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domingo, 14 de junho de 2020

Limitações da linguagem - Enrique Lihn




A linguagem espera o milagre de uma terceira pessoa
(que não seja o ausente das gramáticas árabes)
nem um personagem nem uma coisa nem um morto
Um verdadeiro sujeito que fale de si, com uma voz inumana,
daquilo que nem eu nem você podemos falar
bloqueados por nossos pronomes pessoais

Temos aqui um homem, apertando o gatilho contra a própria têmpora
Ele vê algo entre este gesto e sua morte
Ele o vê durante uma partícula elementar do tempo
tão curta que não fará parte dele
Se alguma coisa pudesse alargá-la sem temporalizá-la
uma droga (descubram-na!)
seria possível escutar os primeiros pálidos ecos
de uma inédita descrição daquilo que não é



[do livro Diário de muerte]
imagem: "Saturno devorando o filho", de Francisco de Goya, 1823

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Nada tem a ver a dor com a dor – Enrique Lihn



Nada tem a ver a dor com a dor
nada tem a ver o desespero com o desespero
As palavras que usamos para designar essas coisas estão viciadas
Não há nomes nesta zona muda
Ali, segundo uma imagem que uso, a morte viciada espera seus novos amantes
empertigada até a náusea, e os médicos
são seus cabeleireiros, manicures, seus usuários usurários
que a negociam, dosificam, domesticam, encarecem
porque esta besta vaidosa é uma enorme devoradora
Nada tem a ver a morte com esta imagem da qual me retrato
todas as formas que temos de nos referir às coisas estão viciadas
e este é só mais outro modo de torná-las viciadas
Talvez os médicos sejam apenas sábios e a morte – menina
dos seus olhos – um querido problema
que a ciência resolve com soluções parciais, isso é, difere
seu nódulo insolúvel selando uma pleura, para começar
Pode ser que eu seja uma dessas pessoas que pagam qualquer coisa por um tal trâmite 
Vou afundar no luto de mim mesmo, mas cuidando de manter
certa compostura como agora nesta consulta
Quero morrer (de tal ou tal maneira) este já é um verbo descomposto
 e absurdo, e que vai, direi algo mas razoavel-
mente, claramente fora da linguagem nesta
zona muda onde uns nomes não conseguem ser
quando alguém, que alívio, já está morto, esquecido espero que previamente de si mesmo
essa coisa morta que existe na linguem e que é
seu pressuposto
Invoco na consulta o Deus
da não mesmice, mas sabendo que se trata
de mais uma ficção
sobre a união do Oriente e Ocidente
de parágrafos, comentários e prólogos
Um morto que ainda tem alguns meses de vida teria que aprender
para se lamentar, desesperar e morrer, uma linguagem limpa
que só fosse acessível para além da matemática dos especialistas
de uma ciência impossível e igualmente válida
uma linguagem como um corpo operado de todos os seus órgãos
que vivesse uma fração de segundo à maneira do resplendor
e que falasse o mesmo sobre a felicidade e a desgraça
a dor e o prazer, com um desespero
sorridente, mas isso já é dizer
uma mera obviedade com o apoio
de uma figura retórica
minhas palavras não podem obviamente atravessar a barreira desta linguagem desconhecida
frente à qual sou como um babuíno convocado por extraterrestres a interpretar
a linguagem humana
Ai Deus teria que falar da felicidade de morrer de alguma forma inapreensível
disso que acompanhou a inocência o orgasmo todo mundo e cada um
dos momentos que marcaram a memória
com impressões descontroladas
Quando na primeira ejaculação
– muito mais mística do que a primeira comunhão – pensava em Isabel
ela não era uma pessoa mas sua imagem no resplendor orgástico desta criatura
que se viveu o fez apenas para outros diluindo-se carnalmente
no momento dos demais
deixando apenas um rastro de resplendor na sua memória
isso era a morte a morte veio e se tornou
o clique da máquina de memorizar essa repugnante devoradora
empertigada em palavras como estas, sua poesia em suma é a morte
o sonho da letra onde todo incômodo tem seu lugar
a prisão de seu ser que o privava do outro nome de amor escrito silenciosamente no muro
ou figuras obscenas untadas de vômito
sua vida que – outra palavra – deslizou sem ter podido
engrupir no existente se deter no passageiro fundir o focinho
feliz na tigela, bater pedindo um asilo noturno
com o seu amor como com uma pedra
a morte foi aquela que se disfarçou de mulher no sótão
de uma casa de pedra e para você de sombra e fumaça e nada
porque já não podia cortejar a sua dona, tremendo
de prazer de perdê-la debaixo de uma claraboia com teias de aranha
você precisa reconstituir este momento agora que a dona da casa é a morte
e não aquela outra, esse nada essa fumaça essa sombra
dar a si o prazer de ser ela e de se juntar a ela assim como os lábios de Freud que beijam a si mesmos


[do livro Diario de muerte]

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Menina olhos de papel -- Luis Alberto Spinetta


Menina olhos de papel
Para onde vai? Fique até de manhã
Menina pequenos pés
Não corra mais, fique até de manhã
Sonhe um sonho devagarzinho entre minhas mãos
Até que pela janela suba o sol
Menina pele de raiom
Não corra mais, sua hora é agora
E não fale mais nada menina
Coração de giz
Quando todos dormirem
Vou te roubar uma cor
E não fale mais menina
Coração de giz
Quando todos dormirem
Vou te roubar uma cor
Menina, voz de pardal
Para onde vai? Fique até o dia
Menina, peitos de mel
Não corra mais, fique até o dia
Dorme um pouco enquanto construo
Um castelo em seu ventre até que o sol
Menina faça você rir
Até chorar, até chorar
E não fale mais menina
Coração de giz
Quando todos dormirem
Vou te roubar uma cor
E não fale mais menina
Coração de giz
Quando todos dormirem
Vou te roubar uma cor
**
 

Muchacha ojos de papel
¿A dónde vas? Quédate hasta el alba

Muchacha pequeños pies
No corras más, quédate hasta el alba
Sueña un sueño despacito entre mis manos
Hasta que por la ventana suba el sol
Muchacha piel de rayón
No corras más, tu tiempo es hoy
Y no hables más muchacha
Corazón de tiza
Cuando todos duerman
Te robaré un color
Y no hables más muchacha
Corazón de tiza
Cuando todos duerman
Te robaré un color
Muchacha, voz de gorrión
¿A dónde vas? Quédate hasta el día
Muchacha, pechos de miel
No corras más, quedate hasta el día
Duerme un poco y yo entre tanto construiré
Un castillo en tu vientre hasta que el sol
Muchacha, te haga reír
Hasta llorar, hasta llorar
Y no hables más muchacha
Corazón de tiza
Cuando todos duerman
Te robaré un color
Y no hables más muchacha
Corazón de tiza
Cuando todos duerman
Te robaré un color

quarta-feira, 21 de março de 2018

A luva do tempo de Edward Hopper -- Anne Carson



Certo sou apenas a sombra de um passageiro neste planeta
mas minha alma gosta de usar roupas formais
apesar das manchas.
Ela entra.
Ela tira a luva.
Será que ela se vira.
Será que ela cruza as pernas.
Isso é uma pergunta.
Quem está falando.
Também uma pergunta.
Tudo que posso dizer é que
Não vejo evidências de outra luva.
As palavras não são uma frase, não acredite nisto.
Acredite naquilo.
Não é um tempo vazio, é o momento
em que as cortinas sopram dentro da sala.
Quando a lâmpada está pronta
Quando a luz bate na parede.
E a luva?
Agora ela levanta -- a vida que ela poderia ter vivido (par les soirs bleus d'été).
Acontece que
a pintura é imóvel.
Mas se você colocar o ouvido na tela vai ouvir
o som de ótimos pneus em movimento
Em algum lugar alguém viaja em sua direção
Viaja dia e noite
Bétulas sem folhas passam
Estradas vermelhas se vão.
Agora, fique com o seguinte:
a evidência.
Acontece que
uma luva de boa qualidade
mede 22 centímetros da costura até a ponta do dedo.
Esta era uma luva "atirada ao fundo"
(como disse Godard de seu Rei Lear).
Enquanto ouvia às filhas Lear
desejava ver seus corpos
estirados ao lado de suas vozes
como crianças brancas.
Pois no que o tempo se difere da eternidade senão no fato de podermos medi-lo?

sábado, 17 de março de 2018

Experiências – Bernadette Mayer




Escolha ao acaso uma palavra (um substantivo é fácil): deixe a cabeça pensar livremente até que surjam ideias. Em seguida, pegue algumas dessas ideias, observe-as e tome notas. Experimente usar uma palavra não conotativa, tal como “então”.

De forma sistemática, exclua alguns tipos de palavras ou frases de um texto seu ou de outra pessoa; por exemplo, exclua todos os adjetivos de um poema seu ou todas as palavras que comecem com S nos sonetos de Shakespeare. 

De forma sistemática, desorganize a língua: por exemplo, escreva um texto feito todo com locuções preposicionais ou acrescente um gerúndio a cada linha de um texto em prosa ou poema já existente etc.

Reescreva o texto de alguém. Pode ser de alguém que você admire.

Forme um conjunto de palavras (faça uma lista ou escolha um conjunto já pronto); a partir dessas palavras, e só com elas, faça um texto ou o que for possível fazer. Deixe que elas determinem sua própria forma e/ou: utilize certas palavras de maneira fixa, como: a mesma palavra em cada linha ou num lugar específico de cada parágrafo, etc. Desenhe palavras.

Nunca dê ouvidos aos poetas ou a outros escritores; nunca explique seu próprio trabalho (experiência de comunicação).

Crie situações de múltipla escolha ou de preenchimento de espaços em branco e brinque com as palavras como se fossem “objetos” vazios de sentido, talvez apenas um som ou um bloco de sentido, podendo significar qualquer coisa.

De forma sistemática, exclua os elementos de algum texto feito por você até reduzi-lo a uma versão “básica” ou leia-o ao contrário (linha por linha ou palavra por palavra). Leia um romance ao contrário.

Fazendo uso de expressões específicas de determinado assunto ou ideia, escreva sobre outro assunto (afaste-se aqui o máximo possível de metáforas e analogias); por exemplo, use termos científicos ou filosóficos para falar sobre a neve ou sobre o tédio.

Experimente roubar e plagiar de todas as formas possíveis.

Parta de uma ideia ou de um objeto, qualquer um que lhe interesse: depois passe alguns dias olhando e observando (tomando notas) o que lhe vem à cabeça sobre essa ideia ou objeto, ou tente criar uma situação ou um contexto em que tudo o que aconteça com eles tenha uma “relação”.

Faça um poema como se as palavras fossem objetos tridimensionais no espaço. Imprima as palavras em cartões caso necessário.

Corte, cole etc. (Justaponha os cut-ups em tiras na horizontal, misture tudo, faça infinitas combinações).

Escreva exatamente como você pensa, o mais perto que você puder, ou seja, coloque a caneta sobre o papel e não pare mais. 

Tente gravar um áudio, ou seja: falar diretamente no gravador sem texto, talvez em algumas horas específicas do dia.

Tome notas do que acontece em alguns dias ou horas (qualquer período que você determinar); em seguida, busque as relações, conexões, sincronias; faça algo a partir disso (por escrito).

Convide um ou dois amigos para escrever por você, fingindo ser você.

Utilize (escolha, escreva) uma forma fixa e/ou tente destruí-la; por exemplo, uma sextina.

Escolha ou escreva uma história, um mito, siga reescrevendo sem parar ou então deixe o texto de lado e, tentando lembrar do que escreveu, reescreva cinco ou dez vezes (de memória); veja o que acontece. Ou trabalhe a partir da proliferação contínua de uma frase ou de um verso, tirados de uma coluna ou lista, e repita a cada vez de maneira diferente até encontrar uma versão que funcione bem. Guarde todas as etapas do exercício.

Experiências de datilografar versus escrever com a mão tais como gravar/criar sistemas/modos. Faça aquela que você nunca costuma fazer.

Produza um tipo de repetição.

Escolha um trabalho seu já pronto e insira nele (ao acaso ou de propósito) um parágrafo tirado, por exemplo, de um livro sobre teoria da informação ou de um catálogo qualquer. A seguir, estude as possibilidades de refazer o trabalho ou reescrever a “fonte”.

Experimente escrever a cada dia usando um pronome pessoal diferente e em vários tempos verbais.

Explore as possibilidades de listas, palavras-cruzadas, charadas, dicionários, gramáticas de bom uso da língua.

Escreva o que não pode ser escrito. Por exemplo, escreva um índice (Leia um índice como um poema.)

Possibilidades de sinestesia em relação à língua e às palavras: a palavra e a letra como sensações, as cores evocadas pelas letras, as sensações produzidas pelo som de uma palavra separada de seu conteúdo etc. E o efeito deste fenômeno em você; por exemplo, escreva na água, num veículo em movimento.

Tente escrever num estado de espírito que pareça o menos propício.

Considere a palavra e a letra como formas – isto é, pensando na distorção concreta de um texto; por exemplo, usar muitos o’s ou fazer um arranjo visual agradável com letras finas (lllftiii, etc.) 

Considere (fazer) experiências a partir da memória (sensorial) relacionada à escrita: por exemplo, registre todas as imagens sensoriais que sobraram do café da manhã, estude quais sensações te comoveram, quais escaparam. 

Escreva a partir de uma projeção visual (mental ou mecânica) sem pensar na palavra em seu sentido corrente, sem artifícios. Escreva no cinema, etc.

Faça experiências de escrita por um longo período. Por exemplo, para um projeto específico, faça um planejamento de quantas palavras você vai escrever por dia ou então em que momento específico do dia (à tarde?) ou da semana você vai trabalhar ou se você vai trabalhar apenas nos feriados etc.

Escreva em um pedaço de papel que já tenha alguma coisa impressa ou escrita, por exemplo, em seu livro preferido de poesia ou prosa (sobre o texto impresso, no espaço em branco). 

Tente eliminar toda conotação de um texto e vice-versa. 

Experimente escrever em grupo, trabalho colaborativo: um grupo em que cada um escreva individualmente a partir do texto do outro durante um longo período (8 horas, digamos); um grupo colaborando com o mesmo trabalho, frase a frase, ou linha a linha; uma pessoa tem as “informações” enquanto a outra escreve; escrever e deixar instruções para outro escritor preencher o que você “não consegue” descrever; organizar um livro ou um texto estruturando sua própria linguagem em torno da escrita dos outros; um grupo trabalhando e escrevendo a partir do registro dos sonhos dos outros. 

Sempre use um dicionário, básico ou etimológico (de rimas etc.); consulte, experimente usar obras de referências em que as ocorrências da palavra “palavra” sejam: palavra como notícia, palavra como mensagem, palavra como informação, palavra como história, palavra como ordem ou comando, palavra como vocábulo, unidade do discurso, palavra como instrução, promessa, voto, contrato e daí por diante.

Trabalhe a partir de sonhos: anote os sonhos diariamente, experimente traduzir ou transcrever um pensamento de sonho, tente se aproximar do tempo e das incongruências próprias do sonho, trabalhe com o sonho até que um poema ou uma canção ou uma frase que seja útil surja daí, considere o sonho uma estratégia para resolver um problema (problema artístico ou outro), considere o sonho como uma forma de consciência (estado alterado), usando-o (escreva com ele) como uma forma “alerta” da atividade mental, transforme os personagens do sonho em personagens ficcionais e aceite a “linguagem” do sonho (palavras ditas ou ouvidas no sonho) como um presente. Faça uso delas.

Trabalhe com afinco para mudar a língua e para nunca ficar famoso.


                                
***


a bernadette mayer nasceu em 1945
a bernadette mayer nasceu no brooklin
a bernadette mayer fez parte da escola de nova iorque
e do movimento l=a=n=g=u=a=g=e=p=o=e=t=r=y
este "experiências" foi escrito por ela e pelos participantes 
do projeto da oficina de escrita de poesia da igreja de st. mark. [1971-75] 
e pode ser lido no seguinte link
esta tradução foi publicada na revista Grampo Canoa #2 (abril 2016)
outros poemas de mayer neste blog

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

domingo, 8 de outubro de 2017

Hokusai -- Anne Carson




A raiva é um nó no peito
mas que pode ser desfeito.

Hokusai, aos 83 anos,
disse,
está na hora de fazer os meus leões.

Todas as manhãs
até sua morte

219 dias depois
ele desenhou
um leão.

Rajadas de vento sopravam do noroeste.

Leões balançavam
e saltavam
do alto

dos pinheiros
para as ruas

cobertas de
neve ou se
estatelavam

sobre a cabana dele,
as patas brancas

ferindo as estrelas
ao cair.

Eu sigo desenhando
em busca
de um dia calmo,

dizia Hokusai
enquanto os leões tombavam.




**

do livro "Men in the off hours"
escrevi um pouco sobre este poema aqui.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Filosofia – Jaroslav Seifert

Lembre-se dos sábios filósofos
A vira dura só um instante
Mas quando espero minha namorada
É uma eternidade

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Por que não sou pintor? – Frank O'Hara





Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?” 
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: LARANJA. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema 
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.

tradução de Paulo Henriques Britto

do livro Meu coração está no bolso
cuja capinha abre o post
traduzido por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sra. Darwin – Carol Ann Duffy

7 de abril de 1852
Passeio no zoológico.
Eu disse a Ele –
Alguma coisa naquele Chipanzé ali me lembra você.




*




"sra. darwin" é um poema deste livro "the world's wife" (cuja capinha está aí em cima)
todo feito com poemas na voz das "esposas".
a carol ann duffy é uma poeta escocesa que nasceu em em Glasgow, em 1955.
ela começou a publicar nos anos 70 e tem algumas dezenas de livros

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Três homens – Bernadette Mayer





descansando
Três homens descansam. Eles se mexem.
homens falando
uma garota olhando uma caixa
Tem três homens num barco. Eles trabalham.
um homem viajando
garotas esperando
Homens falando e cantando. Eles estão dormindo
um garoto de nove anos
três homens se mexendo
Uma garota olha uma caixa. Ela se debruça.
homens cantando
uma garota se debruçando
Ela está usando um casaco. Um homem viajando
ganha um prêmio.
um homem ganhando um prêmio
garotas piscando
Tem um homem na casa de luz. Tem outro comprando um relógio.
um garoto de azul
três homens num barco.
Garotas que estão esperando. Garotas  que estão piscando.
homens dormindo
uma garota usando um casaco
Garotas em uniforme andando de skate
um homem na casa de luz
garotas andando de skate
Um garoto de nove, de azul, perto da montanha.
um garoto perto da montanha
três homens trabalhando
três homens descansam. Eles se mexem.
um homem comprando um relógio
Tem três homens num barco. Eles trabalham.


***

a bernadette mayer nasceu em 1945
a bernadette mayer nasceu no brooklin
a bernadette mayer fez parte da escola de nova iorque 
            e do movimento da l=a=n=g=u=a=g=e p=o=e=t=r=y
"três homens" está no livro poetry, de 1976
a imagem que abre o post é da niki de saint phale, artista francesa (1930-2002)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um compatriota punjabi no metrô de Barcelona – Amarjit Chandan





Quando você olhou
pensei aquele senhor está me olhando.

Você está sozinho?
Não veio mais ninguém?

Não posso trabalhar agora:
Não sou tão velho assim – pouco mais de vinte e cinco.

Estou aqui há seis anos.
A metade desse tempo passei em pé, preparando rotis no fogão dos restaurantes.
O dinheiro de Deus.
Muitos garotos enlouqueceram e se suicidaram.
Hipotecamos para o futuro o conforto de hoje.

Bahawalpur e Barcelona se distanciam cada vez mais.
A casa é uma ilha boiando no vasto oceano.

O sol dessa cidade acolhe todo mundo.
Deixe a neblina de Londres e venha morar aqui.

O metrô vai parar na próxima estação.

Descendo ele suspirou e disse:
Que época para suportar a dor.

E desapareceu abrindo caminho pela multidão.


**

amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
amarjit chandan imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (feita pelo próprio amarjit)
publicada na revista "modern poetry in translation" (mptmagazine.com)
– num número especial dedicado aos refugiados, 
"the great flight, refugee focus", 
cuja capinha está no post de ontem –, 
presente lindo que ganhei 
do rob packer (thanks, rob!)

domingo, 31 de julho de 2016

Neste país – Amarjit Chandan



Neste país o estrangeiro começa a perder a memória no dia em que chega.

Ele fica mudo na sua língua.

O ar em volta traduz o silêncio dele para o inglês -- 
Está nevando.
As folhas secas estão caindo.
As ondas do mar baixam.
O rio diminui.
O chá está esfriando.
As fotografias vão desaparecendo.

Ele fica pensando -- não deveria estar neste país.
Ele continua sendo um estranho aqui e
Começa a acreditar nos outros estranhos.

Uma peça quebrou na engrenagem do tempo.
O vinil fica tocando com a agulha presa na mesma faixa.

Neste país o estrangeiro não sabe o que faz.
Fica sempre inconsciente             perdido nos seus pensamentos.
Usa sapatos maojay de Punjabi com terno 3 peças.

Neste país o estrangeiro fica olhando para a foto do seu antigo passaporte
e se assusta ao ver a própria imagem.

Neste país o estrangeiro se surpreende de perceber que o caminho de volta para casa é bem longo
Quando está perdido na sua cidade natal, a lua lhe aponta qual caminho tomar
Ela o acompanha até que amanheça e ele bata à porta de sua própria casa.



**

amarjit chandan nasceu em nairobi, em 1946, e é um poeta de língua punjabi
imigrou para londres em 1980
traduzi esse poema de uma versão em inglês (dele e de julia casterton) 
publicada na revista "modern poetry in translation" 
(número especial dedicado aos refugiados, 
chamado "the great flight, refugee focus", colo a capinha aí embaixo), 
presente lindo que ganhei 
do rob packer (obrigada, rob!)



terça-feira, 31 de maio de 2016

Um presente para Graça – Bernadette Mayer



Eu vi uma linda chaleira E eu queria te dar essa camisa maravilhosa
100% algodão real e quadriculada de azul e preto,
Também tinha uma listrada de vermelho e preto
Depois vi umas botas num lugar chamado Chuckles
Elas chegavam até mais ou menos 5 cm acima do tornozelo
Todas de couro e em vermelho, preto ou roxo
Foi difícil não ter dinheiro hoje
Para não falar das flores e diversas lingeries
Todas em linho e seda com a renda ainda por perfumar
Com bastante brilho para qualquer Graça
E luxo, ornamentos, conforto e charme
Mas só posso presenteá-la com este poema –
que tem, como substância, o mesmo sentido do seu nome

quarta-feira, 2 de março de 2016

Íntimo [fragmentos] -- Pierre Alferi


Cara Sedentária

poucos quilômetros nos separam
porém ouço suas últimas palavras
em uma língua estrangeira
veja quantos dias sem estarmos juntos

será que realmente estivemos daquela outra vez?
algum dia você se convencerá
da minha presença ao seu lado?

deslastrado de minha sombra
os óculos desembaçados
eu olho para o leste


**


Caro Relativo

aterrissagem diferida
nos colocaram no centro
bem no alto de um hotel
do antigo regime (vai
saber quantos casais de
apparatchiks-prostituídos refletiu
o armário com espelho)
retorno ao quarto várias vezes
para digerir a sensação
de cidade em obras
fluida e cheia de arestas
consertar à máquina
pintar sobre um calco
o que falta ao strip-tease
de um campo em ruínas

de cima do décimo-terceiro andar
as transformações são claras
o vidro, obstinadamente líquido
e o céu mudo, como uma cobra

meus compromissos são adiados
o próprio motivo da minha vinda
sai para um passeio

eu tento o que me tenta
com o risco de perder um tempo louco
buscando objetos úteis
dando-lhes uma função
durante um ou dois minutos
sem fazer nada em um banco
entregue ao caos
de figuras, cores
sons

***


Caro Antiquário

para fazer voltar o tempo
você seria um salmão
ou um relojoeiro?
sugiro em vez disso
tocar um disco ao contrário
sonhar em húngaro

os monumentos ficam
muito acima das nossas cabeças
quando os devoramos

se a distância percorrida
fosse contada em séculos
eu desceria na planície
colocaria um belo chapéu
e deixaria crescer o bigode

***


Cara Íntima

enfim, próximos

você receberá esta
breve mensagem a tempo?
eu custo a terminar a clepsidra
e apagar as lembranças

se você ingressasse no paraíso
ele se pareceria a quê?

você tem tanta certeza
de que nos reconheceremos?
eu adio o momento
assobiando night and day

será que não esperamos demais
nos encontrar no mesmo lugar
no mesmo instante?

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Um amigo do tio -- Roberta Iannamico



Um amigo do tio
grandalhão
deitado na areia
um cachorro o acorda
se jogando em cima dele
me interessa principalmente
a parte em que o cara faz carinho
no cachorro
sarnento
cobrindo a mão
com as mangas do pulôver.

sábado, 18 de julho de 2015

Os espiões trácios dormiam perto dos barcos – Emmanuel Hocquard



Ao pé das Grutas de Hércules, no litoral atlântico, o arqueólogo Montalban trazia à luz os vestígios de um balcão romano, estabelecimento comercial do século I, que os vândalos em sua época haviam saqueado: as pinturas murais haviam sido completamente arrancadas e seus restos abandonados no chão e, pouco a pouco, recobertos pela areia. Quanto às paredes do local, elas tinham abastecido a demanda por pedra de gerações de autóctones: recentemente, o senhor Doolittle tinha encontrado material para usar na muralha ao redor da cidade.

Ao longo de semanas, todos os dias ele trazia seu lote de fragmentos coloridos de antigos afrescos que, uma vez lavados e dispostos sobre grandes mesas, se revelavam inaptos às mais pacientes tentativas de reconstituição, mesmo que parciais, do mais mínimo pedaço do mural.

Por outro lado, esta irredutibilidade do fragmento a reintegrar o conjunto original dava início, pelo viés das lacunas, ao desaparecimento do suporte e à perda definitiva do modelo, e consequentemente à hipótese de uma nova redistribuição do mundo, nascida do acaso a partir desses cacos cujas cores conservavam uma frescura impressionante graças aos quinze séculos de areia, no pressentimento de um tremor rítmico no qual o entre começaria a tragar, para dentro da cidade morta, sua parte viva, indo até o mar mais próximo, a estação já bem avançada com os riscos das grandes marés por causa do equinócio...

Liberados da origem e deixados à sua própria evidência, era preciso enviar esses fragmentos de volta à areia, pois toda mudança que faz sair um corpo dos limites de sua natureza / conduz instantaneamente à morte daquele que existia antes (Lucrecio).


Foi no verão de cinquenta e três.

_____________________________


publicado em 1975 como plaquete pela orange export ltd.
"os espiões trácios..." reaparece nesse livro aí em cima chamado 
álbum de imagens da villa harris (pol, 1978)
e depois é recopiado no posfácio de teoria das mesas (pol, 1996)
a figura de moltalban está em vários momentos da obra de hocquard
e ele usa a anedota como dispositivo de trabalho, de escrita, de tradução:
como esses cacos que montalban não consegue remontar à origem,
a escrita deve ser nova distribuição do mundo, de acordo com a pista de um dado momento.
mais traduções de emmanuel hocquard aqui.