quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente – Marília Garcia




em 2008, participei da antologia a nossos pés, em homenagem a ana c., organizada pelo manoel ricardo de lima e publicada pelas editoras da casa e dantes. 
coloquei o a teus pés em ordem alfabética e depois escrevi um poema, usando alguns trechos da letra a. agora o poema virou um vídeo neste mashup de a téus + imagens tiradas do je, tu, il, elle, de chantal akerman, feito para o blog da companhia das letras, por ocasião do lançamento do poética, da ana c. (http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/12/homenagem-a-ana-c-por-marilia-garcia/) 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Começa – Josée Lapeyrère





começa quase sempre com um traço

uma palavra.... uma mosca que voa ou
um leopardo que atravessa o avesso
da janela ....de um salto.... e entre o arco
de suas patas estiradas ....eu vejo o homem
que lava os vidros ....ele não viu
a fera assim como os outros sentados
em seus escritórios.... diante das telas azuis
começa com um traço...... um índice
leve uma mosca que voa ....ou
uma tatuagem como a de um sol que
surge da dobra do cotovelo do lutador
as linhas negras saindo em leque
em direção a um bíceps para sempre matinal ou

o ruído da cadeira raspando
o ladrilho .....que desperta.... gritando
seus quatro pés...... um peso essa cadeira
a cadeira vermelha por que você já vai
por que não vai ..........vem
aqui me dá um beijo....... me deixa uma marca
a marca dos dentes ......ou das garras
a marca do chicote .......ou do vôo
da mosca ......a marca de um traço no ar

sábado, 14 de dezembro de 2013

Samba-canção – Ana Cristina Cesar




Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo para você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera, risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia)
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz dos spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A forma-poesia vai, pode, deve desaparecer? – Emmanuel Hocquard



A primeira formulação desta pergunta – “A poesia pode, vai, deve desaparecer?” – tinha a vantagem de já trazer a resposta dentro dela. Uma vez formulada a pergunta, conclui-se que ela pode existir. Quem, hoje em dia, questionaria se a televisão, por exemplo, pode, vai, deve desaparecer? Perguntar-se isso a respeito da poesia é dizer que sim. Este “sim” pode, no melhor dos casos, vir acompanhado de uma entonação extra: infelizmente, enfim, com prazer, o quanto antes melhor etc.
A nova formulação da pergunta (“A forma-poesia pode, vai, deve desaparecer?”) responde, na verdade, à afirmação da primeira. Perguntar se a forma-poesia – forma diferente daquela da prosa – pode, deve, vai desaparecer é dizer implicitamente: “certamente a poesia vai desaparecer, mas e a forma-poesia deve desaparecer por esta razão? Eu gosto muito deste recuo. Eu gosto muito da sutileza (perversidade) da pergunta. A Action Poétique, com o ar de quem não está dando os nomes aos bois, me surpreende de modo deleitoso, pois:

1. Eu gosto muito da Action Poétique
2. Eu gosto muito do Henri Deluy
3. Eu não posso simplesmente representar para mim mesmo o que poderia ser uma forma-poesia (Evidentemente compreendi bem que a pergunta não diz respeito a “formas poéticas simples”).

A rigor, poderia imaginar uma forma-prosa como uma linha. Um romance, um ensaio, um tratado etc. cabem, cada um, em uma única linha. Uma linha mais ou menos longa dependendo do caso: Bartebly menos longa do que Moby Dick. Para fazer caber uma linha de X quilômetros em um livro, nós a dobramos, como dobramos um metro articulado para que ele caiba num bolso. A maneira de dobrar a linha-prosa (sua justificação) obedece geralmente (na maioria dos casos) a critérios exteriores ao texto, tais como: o formato do livro, sua visibilidade etc., e não a critérios do pensamento.
A “forma-poesia” seria então, ao contrário, uma não-forma. Não a prosa dobrada, mas uma outra maneira de pensar. A não ser que consideremos “forma-poesia” como um aspecto (Gestalt): quando abrimos um livro de poesia, vemos imediatamente que:

1. não é prosa
2. então é poesia.

Um pouco breve, não? No entanto, não podemos ir além disso. O que salva a pergunta é a evocação do futuro. A “forma-poesia” vai desaparecer? Temos aí uma indicação de contexto (França, 1994).
Uma pergunta: a “forma-poesia” não seria uma forma por falta de outra definição? Resposta: não, isso seria muito simples! Outra pergunta: a forma-poesia seria a forma de uma outra maneira de ver, pensar, mostrar? Nem sempre, mas de qualquer maneira, seu projeto sim.
Quando W. observa que a filosofia deveria ser escrita como uma composição poética, ele mostra implicitamente este projeto: encontrar a ferramenta apropriada para operar relações (que não sejam prosa discursiva) entre objetos da linguagem.
A “forma-poesia” não pode então ser tomada como uma forma geral mas como a concretização de intenções singulares.
Eu perguntei ao Alexandre Delay, pintor, se a forma-poesia – forma diferente daquela da prosa – vai, pode, deve desaparecer? E sua resposta:
Eu diria que sim. Por princípio. Em seguida, me diria o seguinte: se queremos fazê-la desaparecer e se ela não quiser desaparecer, ela reaparecerá sob uma outra forma, se houver alguma necessidade. O que há de positivo na ideia da desaparição, é que ela vai engatar o processo da ressurreição em outro lugar, sob outra forma. Isso significa que ela pode nos ensinar alguma coisa que nós não somos talvez mais capazes de ver nesta forma, diferente da prosa.
Destacar aqui a desaparição é uma maneira interessante de entender a pergunta, pois deste modo um contexto é reintroduzido. Sentimos claramente, hoje, que alguma coisa vai, pode, deve desaparecer, mas não sabemos bem o que é. E não saberemos nunca se fizermos deste fato um objeto do pensamento (poesia, ou “forma-poesia”, pouco importa). Trata-se aqui de permitir, de propor, de manter aberto o projeto de outras maneiras de pensar ou de ver ou de dar a ver. Vista deste ângulo, a forma-poesia não terá mais nada a ver com a poesia (e nem com a prosa, aliás). A “forma-poesia” será apenas uma denominação por falta de outra qualquer.
Mas como, de fato, nós não temos outra à nossa disposição, podemos mantê-la, sabendo que nesta história negativa não entra nem uma grama de poesia ou de forma poética, isto é, que se representa sobre o ar (renovado) de uma desaparição.
E, no entanto, pode-se dizer, ainda resta o verso. Bem, não! Há todas as chances de que o verso também não exista mais. O que continuamos chamando de verso atualmente, também é provavelmente uma denominação por hábito. Dizemos verso apenas para dizer: isso não é uma frase. É: outra coisa. O que chamamos verso hoje é: outra coisa. Mallarmé (Pour un tombeau d’Anatole), Faulkner (a turbulência em O som e a fúria), Collobert (Il donc), O. Cadiot (L’art poetic’), B. Hollander (o Livre de qui sont était – a sair na coleção Um escritório sobre o atlântico – isso aqui é uma publicidade) etc. não são nem prosa nem verso; são: outra coisa.
Então, eu disse a Henri Deluy: “Certo, vamos chamá-la de ‘forma-poesia’, esperando que ela não desapareça rápido demais, porque nós ainda precisamos dela para escrever nossas autobiografias de ninguém”.

**

[Publicado em 1994, este texto foi uma resposta à enquete feita pela revista Action Poétique, que levantava essa pergunta aos seus colaboradores: "A forma-poesia vai, pode, deve desaparecer?". Dentre outras colaborações, há também esta aqui, de Leslie Kaplan.] 

domingo, 15 de setembro de 2013

[platão lhe disse...] – e.e. cummings

platão lhe
disse:ele não
quis ouvir(jesus
lhe disse;ele
não soube
ouvir)lao
tse
certamente lhe
disse,e o general
(sim
senhora)
sherman;
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse:eu lhe
disse:nós lhe dissemos
(ele não ouviu,não
senhor)foi preciso
um pedaço niponizado do
velho elevado da 6ª
avenida;
no meio da testa:pra que ele ou
visse
na tradução de augusto de campos

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Não gosto tanto de livros -- Adília Lopes


Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever