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terça-feira, 19 de maio de 2015

As duas irmãs Cholmondeley da Tate Gallery – Adília Lopes











[The Cholmondeley ladies, 1600, escola britânica, 17th]

Biodegradáveis como a arte

Macabras como fotocópias
de Maria e do bebé



Limão do Entroncamento
dupla esfinge
para os turistas

Quatro trompas de Falópio contentes
que nem ratos

(Eram gémeas
e deram à luz
no mesmo dia
do século XVII)

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Não gosto tanto de livros -- Adília Lopes


Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever

sábado, 7 de abril de 2012

"hoje vou com aquele..." – Bénédicte Houart






hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente







Bénédicte Houart nasceu na Bélgica, em 1968, e vive em Lisboa desde criança. No vídeo acima, tirado do site português Sapo.pt, Bénédicte Houart lê um poema do seu primeiro livro, Reconhecimento, de 2005. 
[aliás, não consegui trazer o vídeo do sapo.pt sem a propaganda... se alguém souber como fazer, agradeço uma mensagem acerca deste assunto...]
Leia aqui outro poema de Bénédicte, que fala de M&M's e direitos de autor, e aqui essa canção belga que fiz para ser lida no lançamento do seu livro Vida: variações II.

sábado, 1 de outubro de 2011

[com os direitos de autor] – Bénédicte Houart




com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e 
de queixo bem lambuzado
como convém


cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros veem comer)








Bénédicte Houart nasceu na Bélgica, em 1968. Bénédicte Houart é uma poeta portuguesa. Bénédicte Houart mora em Portugal desde os 7 anos de idade. Em 2005, publicou seu primeiro livro, Reconhecimento (2005), ao qual se seguiram Vida: Variações (2008) e Aluimentos (2009), todos editados pela Livros Cotovia. A foto ao lado – em que Bénédicte Houart faz uma leitura na cidade do Porto – foi copiada do blog da editora Angelus Novus, de uma curiosa enquete feita à autora sobre a Coca-Cola.