
E duas cervejas em uma varanda
de Barcelona.
E gaivotas.
Nada mal.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Te oferecerei um abismo... – Roberto Bolaño


Te oferecerei um abismo, disse ela
mas de forma tão sutil que você só perceberá
quando já tiver passado muito tempo
e você estiver longe do México e de mim.
Quando mais precisar você vai descobrir,
e esse não será o final feliz,
mas só um instante de vazio e felicidade
E talvez então você se lembre de mim,
ainda que não muito.


*

[a tradução deste foi feita

a 4 mãos, 1 suco de uva roxa
e 1 café capital num caderninho 
desenhado. foi feita sem abimos]

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

No filme... – Roberto Bolaño


No filme na TV o gângster toma um avião
que se levanta lentamente contra um entardecer em preto e branco.
Sentado na poltrona você movimenta a cabeça: na janela
vê o mesmo entardecer, as mesmas nuvens em preto
e branco. Você levanta e cola a mão no cristal:
o reator do gângster abre caminho entre as nuvens,
nuvens incrivelmente lindas, cachos da cabeleira
do seu primeiro amor, lábios ideais que formulam
uma promessa, mas que você não entende.
A imagem que se desloca pelo céu, a imagem
do televisor são idênticas, o mesmo anseio, o mesmo
olhar. E no entanto, você treme e não entende.




Roberto Bolaño nasceu em 1953, no Chile. Roberto Bolaño partiu em 2003, de Barcelona. Roberto Bolaño dispensa apresentações, depois dos livros que deixou, sobretudo seus romances 2666 e Los detectives salvages. Roberto Bolaño publicou em vida um livro de poemas, Três, com três poemas longos, e deixou organizado para publicação A universidade desconhecida, de onde traduzi este poema, com textos escritos entre 1977 e 1993, espécie de "universidade móvel", como ele chamou o livro, testemunho dos anos de formação literária. O vídeo reproduzido nesse post foi feito às margens do rio Sena em um entardecer preto e branco de um julho já meio distante. Na ocasião senti essa tremura diante das nuvens e suas formas mutantes: tudo está ali mas você não entende.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"o pesadelo começa..." – Roberto Bolaño



O pesadelo começa ali, nesse ponto.
Mais além, em cima e embaixo, tudo é parte do
pesadelo. Não meta sua mão nesse vaso. Não
meta sua mão nessa floreira do inferno. Ali
começa o pesadelo e tudo quanto dali
faça crescerá sobre suas costas como uma corcunda.
Não se aproxime, não ronde esse ponto equívoco.
Embora veja florescer os lábios de seu verdadeiro
amor, embora veja florescer umas pálpebras que
queria esquecer ou recobrar. Não se aproxime.
Não dê voltas em torno deste equívoco. Não
mova os dedos. Acredite em mim. Ali só cresce
o pesadelo.