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quarta-feira, 2 de março de 2016

Íntimo [fragmentos] -- Pierre Alferi


Cara Sedentária

poucos quilômetros nos separam
porém ouço suas últimas palavras
em uma língua estrangeira
veja quantos dias sem estarmos juntos

será que realmente estivemos daquela outra vez?
algum dia você se convencerá
da minha presença ao seu lado?

deslastrado de minha sombra
os óculos desembaçados
eu olho para o leste


**


Caro Relativo

aterrissagem diferida
nos colocaram no centro
bem no alto de um hotel
do antigo regime (vai
saber quantos casais de
apparatchiks-prostituídos refletiu
o armário com espelho)
retorno ao quarto várias vezes
para digerir a sensação
de cidade em obras
fluida e cheia de arestas
consertar à máquina
pintar sobre um calco
o que falta ao strip-tease
de um campo em ruínas

de cima do décimo-terceiro andar
as transformações são claras
o vidro, obstinadamente líquido
e o céu mudo, como uma cobra

meus compromissos são adiados
o próprio motivo da minha vinda
sai para um passeio

eu tento o que me tenta
com o risco de perder um tempo louco
buscando objetos úteis
dando-lhes uma função
durante um ou dois minutos
sem fazer nada em um banco
entregue ao caos
de figuras, cores
sons

***


Caro Antiquário

para fazer voltar o tempo
você seria um salmão
ou um relojoeiro?
sugiro em vez disso
tocar um disco ao contrário
sonhar em húngaro

os monumentos ficam
muito acima das nossas cabeças
quando os devoramos

se a distância percorrida
fosse contada em séculos
eu desceria na planície
colocaria um belo chapéu
e deixaria crescer o bigode

***


Cara Íntima

enfim, próximos

você receberá esta
breve mensagem a tempo?
eu custo a terminar a clepsidra
e apagar as lembranças

se você ingressasse no paraíso
ele se pareceria a quê?

você tem tanta certeza
de que nos reconheceremos?
eu adio o momento
assobiando night and day

será que não esperamos demais
nos encontrar no mesmo lugar
no mesmo instante?

sexta-feira, 22 de maio de 2015

[Perdido. Há uma piscina...] – Pierre Alferi






Perdido. Há uma piscina em algum canto
e num outro um boliche enterrado.
Labirinto é um lugar do qual conhecemos os ângulos,
como se os tivéssemos traçado em outro momento, mas
não identificamos exatamente o ponto em que estamos.
Atrás do Panthéon para o leste, chegando dessa vez
nas ruas Monsieur-le-Prince e Soufflot: é ali,
Q-17 no Indispensável. A máxima mais alegre
seria "você não vai embora até ver tudo".
Acho que sei o nome de cada ruela entre
a rua Mouffetard e a rua Geoffroy-Saint-Hilaire
 grande coisa! Subimos e descemos o tempo todo,
dizemos: pronto, era aqui então. Para penetrar num labirinto,
em sua ideia, é preciso além de tudo excluir a eventual possibilidade
de andar em círculos. Assim, o vendedor de madeira e carvão,
a rua do Puits-de-l'Ermite e, consequentemente, a própria rua
sempre me pareceram ou muito altas ou muito baixas.
Li um artigo sobre as abelhas e os robôs descentrados,
a viagem tranquila de um indivíduo, de uma informação
através de uma colmeia, um cérebro, um país que não tem
mapa. Gosto acima de tudo dos rituais, da miopia,
do que vem por eliminação ou no passo a passo,
o olhar no nível do chão. A rua Mouffetard é uma régua graduada
para toda a região, mas uma regra cujos valores
 uma livraria, o Roi Café, o mercado se invertem logo que eu viro as costas.
O destino, para uma caminhada metódica,
é menos um ponto, aquele digamos onde acaba a rua de la Clef,
do que o preenchimento de casas vazias. Pode-se assim considerar
cada segmento como um parêntese. Ao modo dos turistas
que fazem Creta, eu faço esse lugar. Para completar minha desorientação,

não vi ninguém que tenha me visto, caçador nem explorador.
Na rue Épée-de-Bois, um caminhão transporta as cartas.





















poema originalmente publicado no livro Chemin familiar du poisson combatif (1992)
mas lido nessa antologia para flâneurs
com poemas que falam sobre andar (e se perder) pelas ruas de Paris

o pierre alferi é um poeta e artista francês
o pierre alferi é professor na école de beaux arts
ele escreveu vários livros fez alguns cine-poemas e tem esse blog com seu trabalho
aqui um dos cine-poemas

tive uma dúvida ao traduzir esse poema: o que é Q-17 no Indispensável?
Q-17 pode ser um certificado anti-incêndio
Q-17 pode ser um sistema de câmeras
Q-17 pode ser muitas outras coisas
ainda não consegui decifrar
o que é
nem o Indispensável
que ele fique sendo aqui mais uma medida para me deixar perdida no mapa
por fim poderia ser um ponto no jogo de batalha naval...

ah
e a imagem do henri cartier-bresson
de 1954
é na rue mouffetard
e se chama
en fait
rue mouffetard
embora o menino não tenha a menor pinta de perdido...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tia Elizabeth – Pierre Alferi


Tante elizabeth, (pierre alferi)

Tia Élizabeth

Atrás da casa da nossa Tia Elizabeth há o mais lindo pomar dos pomares
e no pomar a mais linda cerejeira das cerejeiras
e na cerejeira os mais lindos galhos dos galhos
e sobre os galhos as mais lindas folhas das folhas
e sobre as folhas o mais lindo ninho dos ninhos
e no ninho os mais lindos ovos dos ovos
e sobre os ovos o mais lindo pássaro dos pássaros
e sobre o pássaro as mais lindas penas das penas
e sobre as penas as mais lindas cores das cores
Sobre as cores há o mais lindo céu dos céus
e no céu a mais linda nuvem das nuvens
e na nuvem a mais linda chuva das chuvas
e sobre a chuva o mais lindo sol dos sóis
e ali como não há mais nada meia-volta volver


Esse vídeo, esse poema, esse cinema, esse cine-poema de Pierre Alferi. 
O áudio é tirado, segundo ele, de uma canção folclórica francesa. O texto que aparece ali não bate com o áudio. O texto que traduzo aqui é o que aparece como legenda no vídeo, porém na tradução ele acabou se constituindo com um desenho de poema, uma mancha de poema, enquanto que no vídeo, ele está emaranhado com o vocovisual in motion (portanto, a tradução deve funcionar entre chaves... outra opção de tradução seria preparar um outro vídeo, jogando com os mesmos elementos e meios do seu trabalho).
Pierre Alferi nasceu em Paris, em 1963, e é autor de romances, livros de poemas e de poética, como é o caso do seu lindo Chercher une phrase. Também tradutor, Alferi desenvolve um interessante trabalho com vídeos, buscando essa compaginação de texto e imagem, como aparece nesse "Tante Elizabeth".