terça-feira, 4 de outubro de 2011

História verídica de uma conversa com o sol em Fire Island – Frank O'Hara


O sol me acordou esta manhã em alto
e bom som dizendo: “Ei, estou aqui
há quinze minutos tentando
acordá-lo. Não seja mal-educado, você
é o segundo poeta com quem eu falo
em toda a minha vida
                                        por que
você não me dá atenção? Se eu pudesse
queimá-lo pela janela para te
acordar eu o faria. Não posso ficar aqui
plantado o dia todo.” 
                               “Desculpa, Sol, ontem fiquei 
acordado até tarde conversando com o Hal.”

“Quando acordei o Maiakóvsky ele me
atendeu na hora” disse o Sol
irritado. “A maioria das pessoas já está de pé
esperando para ver se eu vou dar
uma passada.”
                                 Tentei me
desculpar: “Eu te esperei ontem”
“Melhor assim” ele disse. “Não sabia
que você ia aparecer” “Você deve estar se
perguntando porque eu estou aqui tão perto?"
“Sim” eu disse começando a sentir calor
e me perguntando se ele já não estava me 
queimando.
                            “Para falar a verdade, queria dizer
que gosto da sua poesia. Eu vejo muita coisa
em minhas voltas e o que você faz me agrada. Você pode
não ser a melhor coisa sobre a terra, mas
você é diferente. Acontece que ouvi algumas pessoas
dizerem que você é louco, na minha opinião 
eles são muito parados, e outros poetas
loucos acham que você é um reacionário
chato. Eu não.
                      Siga em frente como
eu faço e não lhes dê ouvidos. Você
verá que as pessoas vão sempre reclamar
do tempo, ou está quente demais ou frio demais
ou claro demais ou escuro demais, os dias estão
curtos demais ou longos demais.
                                               Se eu não aparecer
um dia eles vão achar que estou com preguiça
ou que morri. Apenas siga em frente, é o meu conselho.

E não se preocupe se sua linha é
poética ou simples. O sol brilha na
floresta, você sabe, na tundra no mar,
no gueto. Não importava onde: 
eu sabia de você e observava seu ir e vir. Estava
só esperando você começar o trabalho.
                  
                            E agora que você resolveu,
digamos, fazer sua própria vida,
mesmo que ninguém o leia, a não ser eu,
você não vai se deprimir. Nem todos podem
olhar para cima, mesmo que pra mim. Isso machuca
seus olhos.”
                            “Ah, Sol, sou tão grato a você!”

“Obrigado e lembre-se de que estou te vendo. É
mais fácil para mim falar com você daqui de
fora. Não tenho que deslizar por entre
os prédios para você me ouvir.
Eu sei que você adora Manhattan, mas
deve olhar para cima com mais frequência.
                                                        E
sempre abrace as coisas, pessoas, terra
céu estrelas, como eu faço, livremente e com
o sentido apropriado de espaço. É essa
sua inclinação, está nas estrelas,
e você devia segui-la até o inferno, se
preciso for, o que acho que não ocorrerá.
                                      Talvez nos falemos
de novo na Africa, lugar que me fascina 
especialmente. Volte a dormir agora,
Frank, e deixarei um minipoema
na sua cabeça como despedida.”

“Sol, não vá agora!” Enfim, eu tinha
acordado. “Eu preciso ir, eles estão me
chamando”
              “Quem são eles?”
                                     Subindo ele disse “Um
dia você saberá. Eles também estão te
chamando.” Sombrio ele subiu, e então eu dormi.



Frank O'Hara [1926-1966] nasceu em Baltimore e, a partir dos anos 50, foi viver em Nova Iorque, tendo integrado a Escola de Nova Iorque. Nesse contato acima, O'Hara está na companhia da pintora Grace Hartingan. Frank O'Hara morreu tragicamente depois de ter sido atropelado em uma praia em Fire Island. Publicou diversos livros, dentre os quais está o lindo Lunch poems, editado em 1964 por Lawrence Ferlinghetti na coleção da City Lights: 



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