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quarta-feira, 2 de março de 2016

Íntimo [fragmentos] -- Pierre Alferi


Cara Sedentária

poucos quilômetros nos separam
porém ouço suas últimas palavras
em uma língua estrangeira
veja quantos dias sem estarmos juntos

será que realmente estivemos daquela outra vez?
algum dia você se convencerá
da minha presença ao seu lado?

deslastrado de minha sombra
os óculos desembaçados
eu olho para o leste


**


Caro Relativo

aterrissagem diferida
nos colocaram no centro
bem no alto de um hotel
do antigo regime (vai
saber quantos casais de
apparatchiks-prostituídos refletiu
o armário com espelho)
retorno ao quarto várias vezes
para digerir a sensação
de cidade em obras
fluida e cheia de arestas
consertar à máquina
pintar sobre um calco
o que falta ao strip-tease
de um campo em ruínas

de cima do décimo-terceiro andar
as transformações são claras
o vidro, obstinadamente líquido
e o céu mudo, como uma cobra

meus compromissos são adiados
o próprio motivo da minha vinda
sai para um passeio

eu tento o que me tenta
com o risco de perder um tempo louco
buscando objetos úteis
dando-lhes uma função
durante um ou dois minutos
sem fazer nada em um banco
entregue ao caos
de figuras, cores
sons

***


Caro Antiquário

para fazer voltar o tempo
você seria um salmão
ou um relojoeiro?
sugiro em vez disso
tocar um disco ao contrário
sonhar em húngaro

os monumentos ficam
muito acima das nossas cabeças
quando os devoramos

se a distância percorrida
fosse contada em séculos
eu desceria na planície
colocaria um belo chapéu
e deixaria crescer o bigode

***


Cara Íntima

enfim, próximos

você receberá esta
breve mensagem a tempo?
eu custo a terminar a clepsidra
e apagar as lembranças

se você ingressasse no paraíso
ele se pareceria a quê?

você tem tanta certeza
de que nos reconheceremos?
eu adio o momento
assobiando night and day

será que não esperamos demais
nos encontrar no mesmo lugar
no mesmo instante?

sábado, 18 de julho de 2015

Os espiões trácios dormiam perto dos barcos – Emmanuel Hocquard



Ao pé das Grutas de Hércules, no litoral atlântico, o arqueólogo Montalban trazia à luz os vestígios de um balcão romano, estabelecimento comercial do século I, que os vândalos em sua época haviam saqueado: as pinturas murais haviam sido completamente arrancadas e seus restos abandonados no chão e, pouco a pouco, recobertos pela areia. Quanto às paredes do local, elas tinham abastecido a demanda por pedra de gerações de autóctones: recentemente, o senhor Doolittle tinha encontrado material para usar na muralha ao redor da cidade.

Ao longo de semanas, todos os dias ele trazia seu lote de fragmentos coloridos de antigos afrescos que, uma vez lavados e dispostos sobre grandes mesas, se revelavam inaptos às mais pacientes tentativas de reconstituição, mesmo que parciais, do mais mínimo pedaço do mural.

Por outro lado, esta irredutibilidade do fragmento a reintegrar o conjunto original dava início, pelo viés das lacunas, ao desaparecimento do suporte e à perda definitiva do modelo, e consequentemente à hipótese de uma nova redistribuição do mundo, nascida do acaso a partir desses cacos cujas cores conservavam uma frescura impressionante graças aos quinze séculos de areia, no pressentimento de um tremor rítmico no qual o entre começaria a tragar, para dentro da cidade morta, sua parte viva, indo até o mar mais próximo, a estação já bem avançada com os riscos das grandes marés por causa do equinócio...

Liberados da origem e deixados à sua própria evidência, era preciso enviar esses fragmentos de volta à areia, pois toda mudança que faz sair um corpo dos limites de sua natureza / conduz instantaneamente à morte daquele que existia antes (Lucrecio).


Foi no verão de cinquenta e três.

_____________________________


publicado em 1975 como plaquete pela orange export ltd.
"os espiões trácios..." reaparece nesse livro aí em cima chamado 
álbum de imagens da villa harris (pol, 1978)
e depois é recopiado no posfácio de teoria das mesas (pol, 1996)
a figura de moltalban está em vários momentos da obra de hocquard
e ele usa a anedota como dispositivo de trabalho, de escrita, de tradução:
como esses cacos que montalban não consegue remontar à origem,
a escrita deve ser nova distribuição do mundo, de acordo com a pista de um dado momento.
mais traduções de emmanuel hocquard aqui.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Petits Paysages – Nadia Porcar





nadia porcar é francesa e morou durante 16 anos no japão
onde fez alguns trabalhos como esse lindo petits paysages

seu trabalho pode ser visto/lido no site http://ifnothinghappens.com/

terça-feira, 14 de julho de 2015

Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu – Emmanuel Hocquard





Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu
(admitindo que saibamos o que existir quer dizer)
mas eu acho que ele existe à medida
que cada um de nós acha que ele existe.
E que neste sentido ele é único.
Não no sentido em que cada um de nós é único
– ou pensa ser –
mas no sentido em que Fernando Pessoa é único
isto é, como um gerânio
no meio de outros gerânios,
isto é, como todo mundo.

O que o torna tão diferente de muitos dos outros poetas
é a sua indiferença a todas as coisas,
dentre elas, à poesia e à indiferença.
Sua indiferença não é uma pose, nem uma atitude.
Ela é a expressão de uma inteligência viva.
Para Fernando Pessoa, ser inteligente é duvidar de todas as coisas,
dentre elas, da inteligência e da dúvida,
é tentar se desfazer daquilo que aprendemos.
Fernando Pessoa maneja sua inteligência
como o contrabandista de Valery Larbaud usa
seu pequeno espelho de bolso
para ter certeza de que os funcionários da alfândega não estão na sua cola.
Eu acho que ele tinha um olhar de mosca.
E que seus olhos de mosca lhe permitiam ver tudo
ao mesmo tempo, uma coisa e seu contrário,
e mais alguma coisa que não é exatamente seu contrário
e que é, no fim das contas, a mesma coisa.

Admitindo que Fernando Pessoa tenha algum dia existido
(e que tenhamos chegado a um acordo sobre o que existir quer dizer)
eu acho que ele era do tipo que podemos chamar solitário,
e que ser solitário como eu imagino que ele tenha sido
é estar presente ao mesmo tempo em todos os lugares e em lugar nenhum
é ser ao mesmo tempo todo mundo e ninguém.
Ser Fernando Pessoa é ser tudo, para ele somente.
E alguma coisa que tem a ver com o sono.

T.S. Eliot precisava de Deus para amar
e para escrever o que ele escreveu.
A metafísica dava náuseas em Fernando Pessoa
porque a metafísica supõe uma dualidade
que lhe revolvia o estômago.
Esta náusea da alma (que ele mantinha
ao escrever o que ele escrevia)
lhe fez escrever o que ele escreveu
até não poder mais pensar, até este esgotamento
que tem a ver com o sono.

A voraz banalidade das coisas cotidianas
é seu ponto de partida e seu ponto de chegada.
Ele não pega uma coisa qualquer da realidade de todos os dias
para destacá-la e lhe dar um sentido
mais alto, nem outro sentido qualquer que esteja fora dela mesma.
Ele pega uma coisa banal que ele expõe por um momento
à luz enganosa da metafísica
para recolocá-la, inalterada – ou quase –
na banalidade voraz das coisas cotidianas.

Seigen Ishin afirmava que antes de estudar o Zen
sob a orientação de um bom mestre
as montanhas são montanhas e as águas são águas.
Que, chegando a uma certa visão interior da verdade,
as montanhas não são mais montanhas
e as águas não são mais águas.
Mas que uma vez atingido o estado de quietude,
de novo as montanhas são montanhas
e as águas são águas.
Eu não compreendo muito bem o que isso quer dizer,
mas eu acho que Fernando Pessoa teria ficado contente
de ouvir essa história.

Sem sombra de dúvida, é em torno dessa questão,
ou de alguma coisa próxima a isso, que giram sua lucidez
e sua retórica de gerânio.

_______________________


emmanuel hocquard nasceu em cannes em 1940.
emmanuel hocquard passou sua infância e adolescência em tânger
tânger é muito presente na obra de emmanuel hocquard
emmanuel hocquard começou a publicar seus textos como plaquetes nos anos 60
na editora artesanal que ele criou com a raquel lévy
a orange export ltd.
em 1978 saiu seu primeiro livro por uma editora comercial (pol)
"eu não sei se fernando pessoa realmente existiu" 
foi tirado do livro um detetive em tânger (pol, 1987)
e leitura do poema que abre esse post foi gravada em 2009
na casa de emmanuel hocquard em mérilheu
vila que fica nos pirineus franceses.

mais textos traduzidos de hocquard aqui

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Minha vida com o doutor Lacan – Jacques Roubaud



"Um livro é a autobiografia de seu título
e, como tal, é a narrativa de uma singularidade", fim de citação.


1.
Aos 20 anos, percebi que uma amiga minha de infância era linda.
Eu estava amando. Ela se chamava Sylvia.


2.
Era filha de Paul Bénichou. A mãe era Gina, nome de solteira Labin.


3.
Um dia, fomos juntos ver um filme de Jean Renoir, O crime do Sr. Lange. Descobri que a atriz principal tinha sido amiga íntima de Gina Labin-Bénichou. O nome dela era Sylvia Bataille.


4.
Lembro que naquela época Paul Bénichou, sempre de uma elegância irrepreensível, gostava de falar dos jalecos coloridos que seu amigo Lacan usava durante a juventude. Acho que havia uma ponta de ironia no que ele dizia.


5.
Nós tivemos uma filha, Laurence: Laure é um nome provençal e também o nome da prima do meu pai, que vivia em Saint-Jean du Var; um nome de poema. Além disso, a filha de Sylvia Bataille se chamava Laurence Bataille.


6.
Em 1961, depois do suicídio do meu irmão, me levaram, como militar repatriado por motivos médicos do Saara , para o pavilhão isolado do hospital de Val-de-Grâce. O doutor Lacan se responsabilizou pela minha alta do hospital e pela minha volta para casa. Ele me recebeu em seu consultório. Eu só me lembro do silêncio.


7.
Provavelmente em 1965, com um amigo da época, o matemático Philippe Courrège, eu li e tentei entender o "Seminário da carta roubada".


8.
Um dia, acho que no final de 1968, recebi um telefonema. Atendi e ouvi uma voz: "Sou eu". De novo, o silêncio. "Lacan" (não tenho certeza dessa última palavra, mas das primeiras, sim.), "Temos que nos ver."


9.
Marcamos, então, um encontro; eu fui até a casa dele, na rue de Lille; saímos para caminhar; mas ele não me disse o motivo do encontro.


10.
Assim, nós nos vimos 2 vezes.


11.
Eu nunca mais o revi.


**


texto publicado pela primeira vez em 1989 na 1/1 paris-londres éditions
e depois nessa linda edição (cuja capinha abre este post)
da éditions de l'attente http://www.editionsdelattente.com

sexta-feira, 22 de maio de 2015

[Perdido. Há uma piscina...] – Pierre Alferi






Perdido. Há uma piscina em algum canto
e num outro um boliche enterrado.
Labirinto é um lugar do qual conhecemos os ângulos,
como se os tivéssemos traçado em outro momento, mas
não identificamos exatamente o ponto em que estamos.
Atrás do Panthéon para o leste, chegando dessa vez
nas ruas Monsieur-le-Prince e Soufflot: é ali,
Q-17 no Indispensável. A máxima mais alegre
seria "você não vai embora até ver tudo".
Acho que sei o nome de cada ruela entre
a rua Mouffetard e a rua Geoffroy-Saint-Hilaire
 grande coisa! Subimos e descemos o tempo todo,
dizemos: pronto, era aqui então. Para penetrar num labirinto,
em sua ideia, é preciso além de tudo excluir a eventual possibilidade
de andar em círculos. Assim, o vendedor de madeira e carvão,
a rua do Puits-de-l'Ermite e, consequentemente, a própria rua
sempre me pareceram ou muito altas ou muito baixas.
Li um artigo sobre as abelhas e os robôs descentrados,
a viagem tranquila de um indivíduo, de uma informação
através de uma colmeia, um cérebro, um país que não tem
mapa. Gosto acima de tudo dos rituais, da miopia,
do que vem por eliminação ou no passo a passo,
o olhar no nível do chão. A rua Mouffetard é uma régua graduada
para toda a região, mas uma regra cujos valores
 uma livraria, o Roi Café, o mercado se invertem logo que eu viro as costas.
O destino, para uma caminhada metódica,
é menos um ponto, aquele digamos onde acaba a rua de la Clef,
do que o preenchimento de casas vazias. Pode-se assim considerar
cada segmento como um parêntese. Ao modo dos turistas
que fazem Creta, eu faço esse lugar. Para completar minha desorientação,

não vi ninguém que tenha me visto, caçador nem explorador.
Na rue Épée-de-Bois, um caminhão transporta as cartas.





















poema originalmente publicado no livro Chemin familiar du poisson combatif (1992)
mas lido nessa antologia para flâneurs
com poemas que falam sobre andar (e se perder) pelas ruas de Paris

o pierre alferi é um poeta e artista francês
o pierre alferi é professor na école de beaux arts
ele escreveu vários livros fez alguns cine-poemas e tem esse blog com seu trabalho
aqui um dos cine-poemas

tive uma dúvida ao traduzir esse poema: o que é Q-17 no Indispensável?
Q-17 pode ser um certificado anti-incêndio
Q-17 pode ser um sistema de câmeras
Q-17 pode ser muitas outras coisas
ainda não consegui decifrar
o que é
nem o Indispensável
que ele fique sendo aqui mais uma medida para me deixar perdida no mapa
por fim poderia ser um ponto no jogo de batalha naval...

ah
e a imagem do henri cartier-bresson
de 1954
é na rue mouffetard
e se chama
en fait
rue mouffetard
embora o menino não tenha a menor pinta de perdido...

quarta-feira, 20 de maio de 2015

[excerto de Ellis Island] – Georges Perec


[Ellis Island, segundo a wikipedia, em 1905]


cinco milhões de emigrantes vindos da Itália

cinco milhões de emigrantes vindos da Irlanda

um milhão de emigrantes vindos da Suécia

seis milhões de emigrantes vindos da Alemanha

três milhões de emigrantes vindos da Áustria e da Hungria

três milhões e quinhentos mil emigrantes vindos da Rússia e da Ucrânia

cinco milhões de emigrantes vindos da Grã-Bretanha

oitocentos mil emigrantes vindos da Noruega

seiscentos mil emigrantes vindos da Grécia

quatrocentos mil emigrantes vindos da Turquia

quatrocentos mil emigrantes vindos dos Países Baixos

seiscentos mil emigrantes vindos da França

trezentos mil emigrantes vindos da Dinamarca



          durante todos esses anos, os navios a
vapor da Cunard Line, da Red Star Line, da
Anchor Line, da Italian Line, da Hamburg-
Amerika Line, da Holland-America Line,
atravessaram o Atlântico norte

        eles partiam de Rotterdam, de Brême, de
Göteborg, de Palerme, de Istambul, de Napoles, de Anvers,
de Liverpool, de Lübeck, de Salonique, de Bristol, de
Riga, de Cork, de Dunkerque, de Stettin,
de Hambourg, de Marselha, de Gênes, de Danzig, de
Cherbourg, de Pirée, de Trieste, de Londres, de Fiume,
de Havre, de Odessa, de Tallin, de Southampton

     eles se chamavam Darmstadt, Furst
Bismark, Staatendam, Kaiser Wilhelm,
Königin Luise, Westerland, Pennland,
Bohemia, Polynesia, Prinzess Irene, Princeton
Umbria, Lusitania, Adriatic,
Cornia, Mauretania, San Giovanni,
Giuseppe Verdi, Patricia, Duca degli Abruzzi,
New Amsterdam, Martha Washington,
Turingia, Titanic,
Lidia, Susquehanna, Albert-Balin
Hansington, Columbus, Reliance, Blücher




       mas a maior parte daqueles que, no fim
da exaustiva viagem, descobriam Manhattan
emergindo da bruma, sabiam que sua prova
não tinha terminado

eles ainda precisavam passar por Ellis Island
ilha que
em todas as línguas da Europa
tinha sido apelidada de A ilha das lágrimas

tränen Insel

wispa lez

island of tears

isola delle lagrime

oстров слез


         é uma pequena ilhota de quatorze hectares,
a algumas centenas de metros da ponta de
Manhattan.
os índios a chamavam de Ilha das Gaivotas
e os holandeses de Ilha das Ostras

[...]




nessa época
quase dezesseis milhões
de homens, de mulheres e de crianças
passaram por Ellis Island
dos quais mais de três quartos
entre 1892 e 1914

nesses anos
chegavam
quase dez mil pessoas por dia

___________________________



trechinho tirado desse livro aí em cima
Ellis Island, de Georges Perec (edição linda da POL)
que conta um pouco sobre a ilha-órgão
que abrigava o controle de imigração nos Estados Unidos até 1914

sábado, 4 de outubro de 2014

Epopeia, uma aventura de Batman -- Christophe Fiat


À noite,
em Gothan City,
tudo é imenso
tudo acontece
no infinito
das aventuras
do Batman.
Vemos apenas
as chamas
e as imagens
se sobrepõe
como as tantas
manchetes
que anunciam
as mudanças
feitas
na cena do crime.
Numa das manchetes
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ
Então Batman faz sua ronda
como um animal
no grande cenário
natural
de Gotham City,
Batman fala pouco.
Sua voz responde.
Ela é rápida
atonal
plana
horizontal
neutra.
Batman tem
a loucura comum
aos aventureiros
que tratam
a noite
como um inferno.
Batman diz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Se Batman fala pouco,
ele bate muito
Muitas vezes ele mata [...]

Quando Batman
diz sim!
E faz BANG!
BIFF! CRUNCH! ZAP!
Batman passa à ação
Então a noite
de Gothan City
se ilumina por um instante
com as chamas da ação
de Batman
Então ele está
no auge
da sua vida mítica-real
que avalia
todas as transformações
ocorridas
como as transformações
de um homem
em morcego.
O problema
de Batman
é que nunca sabemos
se estamos
em um filme de criminosos
ou num filme policial
porque
quando Batman bate
ele passa sem distinção
da situação ao duelo
(filme de criminosos)
e do duelo à situação
(filme policial).
Para Batman
todas as ações
são cegas
e todas as situações
são obscuras
e a noite
de Gotham City
é o teatro de operações
de uma catástrofe
que chega
como uma canção
e que atravessa os lugares
e as pessoas.
Batman
tem o senso prático
desenvolvido
É preciso lidar
com o tempo
É preciso entrar
na engrenagem
da noite
É preciso
abolir o tempo
É preciso
manter
a velocidade
de propagação
de uma imagem falsificada
por quanto tempo for possível,
sideral
e siderado e siderante
que se reparte diretamente
no rumor
das chamas
e das brigas de rua.

Na manchete
lemos
EU VOU MATAR VOCÊ!
e entendemos
ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ
Então sabemos
que se refere ao Batman.
Mesmo que seja
só uma frase
"EU VOU MATAR VOCÊ ELE DIZ QUE VAI MATAR VOCÊ"
circulando pela
noite de Gothan City
e que se propaga
numa frequência
situada entre 20 kHz
e 120 kHz
mostrando
as aventuras
entre os personagens
independentes
(Batman
e os super-herois
e os policiais
e os bandidos)
e os lugares separados
(todas as ruas
e todos as praças
e todos os prédios
de Gothan City).




este é um excerto do livro
Épopée, une aventure de Batman, publicado pela al dante, niok, em 2004,
e que eu li na antologia Sac à dos, une anthologie de poésie contemporaine pour lecteurs en herbe, organizada por Jean-Michel Espitallier

terça-feira, 27 de maio de 2014

Eine nationale poesie? – Jacques Roubaud


Osnabrück, 27 de novembro de 1993.

@1

@1.1 Na minha família, o telefone não penetrou antes de 1945. Eu tinha doze anos. Era um aparelho grande e assustador, uma espécie de divindade, sem dúvida hostil. Meu pai não queria responder ao seu chamado, muito menos servir-se dele. A minha mãe cabia a tarefa de exorcizá-lo. Mas ela mesma não deve ter conseguido dominá-lo realmente. Com efeito, tendo-se passado vários anos, tínhamos deixado Carcassone, onde vivêramos durante toda a guerra (lembro-vos que houve uma guerra entre 1939 e 1945), e tínhamos vindo viver em Paris e um dia minha mãe recebeu um telefonema de uma velha amiga de lá, de antes. Elas falaram por um momento, deram notícias das famílias, das crianças, e, no momento de se deixarem, minha mãe disse: "Não vamos mais ficar tanto tempo sem nos falar. Toma o meu número de telefone." "É, você tem razão, me dá o número", começou a dizer a amiga. Neste momento, as duas começaram a rir.

@1.2 Quanto a mim, não avancei muito no domínio deste instrumento. Quando recebi uma chamada de Hamburgo me perguntando o título de minha intervenção de hoje, tive um momento de pânico. Pensando na inacreditável distância percorrida pela voz que chegava dessa maneira inverossímil à minha orelha, respondi bruscamente, com uma hesitação interrogativa na voz e na orelha: "uma poesia nacional?". E foi assim que me veio esse título e numa espécie de alemão que creio totalmente adequado e que adoto, consequentemente, pronunciando-o à minha maneira de quase analfabeto em assuntos germânicos: "Eine nationale Poesie?"

@1.3 Procederei da seguinte maneira. Num primeiro momento questionarei a ideia de nação. Num segundo momento me perguntarei o que a poesia pode ter a ver com a nação. Permanecerei mais ou menos no modo interrogativo, não tendo muitas respostas a oferecer, o que não me impedirá de expressar-me de maneira peremptória, como todo mundo.

@ 2
@2.1 Já faz alguns anos, a França, querendo mostrar que não guardava rancor da Alemanha por certos mal entendidos ocorridos em sua recente história comum, resolveu tomar-lhe emprestado a concepção de um movimento político de tendências fascistas, cujo nome é Frente Nacional e cujo chefe (era preciso ter um chefe) se chama Le Pen.

@2.2 Uma das ideias da Frente Nacional é: "A França aos franceses!", ou ainda "Fiquemos entre nós e as vacas estarão bem guardadas." Há estrangeiros demais na França, dizem, eles nos invadem, como outrora o fizeram os árabes vencidos por Charles Martel (um membro de honra da Frente Nacional) em Poitiers, em 732. Eles comem nosso pão, arruinam nossa segurança e nossa seguridade social. Em suma, "Eles vêm em nossos braços / estrangular nossos filhos e nossos companheiros". Bem, pelo menos simbolicamente.

@2.3 Então é preciso se livrar dos estrangeiros.

@2.4 Mas aí encontramos um problema. Se enviamos os estrangeiros de volta a seus lares, isso significa que, de modo claro e indiscutível, sabemos distingui-los dos franceses, que devem ficar em seu país. O que é um francês?

@2.5 Debruçando-se sobre a questão, a Frente Nacional, pela voz de seu chefe (é preciso um chefe que fale em nome de todos) propôs uma definição do francês.

@2.6 Definição de Le Pen: É francês aquele ou aquela cujo pai e cuja mãe são franceses.

@2.7 Entusiasmado por esta definição, compus o seguinte poema, já traduzido para várias línguas, digo com orgulho (isso não ocorre com tanta frequência), incluindo o alemão.

@2.8 Atenção: o poema deve ser dito bem rápido!

@ 2.9 Poema:

Le Pen é francês?

Se Le Pen fosse francês, segundo a definição de Le Pen, isso quereria dizer que, segundo a definição de Le Pen, a mãe de Le Pen e o pai de Le Pen teriam sido eles mesmos franceses segundo a definição de Le Pen, o que significaria que, segundo a definição de Le Pen, a mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai de Le Pen, sem esquecer o pai do pai de Le Pen teriam sido, segundo a definição de Le Pen, franceses, e consequentemente a mãe da mãe da mãe de Le Pen, assim como a mãe do pai da mãe de Le Pen, assim como a mãe da mãe do pai de Le Pen, e a mãe do pai do pai de Le Pen teriam sido francesas segundo a definição de Le Pen, e da mesma maneira e pela mesma razão o pai da mãe da mãe de Le Pen, assim como o pai do pai da mãe de Le Pen, assim como o pai da mãe do pai de Le Pen, e o pai  do pai do pai de Le Pen teriam sido franceses sempre segundo a mesma definição, a de Le Pen
donde se concluirá sem problema e sem a ajuda de Le Pen ao se seguir o raciocínio
ou que existe uma infinidade de franceses que nasceram franceses segundo a definição de Le Pen, viveram e morreram franceses segundo a definição de Le Pen depois da aurora do começo dos tempos ou
que Le Pen não é francês segundo a definição de Le Pen.

Jacques Roubaud, provençal

@2.10 Tive que assinar provençal, não sendo eu francês, mas mais ou menos provençal, em todo caso o sou se remontar algumas gerações. (eu incluiria de bom grado o troubadour Rubaut entre os meus ancestrais, mas não consegui ainda determinar todos os elos perdidos de minha genealogia).

@2.11 A segunda alternativa, qual seja, que Le Pen não é francês segundo a sua própria definição, recebeu recentemente uma confirmação brilhante. Quando estive em Nova York para uma leitura no Poetry Project de St. Mark's Place e li meu poema, alguém no final me trouxe uma caneta de marca Le Pen. Ao examiná-la vi que ela era "made in Japan". Quod erat demonstrandum.


Tradução de Monique Balbuena
publicado na revista Inimigo rumor 7

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Começa – Josée Lapeyrère





começa quase sempre com um traço

uma palavra.... uma mosca que voa ou
um leopardo que atravessa o avesso
da janela ....de um salto.... e entre o arco
de suas patas estiradas ....eu vejo o homem
que lava os vidros ....ele não viu
a fera assim como os outros sentados
em seus escritórios.... diante das telas azuis
começa com um traço...... um índice
leve uma mosca que voa ....ou
uma tatuagem como a de um sol que
surge da dobra do cotovelo do lutador
as linhas negras saindo em leque
em direção a um bíceps para sempre matinal ou

o ruído da cadeira raspando
o ladrilho .....que desperta.... gritando
seus quatro pés...... um peso essa cadeira
a cadeira vermelha por que você já vai
por que não vai ..........vem
aqui me dá um beijo....... me deixa uma marca
a marca dos dentes ......ou das garras
a marca do chicote .......ou do vôo
da mosca ......a marca de um traço no ar

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A forma-poesia vai, pode, deve desaparecer? – Emmanuel Hocquard



A primeira formulação desta pergunta – “A poesia pode, vai, deve desaparecer?” – tinha a vantagem de já trazer a resposta dentro dela. Uma vez formulada a pergunta, conclui-se que ela pode existir. Quem, hoje em dia, questionaria se a televisão, por exemplo, pode, vai, deve desaparecer? Perguntar-se isso a respeito da poesia é dizer que sim. Este “sim” pode, no melhor dos casos, vir acompanhado de uma entonação extra: infelizmente, enfim, com prazer, o quanto antes melhor etc.
A nova formulação da pergunta (“A forma-poesia pode, vai, deve desaparecer?”) responde, na verdade, à afirmação da primeira. Perguntar se a forma-poesia – forma diferente daquela da prosa – pode, deve, vai desaparecer é dizer implicitamente: “certamente a poesia vai desaparecer, mas e a forma-poesia deve desaparecer por esta razão? Eu gosto muito deste recuo. Eu gosto muito da sutileza (perversidade) da pergunta. A Action Poétique, com o ar de quem não está dando os nomes aos bois, me surpreende de modo deleitoso, pois:

1. Eu gosto muito da Action Poétique
2. Eu gosto muito do Henri Deluy
3. Eu não posso simplesmente representar para mim mesmo o que poderia ser uma forma-poesia (Evidentemente compreendi bem que a pergunta não diz respeito a “formas poéticas simples”).

A rigor, poderia imaginar uma forma-prosa como uma linha. Um romance, um ensaio, um tratado etc. cabem, cada um, em uma única linha. Uma linha mais ou menos longa dependendo do caso: Bartebly menos longa do que Moby Dick. Para fazer caber uma linha de X quilômetros em um livro, nós a dobramos, como dobramos um metro articulado para que ele caiba num bolso. A maneira de dobrar a linha-prosa (sua justificação) obedece geralmente (na maioria dos casos) a critérios exteriores ao texto, tais como: o formato do livro, sua visibilidade etc., e não a critérios do pensamento.
A “forma-poesia” seria então, ao contrário, uma não-forma. Não a prosa dobrada, mas uma outra maneira de pensar. A não ser que consideremos “forma-poesia” como um aspecto (Gestalt): quando abrimos um livro de poesia, vemos imediatamente que:

1. não é prosa
2. então é poesia.

Um pouco breve, não? No entanto, não podemos ir além disso. O que salva a pergunta é a evocação do futuro. A “forma-poesia” vai desaparecer? Temos aí uma indicação de contexto (França, 1994).
Uma pergunta: a “forma-poesia” não seria uma forma por falta de outra definição? Resposta: não, isso seria muito simples! Outra pergunta: a forma-poesia seria a forma de uma outra maneira de ver, pensar, mostrar? Nem sempre, mas de qualquer maneira, seu projeto sim.
Quando W. observa que a filosofia deveria ser escrita como uma composição poética, ele mostra implicitamente este projeto: encontrar a ferramenta apropriada para operar relações (que não sejam prosa discursiva) entre objetos da linguagem.
A “forma-poesia” não pode então ser tomada como uma forma geral mas como a concretização de intenções singulares.
Eu perguntei ao Alexandre Delay, pintor, se a forma-poesia – forma diferente daquela da prosa – vai, pode, deve desaparecer? E sua resposta:
Eu diria que sim. Por princípio. Em seguida, me diria o seguinte: se queremos fazê-la desaparecer e se ela não quiser desaparecer, ela reaparecerá sob uma outra forma, se houver alguma necessidade. O que há de positivo na ideia da desaparição, é que ela vai engatar o processo da ressurreição em outro lugar, sob outra forma. Isso significa que ela pode nos ensinar alguma coisa que nós não somos talvez mais capazes de ver nesta forma, diferente da prosa.
Destacar aqui a desaparição é uma maneira interessante de entender a pergunta, pois deste modo um contexto é reintroduzido. Sentimos claramente, hoje, que alguma coisa vai, pode, deve desaparecer, mas não sabemos bem o que é. E não saberemos nunca se fizermos deste fato um objeto do pensamento (poesia, ou “forma-poesia”, pouco importa). Trata-se aqui de permitir, de propor, de manter aberto o projeto de outras maneiras de pensar ou de ver ou de dar a ver. Vista deste ângulo, a forma-poesia não terá mais nada a ver com a poesia (e nem com a prosa, aliás). A “forma-poesia” será apenas uma denominação por falta de outra qualquer.
Mas como, de fato, nós não temos outra à nossa disposição, podemos mantê-la, sabendo que nesta história negativa não entra nem uma grama de poesia ou de forma poética, isto é, que se representa sobre o ar (renovado) de uma desaparição.
E, no entanto, pode-se dizer, ainda resta o verso. Bem, não! Há todas as chances de que o verso também não exista mais. O que continuamos chamando de verso atualmente, também é provavelmente uma denominação por hábito. Dizemos verso apenas para dizer: isso não é uma frase. É: outra coisa. O que chamamos verso hoje é: outra coisa. Mallarmé (Pour un tombeau d’Anatole), Faulkner (a turbulência em O som e a fúria), Collobert (Il donc), O. Cadiot (L’art poetic’), B. Hollander (o Livre de qui sont était – a sair na coleção Um escritório sobre o atlântico – isso aqui é uma publicidade) etc. não são nem prosa nem verso; são: outra coisa.
Então, eu disse a Henri Deluy: “Certo, vamos chamá-la de ‘forma-poesia’, esperando que ela não desapareça rápido demais, porque nós ainda precisamos dela para escrever nossas autobiografias de ninguém”.

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[Publicado em 1994, este texto foi uma resposta à enquete feita pela revista Action Poétique, que levantava essa pergunta aos seus colaboradores: "A forma-poesia vai, pode, deve desaparecer?". Dentre outras colaborações, há também esta aqui, de Leslie Kaplan.] 

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tia Elizabeth – Pierre Alferi


Tante elizabeth, (pierre alferi)

Tia Élizabeth

Atrás da casa da nossa Tia Elizabeth há o mais lindo pomar dos pomares
e no pomar a mais linda cerejeira das cerejeiras
e na cerejeira os mais lindos galhos dos galhos
e sobre os galhos as mais lindas folhas das folhas
e sobre as folhas o mais lindo ninho dos ninhos
e no ninho os mais lindos ovos dos ovos
e sobre os ovos o mais lindo pássaro dos pássaros
e sobre o pássaro as mais lindas penas das penas
e sobre as penas as mais lindas cores das cores
Sobre as cores há o mais lindo céu dos céus
e no céu a mais linda nuvem das nuvens
e na nuvem a mais linda chuva das chuvas
e sobre a chuva o mais lindo sol dos sóis
e ali como não há mais nada meia-volta volver


Esse vídeo, esse poema, esse cinema, esse cine-poema de Pierre Alferi. 
O áudio é tirado, segundo ele, de uma canção folclórica francesa. O texto que aparece ali não bate com o áudio. O texto que traduzo aqui é o que aparece como legenda no vídeo, porém na tradução ele acabou se constituindo com um desenho de poema, uma mancha de poema, enquanto que no vídeo, ele está emaranhado com o vocovisual in motion (portanto, a tradução deve funcionar entre chaves... outra opção de tradução seria preparar um outro vídeo, jogando com os mesmos elementos e meios do seu trabalho).
Pierre Alferi nasceu em Paris, em 1963, e é autor de romances, livros de poemas e de poética, como é o caso do seu lindo Chercher une phrase. Também tradutor, Alferi desenvolve um interessante trabalho com vídeos, buscando essa compaginação de texto e imagem, como aparece nesse "Tante Elizabeth".

domingo, 30 de outubro de 2011

Começo [excerto] – Nathalie Quintane






Desnecessário dizer o seu nome corretamente para saber que é este aí.


Com doze anos a chamaram de Barjavel (ela lia Barjavel).


O cão do clube dos cinco se chama Dagoberto.


Como aprender o nome das plantas se não as reconhecemos nas fotos.


Cães não receberam nomes mais singulares do que Rex.


Essa cadeira sem encosto se chama uma banqueta.


Que nome tomar se esquecemos o nosso.


Que nome tomar se esquecemos o nosso.


Que nome tomar se esquecemos o nosso.


O nome Pierre Boulez só é usado que eu saiba por Pierre Boulez.


Meu tio mesmo morto tem o mesmo nome.


Meu tio mesmo morto tem o mesmo nome.




Tradução de Paula Glenadel





A leitura acima é um fragmento do vídeo feito pela revista Java para comemorar seus 20 números de existência (o vídeo é do final dos anos 90. A foto ao lado é do número duplo 23/24). Neste número-em-vhs, a Java traz leituras de alguns poetas que tinham aparecido nas páginas da revista (Nathalie Quintane, C. Tarkos, Charles Pennequin etc.), depoimentos dos seus editores (Jean-Michel Espitallier, Vannina Maestri e Jacques Sivan) e de vários outros escritores, como Olivier Cadiot, Valère Novarina, Cristian Prigent etc. Podemos ver-ouvir Quintane lendo trechos do seu livro
Começo. Abaixo, segue o original do texto lido – a experiência de acompanhar a leitura dela com o original torna mais evidente o jogo de sons que a autora faz em alguns trechos, como a última frase ecoando o nome não-dito do tio (ecoando também o poema de wallace stevens).






Pas besoin de dire son nom correctement pour savoir que c'est celui-là.


A douze ans on l'appela Barjavel (elle lisait Barjavel).


Le chien du club des cinq s'appele Dagobert.


Comment apprendre le nom des plantes si on ne les reconnaît pas sur les photos.


Des chiens n'ont pas été doté des noms plus singuliers que Rex.


Cette chaise sans dossier s'appele un tabouret 


Quel nom prendre si on oublie le sien.


Quel nom prendre si on oublie le sien.


Quel nom prendre si on oublie le sien.


Le nom Pierre Boulez n'est utilisé à ma connaissance que par Pierre Boulez.


Mon oncle même mort a le même nom.


Mon oncle même mort a le même nom.