quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Um teste de poesia – Charles Bernstein


O que você quer dizer com impinges de cinzas? Indústria é
um trabalho sistemático, uma atividade assídua, ou alude à posse
de fábricas?  Encrespar é agitar levemente?  Nós
entramos em estado de transa quando escrevemos poemas?  E
que ou quem gofra com glosas lustrosas insígnias de ar?

A Fábrica sobre a qual você escreve na epígrafe
de seu poema é um edifício, um símbolo do céu?

Frete refere-se a carga ou mercadoria carreada
mediante pagamento por mar, barra ou ar? Ou se reporta
ao preço do transporte? Ou a um trem
fretado? Quando você diz uma viagem cômoda
está querendo dizer uma viagem confortável ou um bom trem,
bem-equipado, com todas as comodidades?  Mas, então, por
que você elimina o "um" antes de amigo sonolento?  E
quando você escreve, em "Por que não sou cristão",
você sempre o deixa cair / Mas nunca o
apanha do chão  esse o é o quê??

Em "Porto da Ilusão", veia
refere-se à veia de uma pessoa sob sua pele ou
é uma metáfora para rio?  Lote
tem a ver com loteria-da-fortuna
de cada um ou com loteamento de terreno?
E cânfora refere-se a canforeiras?
Ademais, quem ou que se está acercando?  Quem ou
que tem felpas?  Ou felpa refere-se a
pelame ou tosão de um animal?  E quem ou que
atolou?  Então, a rodovia do atol do meio-dia é
equivalente a molde ou módulo?
Em "Pavor de Piparotes" piparote é o mesmo
que biruta?

A propósito de tensão, significa
esforço intenso  ou suportar pressão ou
efeito de ( como em impacto de um trabalho duro),
ou uma passagem melódica numa peça musical?
Mercúrio refere-se a uma certa marca de óleo?

Nas linhas
parcelas de pastéis bucólicos ancorados
a gabinetes cactáceos, gamelas de Nantucket,
devemos entender isso como  pedaços de empadas
ou tortas estão contidos em gamelas ( que
são feitas de madeira de Nantucket)
acopladas a gabinetes (pequenas
salas ou peças de mobília?) guarnecidos de cáctus?

O que é querela de matusquela?

Suponho que o caucus de caucasianos
refira-se a cauto concíliábulo de adeptos brancos
de um apartido político para o fim de escolher candidatos.
Mas quem é Tia Mixórdia?
E o que quer dizer vagão fretado familiar
para antílope de torna-viagem?

Você escreve as paredes são nossos assoalhos

Como podem paredes ser assoalhos se assoalho
refere-se à parte do aposento que forma
sua superfície inclusiva e sobre a qual a gente
pisa?  Em e assoalhos como bolas
repelem todas as carambolas  bolas refere-se
a quem não é bom da bola
ou a qualquer bola como uma bola de basquete
ou a um cara gabola?  Ou a um clube de dança
onde se rebola?  Bola em carambola é algo que baixa
de um ponto superior para um inferior
ou um corpo que  ferido ou morto  rola?

Mas o que é a assim chamada geléia
geral?

Um monte de lixo é o monte de lixo
no sentido comum? Por que
monte de lixo dá ideia de permutar com a chamada
geléia geral? Uma vez que falsário
é aquele que falsifica , como  se pode
reduzir arbitrário a falsário?

Que ou quem está desapontado
por não ter sido?

Molduras refere-se a forma, constituição,
ou a estrutura em geral. Ou a um
estado particular,  como o  de espírito?

Na sentença,
Se você não gosta dele
colorido, você pode sempre xerocá-lo
e vê-lo inteirinho  cinza.
 o que é esse o?  O que quer
dizer colorido?

Algumas linhas adiante você escreve,
Você quer dizer, fazenda de imagens, quando conseguiu bratwurst-
Bratwurst refere-se a salsicha?
A linha significa  a salsicha
que você viu lembrou-o de uma fazenda que você tirou da imaginação?

Botes com fundos fofos refere-se a botes com fundilhos balofos?

Usa-se desbunda dando uma tunda para descrever os atos de uma cara
que joga golfe? Na frase um vagabundo de shows de segunda
Vagabundo refere-se a bicho-grilo? Show de segunda refere-se a
de importância secundária? Ou a um ator anormal num show marginal?
Então, que ou quem entrosa com vapor cor-de-rosa?  E
o que me diz do espia-a-presa língua-perra na corda tesa
espia refere-se a alguém que persiste contumaz na tocaia da caça?
O espia-a-presa é uma testemunha com toda a certeza,
mas, logo, vira uma testemunha que não sabe das mumunhas?

Você escreve: As cascas estão salgadas:
que tipo de cascas de nozes deve ser comido com sal?
O que significa inclinar   ficar curvo,
corcunda ou inclinado? Ou curvar-se em submissão
ou reverência, render-se, sujeitar-se?  Sinos
refere-se a instrumentos metálicos de som ou
a calças boca-de-sino?

Algumas linhas a seguir surge a frase
Sentiu-se muito encharcado. Quem sentiu-se encharcado? Brinquedos?
Cantarolando está usado no sentido de cantarolar uma toada?
Metido em quê? Não-fazendo parte de quê?

Em "Não temos Pastrami" (Walt! Estou com você em Sidney/Onde
os ecos do berro do Mamaroneck / Ao longo dos corredores
abilolados dos cafundós- de judas)  será que pastrami se refere
a um bem-condimentado corte de bife de boi? Será que
Mamaroneck é um lugar nos E.U.A. onde bois bravios berram?
Devo entender que corredores refere-se às passagens
no supermercado? Posso ler o poema como
O sujeito que fala está fazendo compras no supermercado
em Sidney; está caminhando pelas excêntricas passagens entre prateleiras
nas quais os produtos estão dispostos; não quer comprar  pastrami
uma vez que lhe parece ter ouvido os ecos de bois bravios
berrando nos E.U.A. enquanto ele se dirige a Walt Whltman?

Em A inveja não tem fim, inveja refere-se a admiração ou
tem sentido pejorativo?




Tradução de Haroldo de Campos



Charles Bernstein nasceu em Nova Iorque, em 1950. Charles Bernstein publicou seu primeiro livro, Asylums, em 1975. Charles Bernstein participou do movimento (e da revista) L=A=N=G=U=A=G=E. Um dia, Charles Bernstein recebeu uma carta de um chinês que havia criado um movimento L=A=N=G=U=A=G=E na China. O chinês estava traduzindo um poema de Charles Bernstein e queria tirar umas dúvidas com o autor. Sua carta era toda feita de perguntas. Então, Charles Bernstein copiou a carta do chinês versificando todas aquelas perguntas e escreveu esse poema, Um teste de poesia. Peguei a tradução do Haroldo de Campos no site da revista Sibila. A foto que abre o post é de André Garcia.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

F de forquilha de fiapo de – Érica Zíngano





entrei de visita na casa do Freud
ein liebe Freund von mir
em viena
no domingo passado
quando parei para tomar um café
e alguma prosa com cigarros
como era hábito
saí do anel central
– também chamado interior –
que circula a cidade
em sentido horário
e caí ali
19, berggasse
(end. trad. por pisar
em ovos: a pequena rua
da montanha)
e eu não era um super-
homem nem
a mulher-aranha
tentando subir pelo íngreme
caminho
até o cume
um verdadeiro gume
em looping
                                   360 e 9° graus
de mim – minúscula paisagem
invertida
sem aparente perigo
um miradouro escondido
na sala de espera
por trás da cortina
com jardim ao fundo
um espelho-morto
por trás da janela
logo ali
na entrada
gentileza sua, pensei
ou
uma armadilha fácil
modo de receber
em silêncio
mais simbólico do que
simpático
e não disse nada, anotei
Spiegel
no canto do olho
esquerdo
e entrei, era a minha vez –
ele fuma um charuto
compenetrado
vejo ao longe o lume
forte cheiro a tabaco
não, não é um campeonato
mesmo assim acendo
um cigarro
instantâneo fogo-fátuo
enquanto escrevo
escura, grande sala
escura, ceci n'est pas
une pipe papa
pas de problème pour moi
c'est juste un perroquet
en plus, pela luz fraca
do candeeiro
foco no canto direito
em direção
ao colchão
meio escorado
à parede
onde me deito
de pernas para o ar
                                   ah, é aí
que eu vejo as minhas meias
de pés trocados
e escuto ainda
vindo pelo assoalho
o eco dos meus passos
em voz alta
ele pede: olhe para cá
o pêndulo faz
tique-taque
é agora
quando eu disser
ataque
                   queda
a hora quase certa
onde já tinha chegado
dentro de uma caixa
transparente
pequena, muito
pequena
um vasto, largo
descampado
cheio de portas
empenadas
por todos os lados
de tamanhos
variados
um cemitério, penso
estou cercada
um monte de estórias
fora de serviço
enguiçadas
capaz de levantar
fantasmas
arrepio
as palavras falam
alto, baixo
são pedaços partidos
pelo chão
nunca param de falar
às vezes vacilam
mudam o tom
grave, agudo
o som – soçobro
é quando me mexo, percebo
quem é?
redobrada
escuto tudo
com máxima atenção
               -valo
                               cachor-
                                                    elef-
                                  -alhaço
      -lope
                                         até papai no-
escuto quando pego
pela beira
aproximo
ao pé d'ouvido
uma palavra a dizer
levanta outras
escondidas
            não deixa o chap-
     a cabeça ba-
                             -anta a saia, pernas, pernas,
                               dança, dança, dan-
        crian-
falam outras
atrás de outras
portas
seria um bordão
se não fosse
um clichê
bom para jogar no lixo
uma máquina de dentes
elétrica
dentadura metálica
reciclagem imediata
come-se vestígios
cospe-se fora depois
novos sobejos
frases, ênfase
renovada
plástico sai
sapato
vira vidro vira
vislumbre vira
            pula o portão, pul-
pedem, daquele lado
                                   vem, vem,
cor-
não vai dar tempo
acho
tenho medo
acho
por onde me esconderijo?
trovão é lugar de
escombro,
sombra,
sobra?
não sei qual
são tantas portas
não consigo abrir
não vejo chaves
alice querida
por que você não vem
me visitar?
começa a chover
aqui
começa
alice não chega
nunca
alice
a minha capa de chuva
vermelha
a minha capa de chuva
não me cabe mais
toda encharcada
pequena
vermelha
a minha capa de chuva
uma pedra voando
eu
na minha direção
na direção da minha
cabeça, digo,
voltando
caindo
desvio e pego
seguro no ar
com as mãos
abro os olhos
abrigo nenhum – perigo
Treffen sich zwei Jäger
beide tot, ele diz
é uma piada, imagino
Witz, ele ri
                        – bingo!
com todos os olhos
no rosto
não pode gargalhar
a boca sumiu
entre 2
ou 3 frases
a mais
eu
com uma cambalhota
bergamota
cabeça
casca grossa
caçarola
roça-roça, coça
me levanto girando
peixe-bola pela sala
saia rodada
saída assimétrica
mas não me lembro
se cheguei a fechar a porta 



Érica Zíngano nasceu em Fortaleza, em 1980. Érica Zíngano é escritora e artista visual. Antes – ou depois, Érica? – de visitar a casa do Freud, Érica formou-se em Letras (Português-Francês) e fez seu mestrado em Literatura Portuguesa na USP. 
Atualmente, ela mora em Lisboa onde faz sua tese de doutorado sobre a escritora Maria Gabriela Llansol. Publicou o livro fio, fenda, falésia, escrito a seis mãos (com Renata Huber e Roberta Ferraz) e poemas em várias revistas, dentre as quais a modo de usar & co. (leia na modo seus poemas; os trabalhos visuais podem ser vistos no site 1001 notas.) 
"F de forquilha de fiapo de" foi publicado na revista pitomba #3 (são luiz, dezembro de 2011) 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Olho no olho – Itamar Assumpção


Por cabo T.V. satélite por rádio via internet
Por modem fio ou telex bom mesmo é o tête-à-tête
Bilhete carta recado um bip sempre ocupado
Out-door raio fax ligado bom mesmo é rosto colado
Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho
Tijolinho anúncio pago panfleto retrato falado
Por cupido por duende bom mesmo é bater de frente
No berro pombo correio seja celular ou meio
Painel faixa ou mural bom mesmo é o ato carnal
Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é você ali olho no olho
Por tambor telepatia
Por clip telefonia
Poema escrito na roupa
Bom mesmo é boca na boca
Por Pager via Embratel
Pelo vento por passa anel
Por átomos ou carro de bois
Bom mesmo é orgasmo a dois
Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você ali na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho
Por cabo T.V. satélite por rádio via internet
Bom mesmo é o tête-à-tête
Bilhete carta recado um bip sempre ocupado
Bom mesmo é rosto colado
Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho


Itamar Assumpção nasceu em Tietê, em 1949, e faleceu em São Paulo, em 2003. 
Itamar Assumpção é um cantor e compositor paulista. 
Itamar Assumpção gravou, dentre outros, os discos Beléleu, leléu, eu, 
Bicho de  7 cabeças e Pretobrás (onde está a canção "Olho no olho").

sábado, 17 de dezembro de 2011

Cola com anticolas – Lu Menezes




O make me an angle!
você aos céus implora
na cola de Dylan Thomas rogando
O make me a mask!

e na branca anticola
daquela artista paulista escovando 
os dentes até não mais se ver
um pingo de rosto atrás
da máscara de pasta...

e na negra,
da cineasta belga engraxando
as botas e depois
as pernas e depois
incinerando a habitação

– Do Cosmo ao subsolo
na anticola vermelha de Cildo,
O make me an angle!
– insistes

na frente do espelho
passando o batom sem ultrapassar
limites... sem se desviar... respeitando
o contorno labial, o entorno social;
exorcizando
todo extra-artístico risco de escândalo
que algum milimétrico
impulso inoportuno possa criar





Genuína companhia, o poema "Cola com anticolas" está no livro Onde o céu descasca, recém-publicado pela 7Letras. A belíssima leitura de Lu Menezes (em que ela marca as quebras de verso de modo muito singular) foi feita na cidade de Namur, Bélgica, na Maison de la poésie, no dia 02 de dezembro de 2011, por ocasião do festival Europália. E na foto acima, Lenora de Barros, artista paulista produzindo sua máscara de pasta.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Meu assassino – Alice Sant’Anna






hoje encontrei meu assassino.
dispersa, olhei para a plateia e ele estava lá

os olhos fixos em mim.

soube na mesma hora 

de quem se tratava 

tentei disfarçar a chuva 

que deixou a franja bagunçada 

na frente dos olhos mas o assassino

me olhava mas eu revidava

muito dura: era um jogo.

sabia que a qualquer respiração

se eu desconcentrasse ou tropeçasse 

ele não perdoaria nunca (isso já aconteceu antes).

lembro bem quando 

o meu assassino me atirou 

pela primeira vez 

a diferença é que agora sei 

como se chama sei o formato do maxilar

e como ele me olha com esses olhos

de assassino.

pensei em chamar a polícia, os jornais 

pensei sobretudo

em mudar de cidade

e não contar para ninguém, assim 

o meu assassino me procuraria

nos mesmos lugares de sempre

mas frustrado voltaria para casa

e me escreveria longas cartas

dizendo fique avisada, seus dias estão no fim.
contudo meu assassino jamais seria

capaz de me encontrar
e por isso as longas cartas

que ele levaria ao correio muito bem

dobradas em envelopes com cheiro

de canetinhas coloridas

as cartas não chegariam em parte alguma

pois não constaria o meu nome
 
em nenhuma página amarela

ou conta de luz.

meu assassino bateria na porta

da minha antiga casa

no que eu o convidaria para entrar

ofereceria um café e diria

que pena! que desencontro! que perda!

ela não mora mais aqui.




Alice Sant’Anna nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. Publicou seu primeiro livro, Dobradura, em 2008, pela editora 7Letras (essa capinha acima). A primeira vez em que li um poema seu foi na miniedição artesanal que Alice fizera um ano antes (e que já tinha alguns poemas que comporiam o primeiro livro): chamava-se A dobra dura (essa capinha abaixo). Alice é editora-assistente da revista Serrote, do IMS. "Meu assassino" foi publicado na página Risco (Prosa e verso) e a foto que abre o post é de Mariano Marovatto.