sexta-feira, 26 de abril de 2013

Retrato – Sueli Costa



eu não tinha 
esse rosto de hoje
assim calmo assim 
magro assim triste
nem esses olhos tão 
vazios nem o lábio amargo
eu não tinha 
essas mãos tão sem força
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha esse coração que 
não se mostra
e eu não dei por essa mudança
tão simples tão
certa tão fácil 
em que espelho ficou perdida a minha face


















"Retrato" abre esse primeiro LP de Sueli Costa, de  1975 (feito com arranjos de Wagner Tiso e Paulo Moura). "Retrato" é um poema de Cecília Meireles, musicado pela Sueli Costa.

sábado, 9 de março de 2013

Molly – Roberto Bolaño


Uma garota com libras irlandesas
e uma mochila verde.
143 pesetas por uma libra irlandesa,
bastante coisa né?
Nada mal.
E duas cervejas em uma varanda
de Barcelona.
E gaivotas.
Nada mal.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Canção – Horácio Costa



canção que não quer dizer nada
que não diz nada
canção que não diz da terra longínqua
da escotilha            da queimada
canção que não me diz do seu coração
longínquo
do seu coração queimado
canção que nada diz
e que dançávamos colados
e que não fala de si
de ondas     passos entrelaçados
desse amor morto
desse amor que falará dela
para falar de si
canção que nada
diz      



Horácio Costa nasceu em São Paulo em 1954. Publicou, em 2009, este lindo Ravenalas pelo selo Demônio Negro. No meio dos percursos deste livro, entre a paulista e o Ezeiza, cruzando com John Ashbery de olhos nadando em gim, deparei com esta chanson, diálogo com "India song" da Marguerite Duras, e fiquei com saudades de ouvir a Jeanne Moureau cantando... 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que faz um poema ser um poema? – Charles Bernstein


[Minha leitura se chama 
O que faz um poema ser um poema? 
e vou ligar o cronômetro]

Não é a rima das palavras no fim da linha
Não é a forma
Não é a estrutura
Não é a solidão
Não é o espaço
Não é o céu
Não é o amor
Não é a luminosidade
Não é o sentimento
Não é a metrificação
Não é a época
Não é a intencionalidade
Não é o desejo
Não é a temperatura
Não é a esperança
Não é o assunto escolhido
Não é a morte
Não é o nascimento
Não é a paisagem
Não é a relação de palavras
Não é o que há entre as palavras
Não é o cronômetro
Não é o... 
É o tempo




Charles Bernstein nasceu em Nova Iorque, em 1950. Charles Bernstein participou da L=A=N=G=U=A=G=E, publicada entre 1978 e 1981 (e que pode ser lida aqui
No Brasil saiu o livro Histórias da guerra, pela Martins Fontes, com textos e poemas seus, e o poema Um teste de poesia teve uma tradução de Haroldo de Campos. 

A leitura-poema acima caminha e se encaminha para a palavra timing, que bem podia ser traduzida por... timing...? Opção que seria "traduzir" e "não-traduzir" ao mesmo tempo, ou que poderia se constituir como uma possível resposta à pergunta feita por ele, o que faz um poema  ser um poema?... Pensando na tradução como um processo em aberto, deixei por enquanto o tempo ali, palavra que abarca muitas outras possibilidades e campos semânticos e que não corresponde ao timing, nem ao timing bersnsteiniano, mas pode gerar outras perguntas, pode gerar outros diálogos, pode gerar outros tempos... Agradeço ao comentário da Bia (Beatriz Bastos), que pensando na leitura que faz o Bernstein ali sugere outras possíveis traduções, como por exemplo repetição, ótima solução, sobretudo pela estrutura parafrásica do poema.   

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Te oferecerei um abismo... – Roberto Bolaño


Te oferecerei um abismo, disse ela
mas de forma tão sutil que você só perceberá
quando já tiver passado muito tempo
e você estiver longe do México e de mim.
Quando mais precisar você vai descobrir,
e esse não será o final feliz,
mas só um instante de vazio e felicidade
E talvez então você se lembre de mim,
ainda que não muito.


*

[a tradução deste foi feita

a 4 mãos, 1 suco de uva roxa
e 1 café capital num caderninho 
desenhado. foi feita sem abimos]

domingo, 19 de agosto de 2012

Um guarda-chuva de Piccadily – Jaroslav Seifert


Se você não sabe o que fazer em relação ao amor
tente se apaixonar outra vez –
por exemplo, pela Rainha da Inglaterra.
Por que não!?
O rosto dela aparece em todos os selos postais
daquele antigo reino.
Mas se você a convidasse
para um encontro no Hyde Park
com certeza
esperaria em vão.

Se tivesse um mínimo de senso
diria a si mesmo sabiamente:
Por quê?, é claro, entendi:
está chovendo no Hyde Park hoje.

Quando esteve na Inglaterra
meu filho me trouxe de Piccadilly em Londres
um elegante guarda-chuva.
Sempre que preciso
tenho agora sobre a minha cabeça
meu próprio céu em miniatura
que pode até ser preto
mas em seus raios de arame tensionados
a misericórdia de Deus escorre como
uma corrente elétrica.

Abro meu guarda-chuva mesmo quando não chove
como um dossel 
sobre o volume dos sonetos de Shakespeare
que levo no bolso.

Mas em alguns momentos até 
o cintilante buquê do universo me assusta.
Ultrapassando a beleza
ele nos ameaça com tamanha infinitude
que parece mais
o sono da morte.
Ele também nos ameaça com o vazio e quando congela
suas milhares de estrelas
que à noite nos iludem
com seu brilho.

Aquela a que chamamos Vênus
é a mais aterrorizante.
Ela possui pedras que ainda estão fervendo
e como gigantescas ondas
as montanhas vão surgindo
e queimando as cascatas de súlfur.

Sempre perguntamos onde será que fica o inferno.
Ele está ali!

Mas para que serve um frágil guarda-chuva
diante do universo?
Além do quê, eu nem mesmo o levo comigo.
Tenho bastante trabalho
para ficar
me arrastando pelo chão
como uma mariposa noturna durante o dia
em uma áspera casca de árvore.

Toda minha vida procurei o paraíso
que outrora existiu aqui,
cujos rastros eu havia encontrado
somente nos lábios das mulheres
e nas curvas produzidas pela sua pele 
com o calor do amor.

Toda minha vida desejei
a liberdade.
Enfim, descobri o caminho
que até ela conduz.
É a morte.

Agora que estou velho
verei o rosto de alguma charmosa mulher
uma vez ou outra flutuando entre meus cílios
e seu sorriso transformará meu sangue.

Timidamente me viro 
e lembro da Rainha da Inglaterra,
cujo rosto está em todos os selos postais
daquele antigo reino.
God save the Queen!

Sim, eu sei muito bem:
está chovendo no Hyde Park hoje.




Jaroslav Seifert nasceu em Praga, em 1901. Depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo, em 1984, Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. Nesse poema, Jaroslav não está no Hyde Park, mas se ele me convidasse para um encontro ali, não me esperaria em vão (even raining). Nesse poema, está chovendo no Hyde Park, e eu estou do outro lado do hemisfério sentada sob o sol, lendo o lindo volume que reúne sua poesia em inglês, The poetry of Jaroslav Seifert, de onde traduzi "Um guarda-chuva de Piccadily". (há também 2 poemas de Jaroslav em português aqui na Modo de usar & co.)