terça-feira, 14 de julho de 2015

Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu – Emmanuel Hocquard





Eu não sei se Fernando Pessoa realmente existiu
(admitindo que saibamos o que existir quer dizer)
mas eu acho que ele existe à medida
que cada um de nós acha que ele existe.
E que neste sentido ele é único.
Não no sentido em que cada um de nós é único
– ou pensa ser –
mas no sentido em que Fernando Pessoa é único
isto é, como um gerânio
no meio de outros gerânios,
isto é, como todo mundo.

O que o torna tão diferente de muitos dos outros poetas
é a sua indiferença a todas as coisas,
dentre elas, à poesia e à indiferença.
Sua indiferença não é uma pose, nem uma atitude.
Ela é a expressão de uma inteligência viva.
Para Fernando Pessoa, ser inteligente é duvidar de todas as coisas,
dentre elas, da inteligência e da dúvida,
é tentar se desfazer daquilo que aprendemos.
Fernando Pessoa maneja sua inteligência
como o contrabandista de Valery Larbaud usa
seu pequeno espelho de bolso
para ter certeza de que os funcionários da alfândega não estão na sua cola.
Eu acho que ele tinha um olhar de mosca.
E que seus olhos de mosca lhe permitiam ver tudo
ao mesmo tempo, uma coisa e seu contrário,
e mais alguma coisa que não é exatamente seu contrário
e que é, no fim das contas, a mesma coisa.

Admitindo que Fernando Pessoa tenha algum dia existido
(e que tenhamos chegado a um acordo sobre o que existir quer dizer)
eu acho que ele era do tipo que podemos chamar solitário,
e que ser solitário como eu imagino que ele tenha sido
é estar presente ao mesmo tempo em todos os lugares e em lugar nenhum
é ser ao mesmo tempo todo mundo e ninguém.
Ser Fernando Pessoa é ser tudo, para ele somente.
E alguma coisa que tem a ver com o sono.

T.S. Eliot precisava de Deus para amar
e para escrever o que ele escreveu.
A metafísica dava náuseas em Fernando Pessoa
porque a metafísica supõe uma dualidade
que lhe revolvia o estômago.
Esta náusea da alma (que ele mantinha
ao escrever o que ele escrevia)
lhe fez escrever o que ele escreveu
até não poder mais pensar, até este esgotamento
que tem a ver com o sono.

A voraz banalidade das coisas cotidianas
é seu ponto de partida e seu ponto de chegada.
Ele não pega uma coisa qualquer da realidade de todos os dias
para destacá-la e lhe dar um sentido
mais alto, nem outro sentido qualquer que esteja fora dela mesma.
Ele pega uma coisa banal que ele expõe por um momento
à luz enganosa da metafísica
para recolocá-la, inalterada – ou quase –
na banalidade voraz das coisas cotidianas.

Seigen Ishin afirmava que antes de estudar o Zen
sob a orientação de um bom mestre
as montanhas são montanhas e as águas são águas.
Que, chegando a uma certa visão interior da verdade,
as montanhas não são mais montanhas
e as águas não são mais águas.
Mas que uma vez atingido o estado de quietude,
de novo as montanhas são montanhas
e as águas são águas.
Eu não compreendo muito bem o que isso quer dizer,
mas eu acho que Fernando Pessoa teria ficado contente
de ouvir essa história.

Sem sombra de dúvida, é em torno dessa questão,
ou de alguma coisa próxima a isso, que giram sua lucidez
e sua retórica de gerânio.

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emmanuel hocquard nasceu em cannes em 1940.
emmanuel hocquard passou sua infância e adolescência em tânger
tânger é muito presente na obra de emmanuel hocquard
emmanuel hocquard começou a publicar seus textos como plaquetes nos anos 60
na editora artesanal que ele criou com a raquel lévy
a orange export ltd.
em 1978 saiu seu primeiro livro por uma editora comercial (pol)
"eu não sei se fernando pessoa realmente existiu" 
foi tirado do livro um detetive em tânger (pol, 1987)
e leitura do poema que abre esse post foi gravada em 2009
na casa de emmanuel hocquard em mérilheu
vila que fica nos pirineus franceses.

mais textos traduzidos de hocquard aqui

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Vertigo above the planalto – Rob Packer






… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind, of the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, who perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs there like here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô is the end stress that’s adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offering up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,


__________

incluo esse voo do rob packer 
o poema chegou há pouco tempo
e veio acompanhado da foto que abre o post
tirada pelo rob no sul da frança
"um trem pode esconder outro" é o título e mote de um poema do kenneth koch (este aqui)
que peguei como ponto de partida para escrever o engano geográfico.

o rob packer é inglês e mora no rio de janeiro
o rob packer escreve no blog nomadic permanence 
onde já postou um lindo texto sobre o engano geográfico
https://robpacker.wordpress.com/2014/04/09/one-map-can-hide-another-marilia-garcias-engano-geografico/



quinta-feira, 4 de junho de 2015

Minha vida com o doutor Lacan – Jacques Roubaud



"Um livro é a autobiografia de seu título
e, como tal, é a narrativa de uma singularidade", fim de citação.


1.
Aos 20 anos, percebi que uma amiga minha de infância era linda.
Eu estava amando. Ela se chamava Sylvia.


2.
Era filha de Paul Bénichou. A mãe era Gina, nome de solteira Labin.


3.
Um dia, fomos juntos ver um filme de Jean Renoir, O crime do Sr. Lange. Descobri que a atriz principal tinha sido amiga íntima de Gina Labin-Bénichou. O nome dela era Sylvia Bataille.


4.
Lembro que naquela época Paul Bénichou, sempre de uma elegância irrepreensível, gostava de falar dos jalecos coloridos que seu amigo Lacan usava durante a juventude. Acho que havia uma ponta de ironia no que ele dizia.


5.
Nós tivemos uma filha, Laurence: Laure é um nome provençal e também o nome da prima do meu pai, que vivia em Saint-Jean du Var; um nome de poema. Além disso, a filha de Sylvia Bataille se chamava Laurence Bataille.


6.
Em 1961, depois do suicídio do meu irmão, me levaram, como militar repatriado por motivos médicos do Saara , para o pavilhão isolado do hospital de Val-de-Grâce. O doutor Lacan se responsabilizou pela minha alta do hospital e pela minha volta para casa. Ele me recebeu em seu consultório. Eu só me lembro do silêncio.


7.
Provavelmente em 1965, com um amigo da época, o matemático Philippe Courrège, eu li e tentei entender o "Seminário da carta roubada".


8.
Um dia, acho que no final de 1968, recebi um telefonema. Atendi e ouvi uma voz: "Sou eu". De novo, o silêncio. "Lacan" (não tenho certeza dessa última palavra, mas das primeiras, sim.), "Temos que nos ver."


9.
Marcamos, então, um encontro; eu fui até a casa dele, na rue de Lille; saímos para caminhar; mas ele não me disse o motivo do encontro.


10.
Assim, nós nos vimos 2 vezes.


11.
Eu nunca mais o revi.


**


texto publicado pela primeira vez em 1989 na 1/1 paris-londres éditions
e depois nessa linda edição (cuja capinha abre este post)
da éditions de l'attente http://www.editionsdelattente.com

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Quando cai a noite – Dimitri BR


todo dia
quando cai a noite
você vem
e diz: 
 esperei o dia todo
a noite cair
pra eu vir
uma madrugada
se você não vem
eu fico assim
esperando
a madrugada ir
pra você vir
talvez
amanhã à noite
é outro dia
 a noite vai cair
todo dia
quando cai a noite
você vem
esperei o dia todo a noite cair
todo dia quando cai a noite você vem
quando cai a noite você vem

*
o dimitri br tem um monte de vídeocanções no seu álbum de figurinhas online:

http://www.diahum.com/albumdefigurinhas/ 
fiquei pensando em qual iria postar 
é até difícil escolher um único vídeo para postar
mas esse aqui sempre foi especial porque ainda por cima
tem a gra cantando!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

[Perdido. Há uma piscina...] – Pierre Alferi






Perdido. Há uma piscina em algum canto
e num outro um boliche enterrado.
Labirinto é um lugar do qual conhecemos os ângulos,
como se os tivéssemos traçado em outro momento, mas
não identificamos exatamente o ponto em que estamos.
Atrás do Panthéon para o leste, chegando dessa vez
nas ruas Monsieur-le-Prince e Soufflot: é ali,
Q-17 no Indispensável. A máxima mais alegre
seria "você não vai embora até ver tudo".
Acho que sei o nome de cada ruela entre
a rua Mouffetard e a rua Geoffroy-Saint-Hilaire
 grande coisa! Subimos e descemos o tempo todo,
dizemos: pronto, era aqui então. Para penetrar num labirinto,
em sua ideia, é preciso além de tudo excluir a eventual possibilidade
de andar em círculos. Assim, o vendedor de madeira e carvão,
a rua do Puits-de-l'Ermite e, consequentemente, a própria rua
sempre me pareceram ou muito altas ou muito baixas.
Li um artigo sobre as abelhas e os robôs descentrados,
a viagem tranquila de um indivíduo, de uma informação
através de uma colmeia, um cérebro, um país que não tem
mapa. Gosto acima de tudo dos rituais, da miopia,
do que vem por eliminação ou no passo a passo,
o olhar no nível do chão. A rua Mouffetard é uma régua graduada
para toda a região, mas uma regra cujos valores
 uma livraria, o Roi Café, o mercado se invertem logo que eu viro as costas.
O destino, para uma caminhada metódica,
é menos um ponto, aquele digamos onde acaba a rua de la Clef,
do que o preenchimento de casas vazias. Pode-se assim considerar
cada segmento como um parêntese. Ao modo dos turistas
que fazem Creta, eu faço esse lugar. Para completar minha desorientação,

não vi ninguém que tenha me visto, caçador nem explorador.
Na rue Épée-de-Bois, um caminhão transporta as cartas.





















poema originalmente publicado no livro Chemin familiar du poisson combatif (1992)
mas lido nessa antologia para flâneurs
com poemas que falam sobre andar (e se perder) pelas ruas de Paris

o pierre alferi é um poeta e artista francês
o pierre alferi é professor na école de beaux arts
ele escreveu vários livros fez alguns cine-poemas e tem esse blog com seu trabalho
aqui um dos cine-poemas

tive uma dúvida ao traduzir esse poema: o que é Q-17 no Indispensável?
Q-17 pode ser um certificado anti-incêndio
Q-17 pode ser um sistema de câmeras
Q-17 pode ser muitas outras coisas
ainda não consegui decifrar
o que é
nem o Indispensável
que ele fique sendo aqui mais uma medida para me deixar perdida no mapa
por fim poderia ser um ponto no jogo de batalha naval...

ah
e a imagem do henri cartier-bresson
de 1954
é na rue mouffetard
e se chama
en fait
rue mouffetard
embora o menino não tenha a menor pinta de perdido...

quarta-feira, 20 de maio de 2015

[excerto de Ellis Island] – Georges Perec


[Ellis Island, segundo a wikipedia, em 1905]


cinco milhões de emigrantes vindos da Itália

cinco milhões de emigrantes vindos da Irlanda

um milhão de emigrantes vindos da Suécia

seis milhões de emigrantes vindos da Alemanha

três milhões de emigrantes vindos da Áustria e da Hungria

três milhões e quinhentos mil emigrantes vindos da Rússia e da Ucrânia

cinco milhões de emigrantes vindos da Grã-Bretanha

oitocentos mil emigrantes vindos da Noruega

seiscentos mil emigrantes vindos da Grécia

quatrocentos mil emigrantes vindos da Turquia

quatrocentos mil emigrantes vindos dos Países Baixos

seiscentos mil emigrantes vindos da França

trezentos mil emigrantes vindos da Dinamarca



          durante todos esses anos, os navios a
vapor da Cunard Line, da Red Star Line, da
Anchor Line, da Italian Line, da Hamburg-
Amerika Line, da Holland-America Line,
atravessaram o Atlântico norte

        eles partiam de Rotterdam, de Brême, de
Göteborg, de Palerme, de Istambul, de Napoles, de Anvers,
de Liverpool, de Lübeck, de Salonique, de Bristol, de
Riga, de Cork, de Dunkerque, de Stettin,
de Hambourg, de Marselha, de Gênes, de Danzig, de
Cherbourg, de Pirée, de Trieste, de Londres, de Fiume,
de Havre, de Odessa, de Tallin, de Southampton

     eles se chamavam Darmstadt, Furst
Bismark, Staatendam, Kaiser Wilhelm,
Königin Luise, Westerland, Pennland,
Bohemia, Polynesia, Prinzess Irene, Princeton
Umbria, Lusitania, Adriatic,
Cornia, Mauretania, San Giovanni,
Giuseppe Verdi, Patricia, Duca degli Abruzzi,
New Amsterdam, Martha Washington,
Turingia, Titanic,
Lidia, Susquehanna, Albert-Balin
Hansington, Columbus, Reliance, Blücher




       mas a maior parte daqueles que, no fim
da exaustiva viagem, descobriam Manhattan
emergindo da bruma, sabiam que sua prova
não tinha terminado

eles ainda precisavam passar por Ellis Island
ilha que
em todas as línguas da Europa
tinha sido apelidada de A ilha das lágrimas

tränen Insel

wispa lez

island of tears

isola delle lagrime

oстров слез


         é uma pequena ilhota de quatorze hectares,
a algumas centenas de metros da ponta de
Manhattan.
os índios a chamavam de Ilha das Gaivotas
e os holandeses de Ilha das Ostras

[...]




nessa época
quase dezesseis milhões
de homens, de mulheres e de crianças
passaram por Ellis Island
dos quais mais de três quartos
entre 1892 e 1914

nesses anos
chegavam
quase dez mil pessoas por dia

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trechinho tirado desse livro aí em cima
Ellis Island, de Georges Perec (edição linda da POL)
que conta um pouco sobre a ilha-órgão
que abrigava o controle de imigração nos Estados Unidos até 1914