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quarta-feira, 14 de junho de 2017

Por que não sou pintor? – Frank O'Hara





Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?” 
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: LARANJA. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema 
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.

tradução de Paulo Henriques Britto

do livro Meu coração está no bolso
cuja capinha abre o post
traduzido por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto

terça-feira, 4 de outubro de 2011

História verídica de uma conversa com o sol em Fire Island – Frank O'Hara


O sol me acordou esta manhã em alto
e bom som dizendo: “Ei, estou aqui
há quinze minutos tentando
acordá-lo. Não seja mal-educado, você
é o segundo poeta com quem eu falo
em toda a minha vida
                                        por que
você não me dá atenção? Se eu pudesse
queimá-lo pela janela para te
acordar eu o faria. Não posso ficar aqui
plantado o dia todo.” 
                               “Desculpa, Sol, ontem fiquei 
acordado até tarde conversando com o Hal.”

“Quando acordei o Maiakóvsky ele me
atendeu na hora” disse o Sol
irritado. “A maioria das pessoas já está de pé
esperando para ver se eu vou dar
uma passada.”
                                 Tentei me
desculpar: “Eu te esperei ontem”
“Melhor assim” ele disse. “Não sabia
que você ia aparecer” “Você deve estar se
perguntando porque eu estou aqui tão perto?"
“Sim” eu disse começando a sentir calor
e me perguntando se ele já não estava me 
queimando.
                            “Para falar a verdade, queria dizer
que gosto da sua poesia. Já vi muita coisa
nas voltas que dou por aí e o que você faz me agrada. Você pode
não ser a melhor coisa sobre a terra, mas
você é diferente. Acontece que ouvi algumas pessoas
dizerem que você é louco, mas na minha opinião 
eles são muito paradões; outros poetas
loucos acham que você é um reacionário
chato. Eu não.
                      Siga em frente como
eu faço e não dê ouvidos aos outros. Você
verá que as pessoas vão sempre reclamar
do tempo, ou está quente demais ou frio demais
ou claro demais ou escuro demais, os dias estão
curtos demais ou longos demais.
                                               Se eu não aparecer
um dia eles vão achar que estou com preguiça
ou que morri. Apenas siga em frente, este é o meu conselho.

E não se preocupe se seu estilo é
poético ou simples. O sol brilha na
floresta, você sabe, na tundra no mar,
no gueto. Não importava onde: 
eu sabia de você e observava seu ir e vir. Estava
só esperando você começar a escrever.
                  
                            E agora que você resolveu,
digamos, fazer sua própria vida,
mesmo que ninguém o leia, a não ser eu,
você não vai se deprimir. Nem todos podem
olhar para cima, mesmo que eu seja o sol. Isso machuca
os olhos das pessoas.”
                            “Ah, Sol, sou tão grato a você!”

“Obrigado e lembre-se de que estou te vendo. É
mais fácil para mim falar com você daqui de
fora. Não tenho que deslizar por entre
os prédios para você me ouvir.
Eu sei que você adora Manhattan, mas
deve olhar para cima com mais frequência.
                                                        E
sempre abrace as coisas, pessoas, terra
céu estrelas, como eu faço, livremente e com
o sentido apropriado de espaço. É essa
sua inclinação, está nas estrelas,
e você devia segui-la até o inferno, se
preciso for, o que acho que não ocorrerá.
                                      Talvez nos falemos
de novo na África, lugar que me fascina 
especialmente. Volte a dormir agora,
Frank, e deixarei um poeminha
na sua cabeça como despedida.”

“Sol, não vá agora!” Eu estava finalmente
acordado. “Eu preciso ir, eles estão me
chamando”
              “Quem são eles?”
                                     Subindo ele disse “Um
dia você saberá. Eles também estão te
chamando.” Sombrio ele subiu, e então eu dormi.



Frank O'Hara [1926-1966] nasceu em Baltimore e, a partir dos anos 50, foi viver em Nova Iorque, tendo integrado a Escola de Nova Iorque. Nesse contato acima, O'Hara está na companhia da pintora Grace Hartingan. Frank O'Hara morreu tragicamente depois de ter sido atropelado em uma praia em Fire Island. Publicou diversos livros, dentre os quais está o lindo Lunch poems, editado em 1964 por Lawrence Ferlinghetti na coleção da City Lights: 



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Uma coca-cola com você – Frank O'Hara




é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irun,Hendaye, Biarritz, Bayonne
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em Barcelona
em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor e mais feliz
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte
em parte por causa das tulipas laranja fluorescente contra a casca branca das árvores
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária
é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore respirando pelos olhos de seus nós

e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta
de repente você se surpreende que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los

olho
pra você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo
exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está no Frick
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso ir junto com você a primeira vez
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo
assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem
quanto o cavalo                 

acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa
que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando

Tradução de Luiza Franco Moreira 
(Publicada em Inimigo Rumor 9)