quarta-feira, 18 de março de 2015

Um teste de resistores, ou o poema contínuo -- Juliana Brina



“se penso na poesia
quais os
recursos ao lado do corte
poderiam contribuir para
tornar o poema
um poema?”
Marília Garcia, 
um teste de resistores

No mais recente livro de Marília Garcia, cada poema se constrói a partir de um teste de resistência: a tentativa simultânea de desenhar um mapa; de atravessar o mapa enquanto esse de desenha; e de, por fim, oferecer resistência constante a essa travessia. Cada poema incorpora tanto o processo de sua composição, como a reflexão sobre esse processo. O desafio, que a poeta cumpre muito bem, é criar um dispositivo que transforma reflexão em faísca, objeto poético dotado de calor, por meio de um circuito de 11 poemas que se completam uns nos outros, em um movimento “que vai se definindo/ durante o trajeto”.

A poeta escolhe começar com uma pergunta que também vai se definindo durante o percurso. A poesia é uma forma de resistência? Essa escolha, tal como o ponto de referência da filmagem de uma cena, redimensiona “o espaço/ e nossa forma de entendê-lo”. O poema-pergunta que dá título ao livro, A poesia é uma forma de resistores?, oferece-nos uma chave de leitura para essa poética feita de resistências.

Esse pensar a poesia dentro da poesia submete o texto a um teste de cortes e repetições que remete, em primeiro plano, à ideia de um percurso intermitente. No cerne dos poemas, temos o deslocamento de espaços e de significados: recortes de viagens e trajetos compõem o cenário sobre o qual se desenrolam os deslocamentos de sentido, entremeados a uma concepção de tradução como suporte desse deslocamento: tradução como passagem de uma língua a outra (“uma forma de pensar nas possibilidades da língua/ a partir de outra língua”); como passagem do significante ao significado; e como leitura, ato pelo qual o poema passa de mão em mão, do autor ao leitor (“uma forma de pensar em si/ a partir do outro”). Repensar, furar, “ler as coisas de outra maneira”, chegar ao outro lado: “entrar no espaço interior equivale a sair?”

O passo é a unidade rítmica dessa poética (“Seu poema tem 15 passos”), nesse percurso que se faz sobre um mapa dobrado sobre si mesmo. O ponto de partida (nosso poema-pergunta) determina as formas de partir, mas também é por elas alterado; nosso ponto de partida é uma partida jogada com o leitor. O grito com o qual se encerra o poema final (“surdo estrondo a poeira e a última coisa aquele grito/ NÃO”) é a negativa que liberta, que nega até mesmo uma resposta negativa à pergunta proposta pelo mencionado poema: a poesia resiste à sua definição. No primeiro poema, Blind Light, já se lê: “não consegui responder/ porque exigiam que definisse questões no texto/ onde eu queria manter a dúvida”.

Em segundo plano, os cortes e repetições remetem ao universo cinematográfico com o qual a obra estabelece seus diálogos. No poema ordem alfabética, que compõe o livro um teste de resistores, Marília relata como começou a escrever o poema a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente, no qual reorganizou os versos do livro A teus pés, de Ana Cristina César, por ordem alfabética. Marília produziu um vídeo a partir desse poema, por meio do corte e montagem de trechos do filme Je, Tu, Il, Elle (Chantal Akerman, 1976). Vídeo, filme, poema original e poema reconstruído entrelaçam-se.

A cena do filme Pierrot le Fou (Jean-Luc Godard, 1965), reproduzida na capa da edição portuguesa, é um dos fios com os quais Marília tece seu circuito: o recorte do filme, introduzido no poema Blind Light, encena a abertura (“o furo”) que a autora produz na obra (“você entra/ e percebe que saiu do outro/ lado”).

Na cena citada, os amantes Ferdinand e Marianne fogem em um carro conversível vermelho. A câmera os filma a partir do banco de trás do carro, o que significa que o ponto de vista do espectador é de quem está de fora. Em um determinado momento, Ferdinand vira-se para trás, para a câmera, e se dirige ao espectador: “Estão vendo? Ela só pensa em se divertir.”

No livro de Marília, autora e leitor também olham para a câmera: a poeta o faz, ao refletir sobre a poesia; o leitor, por sua vez, encara a câmera ao ser chamado para dentro dos poemas. Tal como o “espectador/ fura o filme”, o leitor também fura o poema, “e insere nele uma espécie de/ corte”; o leitor, essa descontinuidade necessária entre o autor e o texto, é lançado no circuito descontínuo de sentidos que se deslocam nos poemas: “o que sinto ao pensar em você/ ela disse/ é um furo”; “entrar no espaço interior equivale a sair?”.

Marília remete-se explicitamente, no poema Blind Light, acima citado, à proposta formulada por Giorgio Agamben², a partir da análise do cinema de Guy Debord, segundo a qual a repetição e a paragem (o que a autora chama de ‘corte’) seriam as duas condições da montagem, no cinema contemporâneo. Repetição não tem aqui o sentido de ‘retorno ao idêntico’, mas de ‘retorno em possibilidade daquilo que foi': repetir algo é torná-lo novamente possível; ou, como retruca a autora, citando Gertrude Stein, repetir é insistir: “não existe repetição/ mas insistência”.

A ‘paragem’, por sua vez, é entendida como o ‘poder de causar interrupções': a ‘hesitação prolongada entre a imagem e o sentido’, criada pelo jogo entre corte, enquadramento e montagem, é o elemento que revela a proximidade entre cinema e poesia.

A alternância entre aceleração e desaceleração rítmica, nesse teste de resistores criado por Marília, faz da duração a matéria de seus poemas. A faísca não está nem no começo, nem no final: está no meio, no caminhar, no por enquanto, no durante, no trajeto como poema contínuo.  A ideia de duração remete-se tanto ao uso, pela poeta, de imagens que se fixam, por um instante, no poema; como ao uso dessa técnica no filme  La Jetée (Chris Marker, 1962), montado a partir de imagens fixas, organizadas em sequência, e mencionado no poema Blind Light: “uma linha aos olhos é uma sequência/ de pontos”

A sobreposição de vozes também é um recurso de que se vale Marília, “produzindo furos na própria escrita/ por onde podemos ouvir”: Wislawa Szymborska, Adília Lopes, Ana Cristina César, Emmanuel Hocquard, Zuca Sardan, Guillermo Cabrera Infante, Leslie Kaplan, entre outros. Poemas e temas reunidos em outros livros de Marília reaparecem aqui, desmontados, deslocados: uma paisagem revisitada com estranheza.

As ‘paragens’ e cortes são operados, no livro, por meio da mistura de gêneros e registros de escrita, pelo recorte de trajetos descritos como em um diário, pelos saltos no tempo, pela fragmentação temática e, principalmente, pela alternância entre discurso poético e reflexão metapoética, em camadas sobrepostas, como mapas: “escrevo a viagem/ e ela acontece”. O processo até o poema torna-se também poema; no instante do “pulo/ para fora”, nesse “ponto em que ocorre/ um encontro“, o mapa torna-se o país.

Notas:
1. Referência ao título do livro Ou o Poema Contínuo, de Herberto Helder (Assírio & Alvim, 2004);

2. Agamben, Giorgio. “Difference and repetition: On Guy Debord’s Films”. IN: McDonough, Tom (ed.) Guy Debord and the Situationist International: Texts and Documents. MIT Press, 2004.


[03 de março de 2015, publicado no site O pintassilgo: http://opintassilgo.org/2015/03/18/poetas-achados-perdidos-marilia-garcia-um-teste-de-resistores/] 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Resenha de "Um teste de resistores" – Pedro Mexia

















Em 2008, Marília Garcia (n. Rio de Janeiro, 1979) coeditou, com Valeska de Aguirre, “A poesia andando: treze poetas no Brasil” (Cotovia). Alguns dos autores antologiados nesse volume foram tendo edição portuguesa a título individual, casos de Carlito Azevedo, Fabiano Calixto ou Aguirre. E agora saiu também “Um teste de resistores”, a quarta coletânea de Garcia, publicada no Brasil em 2014. Uma extraordinária sequencia de abertura, que acompanha um debate acadêmico sobre poesia, propõe o próprio poema que vamos lendo como uma espécie de comunicação a um congresso, bem como um comentário aos outros intervenientes. Em paralelo, M. G. Reproduz a correspondência mantida com a sua tradutora americana, e as dúvidas infindáveis sobre homofonias, pronomes ou formas verbais. Esses dois itinerários produzem um discurso erudito mas coloquial, sustentado numa impecável habilidade rítmica. E todos os poemas do livro procuram uma nova percepção das coisas, suscitando ligações ao cinema, nomeadamente a Godard, e aos poetas vanguardistas como Hocquard, Roubaud, Reznikoff, Bernstein, Girondo e Leminski, sem esquecer Adília Lopes. O mashup e outras técnicas digitais servem de estímulo adicional: “enumero as ferramentas que tenho à minha frente / enunciados filmes narrativas google / poemas recortados copiados à mão / traduções jornais um romance lembranças diversas / alguma chateação frases / que serão transportadas / um fone de ouvido (...)”. Longe do habitual cepticismo linguístico, “Um teste de resistores” manifesta um entusiasmo perante as possibilidades da linguagem poética, favorecendo processos como o corte, a montagem, a intertextualidade ou a hiperligação. Até a tendência narrativa é divagante e peripatética: deambulações sul-americanas e europeias, anedotas metamorfoseadas em teorias, circunstancias banais que se tornam performances. Marília Garcia define o poema como uma “descrição e compreensão do mundo”, um “documento poético”, testemunhal e imaginativo, subjectivíssimo e omnívoro. Um poema capaz de fazer faísca, como a resistência de um chuveiro que transforma a corrente de electrões em calor. Porque a poesia é resistência: uma resistência verbal, sem bravatas ou demagogias, mais verdadeira porque mais poética: “e eu descobri que o que esquenta a água / é a resistência.”

[07 de fevereiro de 2015, na Revista E]

domingo, 7 de dezembro de 2014

Paris não tem centro [2015]


Paris não tem centro 
[passagem de Érica Zingano].
[Rio de Janeiro: Megamíni, 2015.]

1 poema nesta coleção em pequeno formato,
escrito em francês e traduzido ao português pela érica zíngano.


Paris não tem centro [2a edição]
[Rio de Janeiro: 7letras, 2016.]
Versão ampliada.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Um teste de resistores [2014]


Um teste de resistores 
[Rio de Janeiro: 7letras, 2014] 

Sumário do livro: 
Blind light [leia um excerto]
Ordem alfabética [vídeo]
Você chorou em Bruxelas?
No aeroporto Schönefeld de Berlim
Na 19a edição da meia maratona de Lisboa
Ztaratztaratsztaratztaratztaratztaratztaratz
Uma mulher que se afoga
Uma partida com Hilary Kaplan
O que é um começo?
Sobre o Atlântico
A poesia é uma forma de resistores?





* resenha, por Ricardo Domeneck, em sua coluna no site do jornal DW
* resenha, por Matheus Mavericco, no site Escamandro.
* resenha, por Pedro Mexia, na revista E.
* resenha, por Juliana Brina, aqui.
* resenha, por Rob Packer (in english, a review on book), aqui.
* resenha, por Maurício Chamarelli Gutierrez, 
       publicada no Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, aqui
* artigo sobre o livro, por Danielle Magalhães, na Revista Escrita (PUC-RIO), n. 23.



Um teste de resistores, 2a edição [Rio de Janeiro: 7letras, 2016]


Um teste de resistores [Lisboa: Mariposa Azual, 2015]


trailer 1:

 

domingo, 30 de novembro de 2014

20 poemas para o seu walkman [2007]



20 poemas para o seu walkman
[São Paulo/ Rio de Janeiro: Cosac Naify, 7letras, 2007]
Leia um poema aqui: Svetlana



2a edição: 20 poemas para o seu walkman
[Rio de Janeiro: 7letras, 2016]


já me perguntaram algumas vezes sobre a capa da nova edição do "20 poemas para o seu walkman". como não entrou nenhum crédito no miolo, conto 2 histórias sobre ela.
as ondas que desenhei ali representam os sons do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko gravados pela sonda rosetta, em 2014. a partir dos gráficos de som que peguei na internet, fiz algumas experiências e desenhos para chegar nessa ilustração. (colo abaixo:)
na época de fechar a capa do livro, fui para um festival na romênia e, por engano, acabei imprimindo um dos poemas que leria no festival em cima do gráfico de som do cometa. só me dei conta do engano na hora da leitura e precisei ler o poema assim mesmo, sobreposto ao gráfico. antes da leitura expliquei em inglês que era um "poema de amor" e, como não entendiam nada do que eu lia em português e viram o desenho que me servia de "partitura", acabaram dizendo depois que meu texto estava escrito não em português, mas na linguagem dos eletrocardiogramas, e que na verdade eu estava lendo as batidas do coração...




20 poemas para tu walkman
[Bahía blanca: Vox edicciones, 2012.]
Trad. de Diana Klinger, Mário Camara e Paloma Vidal.
leia alguns poemas traduzidos na revista Grumo

* resenha da edição argentina, por Franco Castignani, no site Otra parte.


Engano geográfico [2012]

Engano geográfico 
[Rio de Janeiro: 7letras, 2012.]

* artigo de Victor Heringer, no site Fórum de literatura brasileira contemporânea.

* artigo de Pablo Simpson, na revista Contexto.

* leitura de Rob Packer, no wordpress do autor, Nomadic permanence.

* artigo de Flora Süssekind em que analisa alguns livros, 
dentre os quais o engano geográfico. O Globo.


***


Error geográfico [entre resistores]
Barcelona: Kriller71, 2015.
Trad. de Aníbal Cristobo
Edição que inclui o poema engano geográfico + poemas dos livros 
um teste de resistores e 20 poemas para o seu walkman



* resenha do livro, por Cristina Elena Pardo, no site Pictograma.

* resenha do livro, por Patricio Grinberg, no site La tribu de Frida.

Svetlana – Marília Garcia

na véspera de sua partida para 
ny, emmanuel hocquard datilografa
um poema de george oppen
em sua máquina de escrever
underwood n. 3. é como svetlana querendo voltar
para barcelona aqui não fico
mais nem um dia dizia no café
com nome grego que
lhe fazia falta ver as coisas
invisíveis daquela cidade e seu marido
na contramão carregando
no braço o menino sem língua,
tentando alcançar o que
aparecia do outro lado do mar
se alguém ainda viria
para ajudá-los
                         nesta época
do ano a tormenta não costuma
demorar (o poema era em inglês)
e tinham medo de se perder, 
ela dizia, por isso a distância,
ritmo de degrau seguindo
cortado, por isso
                           o modo de andar e
o ziguezague do avião sempre que saíam juntos. 
tinham medo e todos os dias fazia
algo para evitar. depois queria 
encontrá-lo na rua,
perdido, como um acidente:
cruza uma esquina e vê. desligou
a chamada na hora
precisa, a voz cortada outra
vez antes de seguir
pelas ramblas.

[poema do livro 20 poemas para o seu walkman. são paulo: cosac naify, 2007.]