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quinta-feira, 4 de junho de 2015

Minha vida com o doutor Lacan – Jacques Roubaud



"Um livro é a autobiografia de seu título
e, como tal, é a narrativa de uma singularidade", fim de citação.


1.
Aos 20 anos, percebi que uma amiga minha de infância era linda.
Eu estava amando. Ela se chamava Sylvia.


2.
Era filha de Paul Bénichou. A mãe era Gina, nome de solteira Labin.


3.
Um dia, fomos juntos ver um filme de Jean Renoir, O crime do Sr. Lange. Descobri que a atriz principal tinha sido amiga íntima de Gina Labin-Bénichou. O nome dela era Sylvia Bataille.


4.
Lembro que naquela época Paul Bénichou, sempre de uma elegância irrepreensível, gostava de falar dos jalecos coloridos que seu amigo Lacan usava durante a juventude. Acho que havia uma ponta de ironia no que ele dizia.


5.
Nós tivemos uma filha, Laurence: Laure é um nome provençal e também o nome da prima do meu pai, que vivia em Saint-Jean du Var; um nome de poema. Além disso, a filha de Sylvia Bataille se chamava Laurence Bataille.


6.
Em 1961, depois do suicídio do meu irmão, me levaram, como militar repatriado por motivos médicos do Saara , para o pavilhão isolado do hospital de Val-de-Grâce. O doutor Lacan se responsabilizou pela minha alta do hospital e pela minha volta para casa. Ele me recebeu em seu consultório. Eu só me lembro do silêncio.


7.
Provavelmente em 1965, com um amigo da época, o matemático Philippe Courrège, eu li e tentei entender o "Seminário da carta roubada".


8.
Um dia, acho que no final de 1968, recebi um telefonema. Atendi e ouvi uma voz: "Sou eu". De novo, o silêncio. "Lacan" (não tenho certeza dessa última palavra, mas das primeiras, sim.), "Temos que nos ver."


9.
Marcamos, então, um encontro; eu fui até a casa dele, na rue de Lille; saímos para caminhar; mas ele não me disse o motivo do encontro.


10.
Assim, nós nos vimos 2 vezes.


11.
Eu nunca mais o revi.


**


texto publicado pela primeira vez em 1989 na 1/1 paris-londres éditions
e depois nessa linda edição (cuja capinha abre este post)
da éditions de l'attente http://www.editionsdelattente.com

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eine nationale poesie? – Jacques Roubaud


Osnabrück, 27 de novembro de 1993.

@1

@1.1 Na minha família, o telefone não penetrou antes de 1945. Eu tinha doze anos. Era um aparelho grande e assustador, uma espécie de divindade, sem dúvida hostil. Meu pai não queria responder ao seu chamado, muito menos servir-se dele. A minha mãe cabia a tarefa de exorcizá-lo. Mas ela mesma não deve ter conseguido dominá-lo realmente. Com efeito, tendo-se passado vários anos, tínhamos deixado Carcassone, onde vivêramos durante toda a guerra (lembro-vos que houve uma guerra entre 1939 e 1945), e tínhamos vindo viver em Paris e um dia minha mãe recebeu um telefonema de uma velha amiga de lá, de antes. Elas falaram por um momento, deram notícias das famílias, das crianças, e, no momento de se deixarem, minha mãe disse: "Não vamos mais ficar tanto tempo sem nos falar. Toma o meu número de telefone." "É, você tem razão, me dá o número", começou a dizer a amiga. Neste momento, as duas começaram a rir.

@1.2 Quanto a mim, não avancei muito no domínio deste instrumento. Quando recebi uma chamada de Hamburgo me perguntando o título de minha intervenção de hoje, tive um momento de pânico. Pensando na inacreditável distância percorrida pela voz que chegava dessa maneira inverossímil à minha orelha, respondi bruscamente, com uma hesitação interrogativa na voz e na orelha: "uma poesia nacional?". E foi assim que me veio esse título e numa espécie de alemão que creio totalmente adequado e que adoto, consequentemente, pronunciando-o à minha maneira de quase analfabeto em assuntos germânicos: "Eine nationale Poesie?"

@1.3 Procederei da seguinte maneira. Num primeiro momento questionarei a ideia de nação. Num segundo momento me perguntarei o que a poesia pode ter a ver com a nação. Permanecerei mais ou menos no modo interrogativo, não tendo muitas respostas a oferecer, o que não me impedirá de expressar-me de maneira peremptória, como todo mundo.

@ 2
@2.1 Já faz alguns anos, a França, querendo mostrar que não guardava rancor da Alemanha por certos mal entendidos ocorridos em sua recente história comum, resolveu tomar-lhe emprestado a concepção de um movimento político de tendências fascistas, cujo nome é Frente Nacional e cujo chefe (era preciso ter um chefe) se chama Le Pen.

@2.2 Uma das ideias da Frente Nacional é: "A França aos franceses!", ou ainda "Fiquemos entre nós e as vacas estarão bem guardadas." Há estrangeiros demais na França, dizem, eles nos invadem, como outrora o fizeram os árabes vencidos por Charles Martel (um membro de honra da Frente Nacional) em Poitiers, em 732. Eles comem nosso pão, arruinam nossa segurança e nossa seguridade social. Em suma, "Eles vêm em nossos braços / estrangular nossos filhos e nossos companheiros". Bem, pelo menos simbolicamente.

@2.3 Então é preciso se livrar dos estrangeiros.

@2.4 Mas aí encontramos um problema. Se enviamos os estrangeiros de volta a seus lares, isso significa que, de modo claro e indiscutível, sabemos distingui-los dos franceses, que devem ficar em seu país. O que é um francês?

@2.5 Debruçando-se sobre a questão, a Frente Nacional, pela voz de seu chefe (é preciso um chefe que fale em nome de todos) propôs uma definição do francês.

@2.6 Definição de Le Pen: É francês aquele ou aquela cujo pai e cuja mãe são franceses.

@2.7 Entusiasmado por esta definição, compus o seguinte poema, já traduzido para várias línguas, digo com orgulho (isso não ocorre com tanta frequência), incluindo o alemão.

@2.8 Atenção: o poema deve ser dito bem rápido!

@ 2.9 Poema:

Le Pen é francês?

Se Le Pen fosse francês, segundo a definição de Le Pen, isso quereria dizer que, segundo a definição de Le Pen, a mãe de Le Pen e o pai de Le Pen teriam sido eles mesmos franceses segundo a definição de Le Pen, o que significaria que, segundo a definição de Le Pen, a mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai de Le Pen, sem esquecer o pai do pai de Le Pen teriam sido, segundo a definição de Le Pen, franceses, e consequentemente a mãe da mãe da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe da mãe do pai de Le Pen, e a mãe do pai do pai de Le Pen teriam sido francesas segundo a definição de Le Pen, e da mesma maneira e pela mesma razão o pai da mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai do pai da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe do pai de Le Pen, e o pai  do pai do pai de Le Pen teriam sido franceses sempre segundo a mesma definição, a de Le Pen
donde se concluirá sem problema e sem a ajuda de Le Pen ao se seguir o raciocínio
ou que existe uma infinidade de franceses que nasceram franceses segundo a definição de Le Pen, viveram e morreram franceses segundo a definição de Le Pen depois da aurora do começo dos tempos ou
que Le Pen não é francês segundo a definição de Le Pen.

Jacques Roubaud, provençal

@2.10 Tive que assinar provençal, não sendo eu francês, mas mais ou menos provençal, em todo caso o sou se remontar algumas gerações. (eu incluiria de bom grado o troubadour Rubaut entre os meus ancestrais, mas não consegui ainda determinar todos os elos perdidos de minha genealogia).

@2.11 A segunda alternativa, qual seja, que Le Pen não é francês segundo a sua própria definição, recebeu recentemente uma confirmação brilhante. Quando estive em Nova York para uma leitura no Poetry Project de St. Mark's Place e li meu poema, alguém no final me trouxe uma caneta de marca Le Pen. Ao examiná-la vi que ela era "made in Japan". Quod erat demonstrandum.


Tradução de Monique Balbuena
publicado na revista Inimigo rumor 7

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O que dizia o poema – Jacques Roubaud




O que dizia o poema, esqueci
Soube dizer o que dizia o poema, mas esqueci
O poema dizia isso, mas isso que dizia o poema, esqueci
Que o poema dissesse isso, era isso que dizia o poema? Se é isso que dizia o poema, esqueci
Talvez, sem saber o que dizia o poema, enquanto eu dizia o poema, (no tempo em que eu dizia o poema), eu já tivesse esquecido
mas se é isso que dizia o poma, esqueci
Agora, quando digo esse poma, não sei se digo esse poema, já que o que dizia o poema, esqueci
É por isso que o que dizia esse poema não é mais verdadeiramente o que dizia o poema
E que esqueci


Tradução de Marcelo Jacques de Moraes





Jacques Roubaud nasceu em Rhône, em 1932. Jacques Roubaud é poeta e matemático e participa do OULIPO desde a sua criação, em 1960. Publicou diversos livros, dentre os quais:  Quelque chose noir, Poésie, La forme d'une ville change plus vite, hélàs, que le coeur des mortels. Desde cedo, Jacques Roubaud foi tomado pela síndrome de "ice cube", segundo nos conta Inês Oseki-Deprê no posfácio à tradução que fez do Algo : preto: síndrome que consiste em não falar de si nem de seus sentimentos. Na foto ao lado, o poeta estava em uma soirée oulipienne, num dos muitos encontros feitos quando da celebração de 50 anos do grupo. Aliás, vê-se na foto um demi-Jacques-Roubaud, ao lado de seus companheiros oulipianos: pedaço de Roubaud por detrás de um terno preto, por detrás de uma estante de livros, por detrás das falas oulipianas, no momento em que alguém sussurrava seu nome e a linguagem se concretizava no espaço, em uma tarde de domingo na livraria Comptoir des mots.