quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Escrevi uma carta para mim mesmo — James Tate

       Sentei em minha mesa e escrevi uma carta para mim mesmo. Em
seguida joguei fora. Escrevi uma carta para o meu avô e também
rasguei esta outra. Escrevi uma carta para a minha mãe, mas
esta eu guardei. Fiquei exausto. Três cartas de uma só
vez. Tomei uma dose de aguardente. Olhei pela janela.
Estava nevando. Uma mãe e um pai davam uma corrida
empurrando um carrinho de bebê. No alto um falcão voava 
em círculos. Meu avô já tinha morrido e minha mãe também.
Mas isso não queria dizer que não conversássemos. Ao menos
eu dividia com eles o que andava pela minha cabeça. É claro que
eles não respondiam, mas tudo bem. Minha mãe tinha sido 
enfermeira e, é claro, isso ajudava. Meu avô trabalhava como
lenhador e isso não ajudava, mas não importa. Ele era um homem
bom. Nas horas vagas, fazia modelos de avião. Fui para
a sala e sentei no sofá. Meu pai fugiu de casa quando
eu tinha três anos. Minha mãe nunca me contou o motivo.
Nunca mais soubemos dele. Mas não fico pensando
nessas coisas. Lá fora estava um dia bonito. Três ratinhos
atravessaram o gramado bem ligeiros. Um deles tinha a pata
enfaixada.