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quarta-feira, 21 de março de 2018

A luva do tempo de Edward Hopper -- Anne Carson



Certo sou apenas a sombra de um passageiro neste planeta
mas minha alma gosta de usar roupas formais
apesar das manchas.
Ela entra.
Ela tira a luva.
Será que ela se vira.
Será que ela cruza as pernas.
Isso é uma pergunta.
Quem está falando.
Também uma pergunta.
Tudo que posso dizer é que
Não vejo evidências de outra luva.
As palavras não são uma frase, não acredite nisto.
Acredite naquilo.
Não é um tempo vazio, é o momento
em que as cortinas sopram dentro da sala.
Quando a lâmpada está pronta
Quando a luz bate na parede.
E a luva?
Agora ela levanta -- a vida que ela poderia ter vivido (par les soirs bleus d'été).
Acontece que
a pintura é imóvel.
Mas se você colocar o ouvido na tela vai ouvir
o som de ótimos pneus em movimento
Em algum lugar alguém viaja em sua direção
Viaja dia e noite
Bétulas sem folhas passam
Estradas vermelhas se vão.
Agora, fique com o seguinte:
a evidência.
Acontece que
uma luva de boa qualidade
mede 22 centímetros da costura até a ponta do dedo.
Esta era uma luva "atirada ao fundo"
(como disse Godard de seu Rei Lear).
Enquanto ouvia às filhas Lear
desejava ver seus corpos
estirados ao lado de suas vozes
como crianças brancas.
Pois no que o tempo se difere da eternidade senão no fato de podermos medi-lo?

domingo, 8 de outubro de 2017

Hokusai -- Anne Carson




A raiva é um nó no peito
mas que pode ser desfeito.

Hokusai, aos 83 anos,
disse,
está na hora de fazer os meus leões.

Todas as manhãs
até sua morte

219 dias depois
ele desenhou
um leão.

Rajadas de vento sopravam do noroeste.

Leões balançavam
e saltavam
do alto

dos pinheiros
para as ruas

cobertas de
neve ou se
estatelavam

sobre a cabana dele,
as patas brancas

ferindo as estrelas
ao cair.

Eu sigo desenhando
em busca
de um dia calmo,

dizia Hokusai
enquanto os leões tombavam.




**

do livro "Men in the off hours"
escrevi um pouco sobre este poema aqui.