domingo, 19 de agosto de 2012

Um guarda-chuva de Piccadily – Jaroslav Seifert


Se você não sabe o que fazer em relação ao amor
tente se apaixonar outra vez –
por exemplo, pela Rainha da Inglaterra.
Por que não!?
O rosto dela aparece em todos os selos postais
daquele antigo reino.
Mas se você a convidasse
para um encontro no Hyde Park
com certeza
esperaria em vão.

Se tivesse um mínimo de senso
diria a si mesmo sabiamente:
Por quê?, é claro, entendi:
está chovendo no Hyde Park hoje.

Quando esteve na Inglaterra
meu filho me trouxe de Piccadilly em Londres
um elegante guarda-chuva.
Sempre que preciso
tenho agora sobre a minha cabeça
meu próprio céu em miniatura
que pode até ser preto
mas em seus raios de arame tensionados
a misericórdia de Deus escorre como
uma corrente elétrica.

Abro meu guarda-chuva mesmo quando não chove
como um dossel 
sobre o volume dos sonetos de Shakespeare
que levo no bolso.

Mas em alguns momentos até 
o cintilante buquê do universo me assusta.
Ultrapassando a beleza
ele nos ameaça com tamanha infinitude
que parece mais
o sono da morte.
Ele também nos ameaça com o vazio e quando congela
suas milhares de estrelas
que à noite nos iludem
com seu brilho.

Aquela a que chamamos Vênus
é a mais aterrorizante.
Ela possui pedras que ainda estão fervendo
e como gigantescas ondas
as montanhas vão surgindo
e queimando as cascatas de súlfur.

Sempre perguntamos onde será que fica o inferno.
Ele está ali!

Mas para que serve um frágil guarda-chuva
diante do universo?
Além do quê, eu nem mesmo o levo comigo.
Tenho bastante trabalho
para ficar
me arrastando pelo chão
como uma mariposa noturna durante o dia
em uma áspera casca de árvore.

Toda minha vida procurei o paraíso
que outrora existiu aqui,
cujos rastros eu havia encontrado
somente nos lábios das mulheres
e nas curvas produzidas pela sua pele 
com o calor do amor.

Toda minha vida desejei
a liberdade.
Enfim, descobri o caminho
que até ela conduz.
É a morte.

Agora que estou velho
verei o rosto de alguma charmosa mulher
uma vez ou outra flutuando entre meus cílios
e seu sorriso transformará meu sangue.

Timidamente me viro 
e lembro da Rainha da Inglaterra,
cujo rosto está em todos os selos postais
daquele antigo reino.
God save the Queen!

Sim, eu sei muito bem:
está chovendo no Hyde Park hoje.




Jaroslav Seifert nasceu em Praga, em 1901. Depois de receber o Prêmio Nobel de Literatura em Estocolmo, em 1984, Jaroslav Seifert faleceu em Praga, em 1986. Nesse poema, Jaroslav não está no Hyde Park, mas se ele me convidasse para um encontro ali, não me esperaria em vão (even raining). Nesse poema, está chovendo no Hyde Park, e eu estou do outro lado do hemisfério sentada sob o sol, lendo o lindo volume que reúne sua poesia em inglês, The poetry of Jaroslav Seifert, de onde traduzi "Um guarda-chuva de Piccadily". (há também 2 poemas de Jaroslav em português aqui na Modo de usar & co.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

No filme... – Roberto Bolaño


No filme na TV o gângster toma um avião
que se levanta lentamente contra um entardecer em preto e branco.
Sentado na poltrona você movimenta a cabeça: na janela
vê o mesmo entardecer, as mesmas nuvens em preto
e branco. Você levanta e cola a mão no cristal:
o reator do gângster abre caminho entre as nuvens,
nuvens incrivelmente lindas, cachos da cabeleira
do seu primeiro amor, lábios ideais que formulam
uma promessa, mas que você não entende.
A imagem que se desloca pelo céu, a imagem
do televisor são idênticas, o mesmo anseio, o mesmo
olhar. E no entanto, você treme e não entende.




Roberto Bolaño nasceu em 1953, no Chile. Roberto Bolaño partiu em 2003, de Barcelona. Roberto Bolaño dispensa apresentações, depois dos livros que deixou, sobretudo seus romances 2666 e Los detectives salvages. Roberto Bolaño publicou em vida um livro de poemas, Três, com três poemas longos, e deixou organizado para publicação A universidade desconhecida, de onde traduzi este poema, com textos escritos entre 1977 e 1993, espécie de "universidade móvel", como ele chamou o livro, testemunho dos anos de formação literária. O vídeo reproduzido nesse post foi feito às margens do rio Sena em um entardecer preto e branco de um julho já meio distante. Na ocasião senti essa tremura diante das nuvens e suas formas mutantes: tudo está ali mas você não entende.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Tia Elizabeth – Pierre Alferi


Tante elizabeth, (pierre alferi)

Tia Élizabeth

Atrás da casa da nossa Tia Elizabeth há o mais lindo pomar dos pomares
e no pomar a mais linda cerejeira das cerejeiras
e na cerejeira os mais lindos galhos dos galhos
e sobre os galhos as mais lindas folhas das folhas
e sobre as folhas o mais lindo ninho dos ninhos
e no ninho os mais lindos ovos dos ovos
e sobre os ovos o mais lindo pássaro dos pássaros
e sobre o pássaro as mais lindas penas das penas
e sobre as penas as mais lindas cores das cores
Sobre as cores há o mais lindo céu dos céus
e no céu a mais linda nuvem das nuvens
e na nuvem a mais linda chuva das chuvas
e sobre a chuva o mais lindo sol dos sóis
e ali como não há mais nada meia-volta volver


Esse vídeo, esse poema, esse cinema, esse cine-poema de Pierre Alferi. 
O áudio é tirado, segundo ele, de uma canção folclórica francesa. O texto que aparece ali não bate com o áudio. O texto que traduzo aqui é o que aparece como legenda no vídeo, porém na tradução ele acabou se constituindo com um desenho de poema, uma mancha de poema, enquanto que no vídeo, ele está emaranhado com o vocovisual in motion (portanto, a tradução deve funcionar entre chaves... outra opção de tradução seria preparar um outro vídeo, jogando com os mesmos elementos e meios do seu trabalho).
Pierre Alferi nasceu em Paris, em 1963, e é autor de romances, livros de poemas e de poética, como é o caso do seu lindo Chercher une phrase. Também tradutor, Alferi desenvolve um interessante trabalho com vídeos, buscando essa compaginação de texto e imagem, como aparece nesse "Tante Elizabeth".

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"o pesadelo começa..." – Roberto Bolaño



O pesadelo começa ali, nesse ponto.
Mais além, em cima e embaixo, tudo é parte do
pesadelo. Não meta sua mão nesse vaso. Não
meta sua mão nessa floreira do inferno. Ali
começa o pesadelo e tudo quanto dali
faça crescerá sobre suas costas como uma corcunda.
Não se aproxime, não ronde esse ponto equívoco.
Embora veja florescer os lábios de seu verdadeiro
amor, embora veja florescer umas pálpebras que
queria esquecer ou recobrar. Não se aproxime.
Não dê voltas em torno deste equívoco. Não
mova os dedos. Acredite em mim. Ali só cresce
o pesadelo.

sábado, 7 de abril de 2012

"hoje vou com aquele..." – Bénédicte Houart






hoje vou com aquele que me levar
e se for uma mulher
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se for um homem
vou com as suas mãos que remendam
e não substituem
e se ninguém houver
vou com ninguém que me leva sempre
para onde não quero
e vou com as suas mãos que substituem não remendam
é por isso que à noite
espreito para a janela dos comboios
e cumprimento-me timidamente







Bénédicte Houart nasceu na Bélgica, em 1968, e vive em Lisboa desde criança. No vídeo acima, tirado do site português Sapo.pt, Bénédicte Houart lê um poema do seu primeiro livro, Reconhecimento, de 2005. 
[aliás, não consegui trazer o vídeo do sapo.pt sem a propaganda... se alguém souber como fazer, agradeço uma mensagem acerca deste assunto...]
Leia aqui outro poema de Bénédicte, que fala de M&M's e direitos de autor, e aqui essa canção belga que fiz para ser lida no lançamento do seu livro Vida: variações II.

domingo, 25 de março de 2012

Grandes mamíferos – Franklin Alves Dassie



1. Uma caixa

Eu é um rinoceronte, um hipopótamo –
um americano idiota espancando
latinos –
de repente, eu estava em todos os lugares
em todos os lugares
e numa caixa
Eu é uma caixa
Esta caixa contém o suco de quinze laranjas
e eu dentro
Esta caixa contém o suco de quinze rinocerontes
e um hipopótamo americano idiota
Esta caixa contém o suco de quinze latinos
espancados
Esta caixa com quarenta e seis pessoas
dentro, mais eu dentro,
não consegue nadar
impossível com tanto peso
disse um dos mamíferos
Impossível com tanta gente



2. Mastozoologia

Eu é alguém acima do peso normal.




3. Eu é um outro

Escrevam corretamente meu endereço
porque há um outro Rimbaud aqui
um outro, um Rimbaud
agente de viagens marítimas
Fizeram-me pagar 10 centavos
de taxa extra de franquia
porque meu endereço
não foi escrito
corretamente


  
4. Um nome

Um nome nunca é escrito corretamente –
Eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero, alguém acima do peso normal:
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado, se caixa fosse
caixote, se fosse um americano, de corpo atarracado,
em forma de barril, tentando escrever
Ele é a terceira pessoa, contando da esquerda
para a direita naquela fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes, hipopótamos, americanos idiotas
e franceses exilados no continente
africano – seria legal se o mundo se chamasse Pablo Picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanta gente




5. Outro nome
Não estou dirigindo muito bem ainda
a dor na perna esquerda dificulta-me
com os pedais –
talvez, depois dos remédios,
a situação fique melhor,
mas não acredito
 – impossível com tanto peso
impossível com este
trânsito



6. Quinze laranjas
Eu está submerso –
desligado de tudo que não eu mesmo
dentro de uma caixa com o suco de quinze laranjas:
pronto para beber
sem adição de açúcar
nem conservantes –
Eu tomo o suco de quinze laranjas
Eu-hipopótamo espancando
um americano idiota
na piscina de um hotel sul-africano cinco estrelas –
talvez melhore depois dos remédios
é provável que não
Eu é alguém acima do peso normal
que está em todos os lugares
que não precisa mais de casaco
já que uma camada adiposa extra é um casaco
– quinze laranjas no bolso
quinze pontos na perna doente
Eu não sinto mais frio
mas tenho uma sede infernal
resmungou outro mamífero
depois de tomar o suco de quinze
rinocerontes




7. Gran finale com gastrite

Uma caixa, dois nomes e quinze laranjas:
mastigue bem os alimentos
e lembre-se que a sede infernal é sintoma de alguma coisa
Eu é um mamífero –
a perna ainda dói, mas já tirei os pontos
Eu está em todos os lugares, sempre bem
acompanhado: rinocerontes, hipopótamos
americanos, latinos e franceses exilados
em hotéis cinco estrelas:
Depois do diagnóstico nada animador,
achei melhor desistir dos
refrigerantes, apesar de saber que uma caixa
com o suco de quinze laranjas
contém o suco de quinze latinos
espancados –
Impossível com tanta gente
não escrever
o endereço errado 



Franklin Alves Dassie nasceu em Niterói, em 1973, se é que não escrevi o endereço errado. Impossível com tanta gente. Franklin Alves Dassie é professor de Teoria da Literatura na UFF. Uma caixa dando para o mar, perto das barcas, com paralelepípedos no chão. Impossível com tanto lugar. O endereço errado não chegaria a gragoatá, impossível com esse trânsito todo. Publicou o livro de ensaio Sebastião Uchoa Leite, na coleção Ciranda da poesia e poemas em várias revistas. Este "Grandes mamíferos" saiu na página Risco [Prosa e verso/ O globo]. Impossível com tanta data.

sábado, 3 de março de 2012

Dezembro – Charles Simic

   
       Neva
e mesmo assim os homens-
       sanduíche
levam seus cartazes –

       um proclama
o fim do mundo
       o outro
os preços de um barbeiro local